novembro 30, 2007
É o que acontece...
A arte de Mário Viegas em rifão popular. Que nos sirva a todos...
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maio 27, 2007
E domingo, e a Procissão sg/ João Villaret.
Sendo domingo ... nada melhor para a salvação da alma do que João Villaret "dizendo" a Procissão...
(Clique na imagem para ouvir...)
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março 07, 2007
Receita de mulher...sg/ Vinicius de Morais.
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Publicado por morfeu às 11:30 AM | Comentários (3) | TrackBack
janeiro 31, 2007
O Lugar Da Liberdade.
Não há mansão por rica que seja
que valha o conforto da minha choupana.
No alto as Estrelas, dádiva do Céu,
o Sol e a luz e o brilho da Lua.
Pela mão dos Anjos e seu engenho foi posta de pé
- É esta uma história que hei-de contar.
E o meu Senhor, o Deus das Alturas,
Deu-lhe um telhado feito de colmo.
Na minha morada a chuva não cai
E não há que temer espadas e lanças.
É um lugar onde se goza a liberdade
Jardim aberto sem sebe em redor.
(Autor desconhecido, séc. IX. )
in A Perfeita Harmonia - Poemas Celtas da Natureza
(Tradução de José Domingos Morais)...in Poemário A/Alvim, 2007.
Publicado por morfeu às 06:09 PM | Comentários (1) | TrackBack
junho 29, 2006
Última viagem... sugiro.
António Machado (1875 - 1939)
Publicado por morfeu às 08:41 AM | Comentários (2)
junho 23, 2005
E a vida é feita de ...
...de nadas...
A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga
Publicado por morfeu às 05:27 PM | Comentários (6)
junho 20, 2005
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tiva
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau de sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mais triste de não ter jeito
Quando de noite me der
- Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
manuel bandeira (Recife,Brasil, 1886-1968)
...por sugestão de Mª.Alzira Seixo,o.c
Publicado por morfeu às 07:38 PM | Comentários (4)
junho 18, 2005
(Não posso adiar o amor para outro século)
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
não posso adiar o coração
antónio ramos rosa
(lido in “poemas da minha vida” de Maria Alzira Seixo)
Ps. Não desfazendo das escolhas de anteriores figuras e suas propostas antológicas, considero lindíssimas as feitas pela Mª Alzira Seixo. Recomendo vivamente a compra deste volume, editado pelo Público.
Publicado por morfeu às 07:40 PM | Comentários (2)
junho 09, 2005
Ao putativo salvador do défice...dedico!
Ó Capitão! Meu Capitão!
Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que
buscávamos está ganho,
O porto está próximo, oiço os sinos, toda a gente está
exultante,
Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.
Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos
voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.
O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e
imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem
vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está
concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo
ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto.
Walt whitman
(tradução de Mª de Lurdes Guimarães – lido in: “Os poemas da minha vida, Diogo Freitas do Amaral, ed. Público)
Publicado por morfeu às 01:38 PM
junho 08, 2005
Meu país desgraçado...
Meu país desgraçado!...
e no entanto há Sol a cada canto
e não há mar tão lindo noutro lado.
Nem há céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclamam filhos mais robustos!
Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
Publicado por morfeu às 10:14 AM | Comentários (5)
junho 06, 2005
PORTUGAL
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braço com um vento
testarudo, mas embolado, e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindo adejectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
…
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…
alexandre o'neill
Publicado por morfeu às 11:50 PM | Comentários (1)
maio 30, 2005
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Fernando Pessoa
(O Infante)
Publicado por morfeu às 09:35 PM | Comentários (4)
É PRECISO UM PAÍS...
Não mais Alcácer Quibir.
É preciso voltar a ter uma raiz
um chão para lavrar
um chão para florir.
É preciso um país.
Não mais navios a partir
para o país da ausência.
É preciso voltar ao ponto de partida
é preciso ficar e descobrir
a pátria onde foi traída
não só a independência
mas a vida.
manuel alegre
(Águeda, 1936)
Publicado por morfeu às 02:48 PM | Comentários (4)
maio 04, 2005
MADEIRA

Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.
José Agostinho Baptista (1948)
Anjos Caídos
Publicado por morfeu às 01:58 PM | Comentários (4)
abril 20, 2005
Onde vais?
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi «onde vais?»
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra(1920)
História para uma noite de calmaria(trad.de Mário Rui de Oliveira)
Publicado por morfeu às 03:00 PM
abril 04, 2005
Podereis roubar-me tudo: as ideias, as...
(Camões dirige-se aos seus contemporâneos)
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
(Antologia de poesia portuguesa- M.Meneres/E.M.Castro, Moraes editores)
Publicado por morfeu às 09:41 PM | Comentários (3)
março 18, 2005
Conta-mo outra vez...
Amália Bautista (1962)
Qual é a minha ou a tua língua? - Cem poemas de amor de outras línguas
(Tradução de Jorge Sousa Braga) - in "Poemário Assírio/Alvim 2005
Publicado por morfeu às 07:24 PM | Comentários (2)
fevereiro 18, 2005
Vaza-me os olhos...
Vaza-me os olhos
Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
Mesmo sem pés chegarei a ti,
Mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
Com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro, levar-te-ei ainda no meu sangue
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
In Qual É a Minha ou a Tua Língua? – Cem poemas de amor de Outras Línguas(Tradução de Jorge Sousa Braga)
Publicado por morfeu às 07:02 PM | Comentários (2)
fevereiro 16, 2005
Um Tal Fernando Assis Pacheco
Vivo com ele há anos suficientes
para poder dizer que o reconheceria
num dia de Novembro no meio da bruma
é como uma pessoa de família
adorava os pais mas tinha medo
quando zangados se punham aos gritos
e se chamavam nomes odiosos
não invento nada vi-o crescer comigo
chorava então desabaladamente
e eu com ele sentindo-nos perdidos
o coberto puxado sobre a cabeça
seria trágico se não fosse ridículo
mesmo depois a noite que urinasse
no pijama era um protesto civil
encharcou assim grande parte das Beiras
não lhe perguntem se foi feliz
Lisboa
25-V-95
Fernando Assis Pacheco (1937-1995)
Respiração assistida
(in poemário Assírio/Alvim-2005)
Publicado por morfeu às 03:38 PM
fevereiro 11, 2005
Tantos bons poetas!Tantos bons poemas!
Tantos bons poetas!Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1/5/1928
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às 02:20 PM | Comentários (1)
janeiro 29, 2005
Cantiga dos Cravos
Cravos roxos em janeiro,
onde vais minha alegria?
ó terra noiva do sol,
senhora desta agonia,
que seja nossa uma vez
a glória de te haver,
nosso suor coroado
em troca do que te der.
Cravos roxos em janeiro,
outono ressuscitado
na cor da ressureição
ou verão anuncidado?
Carlos de Oliveira (1921-1981)
Publicado por morfeu às 08:55 AM
janeiro 10, 2005
Sou portanto neto do acaso e o acaso é o meu pai.
As coisas passaram-se assim: meu avô
teve um desgosto de amor, quis matar-se.
Atirou-se do Castelo de S.Filipe
mas não se matou,ficou ali, primeiro
a gemer e depois inconsciente, julgava
que tinha morrido.Um pastor de ovelhas
encontrou-o e levou-o para o hospital.
No hospital meu avô percebeu
que não tinha morrido, a irmã da regente
interessou-se por ele e casaram.
Do casamento nasceram três filhos,
meu pai foi um deles.Sou portanto neto
do acaso e o acaso é o meu pai.
Helder Moura Pereira (1949)
A tua cara não me é estranha - in Poemário Assírio/Alvim, 2005
Publicado por morfeu às 11:38 PM | Comentários (2)
janeiro 08, 2005
Da crítica da inutilidade pura da blogosfera...
.................................................................................................................................................................???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

Publicado por morfeu às 08:31 PM | Comentários (1)
dezembro 29, 2004
À Idade do ano...
De verdes ramos e de frescas flores
Vestiu a terra na meninice infante
O seio virgem, e o vivaz semblante
Adornou de grinaldas mil de cores
Jovem depois, em plácidos amores
Gozando, ao céu, seu amador constante,
Lá das entranhas, como terna amante,
Em vez de suspirar, lançou olores.
Frutos maduros logo o ventre aberto
Deu abundantes, ao puro vento ufana,
Tosca, mas a mostrar a face, e ruda.
Hoje,velho, de rugas recoberto,
Seu rosto vemos, e de neves cana:
Tudo a idade decompõe e muda.
Juan de Jáuregui (1583-1641)
In antologia da poesia espanhola das origens ao século XIX
(Tradução de José bento – poemário de Assírio /Alvim, 2004)
Publicado por morfeu às 10:53 PM
dezembro 19, 2004
Mas que sei eu...
Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.
Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo (In «todos os poemas)
Publicado por morfeu às 03:19 PM
dezembro 16, 2004
Os Poetas Mártires...

Os Poetas Mártires – não contaram –
Mas moldaram a sua Dor em sílaba –
Para que quando o seu nome mortal adormecesse –
O seu mortal destino – Alguns encorajasse –
Os Pintores Mártires – nunca disseram –
Legando – antes – a sua Arte –
Para que quando os seus cônscios dedos cessassem –
Alguns na Arte – a Arte da Paz buscassem –
Emily Dickinson ( 1830 – 188)
Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas(Trad. De Cecília Rego Pinheiro)
Publicado por morfeu às 06:45 PM | Comentários (1)
dezembro 10, 2004
Para os "poetas" da blogosfera...

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)...aforismos
Publicado por morfeu às 12:51 PM | Comentários (3)
dezembro 06, 2004
EIS-ME...
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio.
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para alem do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente.
Sophia de M.B.Andresen
Publicado por morfeu às 11:45 PM | Comentários (2)
novembro 26, 2004
A mão no Arado...
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! Como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs de verão
ao longo do mar transbordante de nós
No demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua
É triste ir na vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no Outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente
Ruy Belo, in "Antologia da Poesia Portuguesa - 2º volume, Moraes ed.
Publicado por morfeu às 01:33 PM | Comentários (10)
novembro 24, 2004
Atropelamento mortal
Nalgum oásis do princípio ele fora
Um fugitivo brilho no olhar de Deus
- a vida havia de lho lembrar muitas vezes
Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cardadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia, foi pelos campos fora atrás dele,
perdeu o emprego na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.
Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à vontade entre os anjos).
Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
Caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que o tem na voz.
Ruy Belo
Publicado por morfeu às 08:00 PM | Comentários (2)
Aforismos quatro de pascoaes, teixeira de...

"Sem a estupidez dos penedos, que seria do nosso espírito?
"O Homem é um animal apaixonado"
"Os animais são pessoas, como nós somos animais."
"Que bom senso o do lirismo bucólico!O trágico é um lírico enlouquecido,como o animal é uma árvore a galope."
----------------------------------
In "Aforismos",Teixeira de Pascoaes - selecção de M.Cesariny, A/Alvim Ed.
Publicado por morfeu às 08:15 AM
novembro 17, 2004
Desolação

Desolação
A casa está vazia.
Ao cimo da escada apareces às vezes com as
Cores o Inverno,
E és vulto,
O sétimo selo sobre a minha palidez.
Não falas, não te moves,
E no entanto a minha vida estremece,
Assaltada pelas tuas máquinas profundas.
O pranto cresce nos campos ao abandono.
Os meus dedos fecham os olhos dos
Guerreiros mortos.
Chove, chove sempre que os encontro nos
Desfiladeiros do norte,
Hirtos,
Entregues à sua sorte,
Como este lugar desabitado cujas lâmpadas
Se apagaram,
Esta casa vazia onde te deitas para sempre,
Já longe das hortênsias.
José Agostinho Baptista ( 1948)
biografia
Publicado por morfeu às 02:22 PM | Comentários (1)
outubro 27, 2004
QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS...
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia
in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
PS: Tentei arranjar a versão musicada por José Mário Branco...algém me pode ajudar?...
Morfeu
Publicado por morfeu às 11:12 PM | Comentários (3)
outubro 21, 2004
É ele! O sonhador!
Vagueia o poeta pelos campos: admira,
Adora; ouve dentro de si mesmo uma lira.
E ao vê-lo chegar, as flores, todas as flores,
As que dos rubis empalidecem as cores,
As que dos pavões deixam as caudas ofuscadas,
As florezinhas azuis, as florezinhas douradas
Tomam para o acolher, nos seus ramos agitados,
Arzinhos humildes, ou grandes ares afectados,
E, familiarmente, porque fica bem às belas:
«Olha! É o nosso amado que passa!», dizem elas.
E, cheias de luz e de sombra, com vozes inquietas,
As árvores gigantescas que vivem nas florestas,
Todas essas velhinhas, as tílias, os áceres, os teixos,
Os carvalhos venerandos, os enrugados freixos.
O olmo de negra ramagem, que o musgo entorpece,
Como os ulemas fazem quando o mufti aparece,
Saúdam-no com grandes vénias, curvando para a terra
As cabeças de folhagem e as suas barbas de hera,
E vendo na sua fronte um sereno esplendor,
Murmuram muito baixinho: É ele! O sonhador!
Victor Hugo (1802 – 1885)
Poemas
(tradução de Mª Manuela Parreira da Silva)
Publicado por morfeu às 07:20 PM | Comentários (3)
outubro 20, 2004
À sombra de meus cabelos, Meu amado adormeceu, irei acordá-lo eu?...

Penteava eu meus cabelos
Com cuidado cada dia
E o vento os espargia
Até roubar-me os mais belos,
E ao seu sopro e sombra deles
Meu amado adormeceu,
- irei acordá-lo eu?
Diz-me ele que lhe dá pena
Em ser em extremo ingrata,
Que lhe dá vida e o mata
Esta minha cor morena;
Chamando-me sereia amena
Junto a mim adormeceu
- Irei acordá-lo eu?
Tradicional,Poesia espanhola do seculo XIX
(Trd.de José Bento - in poemário Assírio e Alvim)
Publicado por morfeu às 01:49 PM | Comentários (1)
outubro 18, 2004
COMO DAR NOME AOS GATOS...

Dar nome aos gatos é uma questão difícil,
Não é nenhum jogo de férias;
Podeis pensar que sou doido varrido
Quando vos digo que um gato deve ter TRÊS DIFERENTES
NOMES
Antes de mais nada, há o nome que a família emprega diariamente,
Tal como Peter, Augustus, Alonzo ou James,
Tal como Victor ou Jonathan, George ou Bill Bailey –
Todos eles sensatos nomes de todos os dias
Há nomes de maior fantasia se achais que soam melhor,
Alguns para cavalheiros, alguns para as damas:
Tais como Plato, Admetus, Electra, Demeter –
Mas todos eles sensatos nomes de todos os dias
Mas, digo-vos eu, um gato precisa de um nome que seja particular,
Um nome que seja peculiar, e mais dignificado,
Senão, como pode ele manter a cauda perpendicular,
Ou estender os bigodes, ou encarecer o orgulho?
De nomes desta espécie dou-vos um quórum,
Tais como Muskustrap, Quaxo ou Coripat,
Tais como Bombalurina, ou então Jellylorum –
Nomes que nunca pertencem a mais do que um gato
Mas, mais acima e mais além, falta ainda outro nome,
E esse é o nome que jamais adivinhareis;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
Mas o PRÓPRIO GATO sabe-o, e nunca confessará.
Quando se vê um gato em profunda meditação,
A razão, digo-vos eu, é sempre a mesma:
O seu espírito está em ávida contemplação
Do pensamento, do pensamento, do pensamento do seu nome:
Do seu inefável efável
Efanifável
Profundo e incontável singular Nome.
T.S. Elliot (1888 – 1965)
In Assinar a Pele – Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos
(trad. De João Luís Barreto Guimarães – Poemário da Assírio e Alvim)
Publicado por morfeu às 05:55 PM | Comentários (3)
Ampulheta...

Publicado por morfeu às 02:39 PM | Comentários (2)
outubro 17, 2004
O resto do mundo desabava ...
O resto do mundo desabava mas a vida
também acontecia sob a terra, debaixo
das pontes.Aquela versão da realidade falava
de um homem com um só cobertor
de estanho, deitado entre jornais
com escândalos sexuais,baratos,ao som
de disco-house,neo-swing,flipper music.
Poemas,pois havia poemas, dos mais sujos,
a giz à cabeceira,«toda a tua gruta infantil
de onde saía e entrava um verme,uma formiga
de agulha,voadora,picava-te,
largavas o cuspo para ver sair o sangue».
Helder Moura Pereira (1949)
Um raio de sol
Publicado por morfeu às 10:19 AM
agosto 18, 2004
Madrigal

Ia colhendo flores
e guardando na falda,
minha ninfa pra ter uma grinalda;
mas primeiro as toca
nos rosados lábios da sua boca,
e dá-lhes de seus lábios os olores;
e estava, pra seu bem, entre uma rosa
uma abelha escondida
seu doce amor furtando,
e como na formosa
flor dos lábios se achou, logo, atrevida,
a picou, sugou mel, partiu voando.
Luis Martín de la Plaza (1577-1625)
in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX
(Tradução de José Bento)
Publicado por morfeu às 01:08 AM
julho 03, 2004
Palavras de Sophia...
Ó NOITE
Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser
Sophia de Mello Breyner Andresen
Publicado por morfeu às 01:00 PM | Comentários (3)
junho 18, 2004
Só para adeptos do SCP...

Publicado por morfeu às 01:22 AM
maio 21, 2004
Leio até me doerem os olhos o livro de Cesário Verde

Foto de Morfeu
Ao entardecer, debruçado sobre a janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me doerem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos.
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros.
Alberto Caeiro (Pessoa: 1888-1935)
Publicado por morfeu às 05:33 PM | Comentários (2)
maio 16, 2004
(Dizem que as plantas não falam...)

Dizem que as plantas não falam, nem as fontes, nem os pássaros,
Nem a ondas com seus rumores, nem com seu brilho os astros.
Dizem; mas não é verdade, pois que sempre, quando eu passo, de mim murmuram e exclamam:
- Lá vai a louca, sonhando
Com a eterna primavera da existência e dos campos,
E já bem cedo, não tarda, terá os cabelos brancos,
E vê tremendo, aterrada, cobrir a geada o prado.
- Há brancas no meu cabelo, caiu nos prados a geada;
mas continuo sonhando, pobre, incurável, sonâmbula,
com a eterna primavera desta vida que se apaga,
com a perene frescura das campinas e das almas,
mesmo quando aquelas secam e quando estas se abrasam.
Astros e fontes e flores! Não murmureis de que eu sonhe.
Sem sonhos, como admirar-vos? Como, sem eles, viver?
Rosalía de Castro (1837-1885)Mesa de amigos
(versão de Pedro da Silveira)
Publicado por morfeu às 12:47 PM | Comentários (3)
maio 12, 2004
Eurokamasutra

Publicado por morfeu às 09:30 PM
abril 21, 2004
...Que a Liberdade

Aprende a nadar companheiro
aprende a nadar companheiro
que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
que a Liberdade está a passar por aqui
que a Liberdade está a passar por aqui
que a Liberdade está a passar por aqui
maré alta
maré alta
maré alta
Sérgio Godinho, "Maré Alta" in Sobreviventes (1971)
Publicado por morfeu às 02:16 PM | Comentários (1)
março 24, 2004
OFERENDA...
Que nossa mãe a terra se envolva
numa quádrupla túnica de farinha branca;
que se encha de flores de geada;
e além, em todas as montanhas cobertas de musgo,
de frio se acheguem os bosques uns aos outros;
e os braços das árvores se quebrem ao peso da neve,
e fique assim a terra:
- Esculpi os bastões da oração em forma de seres vivos.
América do Norte, Zunhis
Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro
(Tr.de Herberto Helder)
Publicado por morfeu às 06:44 PM
março 14, 2004
Canción pirata, Leopoldo M.Panero
LA CANCIÓN DEL CROUPIER DEL MISSISSIPI
"Fifteen men on the Dead Man's Chest.
Yahoo! And a bottle of rum!"
Canción pirata
Fumo mucho. Demasiado.
Fumo para frotar el tiempo y a veces oigo la radio,
y oigo pasar la vida como quien pone la radio.
Fumo mucho. En el cenicero hay
ideas y poemas y voces
de amigos que no tengo. Y tengo
la boca llena de sangre,
y sangre que sale de las grietas de mi cráneo
y toda mi alma sabe a sangre,
sangre fresca no sé si de cerdo o de hombre que soy,
en toda mi alma acuchillada por mujeres y niños
que se mueven ingenuos, torpes, en
esta vida que ya sé.
Me palpo el pecho de pronto, nervioso,
y no siento un corazón. No hay,
no existe en nadie esa cosa que llaman corazón
sino quizá en el alcohol, en esa
sangre que yo bebo y que es la sangre de Cristo,
la única sangre en este mundo que no existe
que es como el mal programado, o
como fábrica de vida o un sastre
que ha olvidado quién es y sigue viviendo, o
quizá el reloj y las horas pasan.
Me palpo, nervioso, los ojos y los pies y el dedo gordo
de la mano lo meto en el ojo, y estoy sucio
y mi vida oliendo.
Y sueño que he vivido y que me llamo de algún modo
y que este cuento es cierto, este
absurdo que delatan mis ojos,
este delirio en Veracruz, y que este
país es cierto este lugar parecido al Infierno,
que llaman España, he oído
a los muertos que el Infierno
es mejor que esto y se parece más.
Me digo que soy Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
me digo que estar borracho es no estarlo
toda la vida, es
estar borracho de vida y no de muerte,
es una sangre distinta de esa otra
espesa que se cuela por los tejados y por las paredes
y los agujeros de la vida.
Y es que no hay otra comunión
ni otro espasmo que este del vino
y ningún otro sexo ni mujer
que el vaso de alcohol besándome los labios
que este vaso de alcohol que llevo en el
cerebro, en los pies, en la sangre.
que este vaso de vino oscuro o blanco,
de ginebra o de ron o lo que sea
- ginebra y cerveza, por ejemplo -
que es como la infancia, y no es
huida, ni evasión, ni sueño
sino la única vida real y todo lo posible
y agarro de nuevo la copa como el cuello de la vida y cuento
a algún ser que es probable que esté
ahí la vida de los dioses
y unos días soy Caín, y otros
un jugador de poker que bebe whisky perfectamente y otros
un cazador de dotes que por otra parte he sido
pero lo mío es como en "Dulce pájaro de juventud"
un cazador de dotes hermoso y alcohólico, y otros días,
un asesino tímido y psicótico, y otros
alguien que ha muerto quién sabe hace cuánto,
en qué ciudad, entre marineros ebrios. Algunos me
recuerdan, dicen
con la copa en la mano, hablando mucho,
hablando para poder existir de que
no hay nada mejor que decirse
a sí mismo una proposición de Wittgenstein mientras sube
la marea del vino en la sangre y el alma.
O bien alguien perdido en las galerías del espejo
buscando a su Novia. Y otras veces
soy Abel que tiene un plan perfecto
para rescatar la vida y restaurar a los hombres
y también a veces lloro por no ser un esclavo
negro en el sur, llorando
entre las plantaciones!
Es tan bella la ruina, tan profunda
sé todos sus colores y es
como una sinfonía la música del acabamiento,
como música que tocan en el más allá,
y ya no tengo sangre en las venas, sino alcohol,
tengo sangre en los ojos de borracho
y el alma invadida de sangre como de una vomitona,
y vomito el alma por las mañanas,
después de pasar toda la noche jurando
frente a una muñeca de goma que existe Dios.
Escribir en España no es llorar, es beber,
es beber la rabia del que no se resigna
a morir en las esquinas, es beber y mal
decir, blasfemar contra España
contra este país sin dioses pero con
estatuas de dioses, es
beber en la iglesia con música de órgano
es caerse borracho en los recitales y manchas de vino
tinto y sangre "Le livre des masques" de Rémy de Gourmont
caerse húmedo babeante y tonto y
derrumbarse como un árbol ante los farolillos
de esta verbena cultural. Escribir en Espanã es tener
hasta el borde en la sangre este alcohol de locura que ya
no justifica nada ni nadie, ninguna sombra
de las que allí había al principio.
Y decir al morir, cuando tenga
ya en la boca y cabeza la baba del suicidio
gritarle a las sombras, a las tantas que hay y fantasmas
en este paraíso para espectros
y también a los ciervos que he visto en el bosque,
y a los pájaros y a los lobos en la calle y
acechando en las esquinas
"Fifteen men on the Dead Man's Chest
Fifteen men on the Dead Man's Chest
Yahoo! And a bottle of rum!"
(De Last River Together, 1980.)
LEOPOLDO MARÍA PANERO
(1948)
Publicado por morfeu às 11:33 PM | Comentários (1)
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério...
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade.
Perante este horrível ser que é haver ser.
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -
Numa só coisa tremenda e negra e impossível.
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -
Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstractas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!
Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim.
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gémeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gémeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensado, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente do mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como, se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às 11:21 PM
março 13, 2004
Meditar com Frei Agostinho da Cruz
Publicado por morfeu às 05:01 PM
Sugiro...Martin Codax
Publicado por morfeu às 04:51 PM
março 08, 2004
DEMOGORGON, A.de Campos
Demogorgon
Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.
Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.
Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos.
Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!
Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.
Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente;
Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente...
Que bafo horrível e frio me toca em olhos fechados?
Não os quero abrir de viver! ó Verdade, esquece-te de mim!
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às 11:11 PM
março 07, 2004
A Portugal - Jorge de Sena
A Portugal
Esta é a ditosa pátria minha amada.
Não, nem é ditosa porque o não merece,
nem minha amada, porque é só madrasta
nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de ter nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
Quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela
Saudosamente nela,
Mas amigos são por serem meus amigos
e mais nada.
Torpe dejecto de romano império,
Babugem de invasões,
Salsujem porca de esgoto atlântico,
Irrisória face de lama, de cobiça e de vileza,
De mesquinhez, de fátua ignorância.
Terra de escravos, de cú para o ar,
Ouvindo ranger no nevoeiro a nau do Encoberto.
Terra de funcionários e de prostitutas,
Devotos todos do Milagre,
Castos nas horas vagas, de doença oculta.
Terra de heróis a peso de ouro e sangue,
E santos com balcão de secos e molhados,
No fundo da virtude.
Terra triste à luz do Sol caiada,
Arrebicada, pulha,
Cheia de afáveis para os estrangeiros,
Que deixam moedas e transportam pulgas
(Oh!, pulgas lusitanas!) pela Europa.
Terra de monumentos
em que o povo assina a merda
o seu anonimato.
Terra-museu em que se vive ainda
com porcos pela rua em casas celtiberas.
Terra de poetas tão sentimentais
Que o cheiro de um sovaco os põe em transe.
Terra de pedras esburgadas,
Secas como esses sentimentos
De oito séculos de roubos e patrões,
Barões ou condes.
Oh! Terra de ninguém, ninguém, ninguém!
Eu te pertenço.
És cabra! És badalhoca!
És mais que cachorra pelo cio!
És peste e fome, e guerra e dor de coração!
Eu te pertenço!
Mas seres minha, não!
Jorge de Sena - A Portugal, Quarenta Anos de Servidão, Lisboa 1979
Publicado por morfeu às 01:16 PM | Comentários (3)
A.Campos -Aniversário...
Final do poema "Aniversário", iniciado na entrada anterior.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça com mais copos,
O aparador com muitas coisas . doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado .
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às 10:21 AM | Comentários (2)
março 06, 2004
Aniversário...(A. de Campos)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui, ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
E terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
(A. De Campos)
...a continuar...
Publicado por morfeu às 02:38 PM
Apontamento...(A. De Campos)
A minha alma partiu-se como um caco vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
(....)
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
Álvaro de Campos
Publicado por morfeu às 12:29 AM | Comentários (2)
março 02, 2004
MATARAM A TUNA
Nos domingos antigos do bibe e pião
Saía a tuna do Zé Jacinto
Tangendo violas e bandolins
Tocando a marcha Almadanim.
Abriam janelas meninas sorrindo
Parava o comércio pelas portas
E os campaniços de vir à vila
Tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
O burro da nora da Quinta Nova
Espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
Ao som da marcha Almadanim
Cantando a marcha Almadanim.
Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar...)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!
Entanto as senhoras não gostavam
Faziam troça dizendo coisas
E os senhores também não gostavam
Faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha de Almadanim.
Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
Enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
Raspavam notas violentas
Rasgava a Tuna o quebranto da vila
Tangendo nas violas e bandolins
A heróica marcha de Almadanim!
Meus companheiros de bibe e pião
Agora empregados no comércio
Desenrolando fazenda medindo chita
Agora sentados dobrados nas secretárias do comércio
Cabeças pendidas jovens-velhinhos
Escrevendo no Deve e Haver somando somando
Na vila quieta
Sem vida
Sem nada
Mais que o sossego das falas brandas...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha de Almadanim?!
Ó meus amigos desgraçados
Se a vida é curta e a morte infinita
Despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
Como era a Tuna do Zé Jacinto
Tocando a marcha Almadanim!
Manuel da Fonseca ( in.O.c. pg,67/9)
Publicado por morfeu às 08:25 PM | Comentários (2)
março 01, 2004
NOCTURNO
O Jacinto Baleizão, que foi a África,
fala do mar à gente.
Foi uma viagem que eu fiz
por dar sete navalhadas
numa guerreia de feira.
No largo,
a noite tem estrelas cansadas de luzir.
Zé Cardo, tu já viste o mar?
Eu, não...
Ninguém tinha visto o mar.
Jacinto Baleizão diz que tem ondas,
ondas altas como um castelo.
Mas o Tóino pergunta da lonjura
e de outras coisas do mar.
Aonde é?
Diz que da estrada que vai para o Cercal
há um cabeço donde se vê...
Olha,
o bêbado do Zé Limão
é assim como um navio perdido no amr.
Mas o Zé Cardo calou-se de triste que ficou.
Há tanta fome na casa dele...
Toda a noite quatro meninas tossindo
que nem deixam dormir os vizinhos.
Raios as partam, dizem eles.
Jacinto Baleizão pensa que não há remédio.
Deu sete facadas nem sabe porquê...
O mar, sim,
isso é que é uma coisa danada
como nunca ninguém viu!
E no postigo da Rosa Charneca
o moço da flor atrás da orelha
está explicando por gestos e palavras
que o seu amor é mais alto
que a distância que vai da terra ao céu.
Manuel da Fonseca
Publicado por morfeu às 10:55 PM | Comentários (1)
SOL DO MENDIGO
Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!
E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...
Manuel da Fonseca
Publicado por morfeu às 07:01 PM | Comentários (1)
O VAGABUNDO DO MAR - M.Fonseca
Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...
Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É, por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.
Manuel da Fonseca
Ps.
Manuel da Fonseca
Escritor português, vulto destacado do Neo-Realismo português, nasceu em 1911, em Santiago do Cacém, e morreu em 1993, em Lisboa. Começou por publicar poesia: Rosa dos Ventos, em 1940, e Planície, em 1941. O seu primeiro volume de contos, intitulado Aldeia Nova, surge em 1942, sendo seguido, em 1951, de O Fogo e as Cinzas. Escritor de tendência regionalista e de funda preocupação humana, retrata a vida pobre dos trabalhadores rurais das planícies alentejanas, dando especial realce à sua luta contra a injustiça. Deste aspecto da sua obra é exemplo maior Seara de Vento (1958), romance de grande intensidade dramática.
© 2003 Porto Editora, Lda.
Publicado por morfeu às 04:19 PM
janeiro 06, 2004
VEM SENTAR-TE COMIGO LÍDIA...R. REIS

Vem sentar-te comigo, Lídia...
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
"Odes" de Ricardo Reis
Publicado por morfeu às 03:25 PM
janeiro 05, 2004
A VIDA HUMANA - A vida é...
A vida é...
FOLHAGEM verde, seca num momento
ARAGEM leve, corrida de vento.
NEVÃO que no ar se desfaz,
PEGÃO em que nunca há paz.
FLOR que abre para logo morrer
Fulgor que dura o tempo de ver.
RELVADO que qualquer pé amassa,
VIDRADO que facilmente estilhaça.
BRUMA que à vista se some,
ESPUMA que a maré consome.
FENO que é de pouca dura.
JOIO de que o vento não cura.
COMPRA que ao fim lamentamos.
CORRIDA em que nos cansamos.
TORRENTE que voa fugaz.
BOLHA que logo se desfaz.
SOMBRA que nos faz morrer.
ALFOMBRA para a cova fazer.
GEORGE PHILIPP HARSDORFER (1607-1658)
in o Cardo e a Rosa . poesia do barroco alemão (Trad. de João Barrento)
Publicado por morfeu às 07:49 AM
janeiro 04, 2004
IMPLORANDO O SOPRO -(ZUNHIS)
Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopor da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo seu sopro
para que vivas sempre luminosamente.
Poema ameríndios
(mudados para português por Herberto Helder)
Publicado por morfeu às 09:09 PM

