outubro 18, 2009

Do casamento católico, sg/ Bento Domingues

Por experiência pessoal, vivi esta questão. Assim, porque afastado da crença e por conseguinte da I.Católica, sempre procurei viver em coerência. Se actualmente se me colocasse a questão de um novo casamento, tendo em conta a minha posição de recuperar com nova alma, a vivência cristã, pensaria diferentemente. Nunca, no entanto, nessa perspectiva espampante e despesista que por aí grassa em quem pode economicamente. A insersão na vivência de uma comunidade colocar-se-ia como objectivo. De qualquer forma, mantenho a minha discordância em relação a esse poder absoluto de que "O que Deus uniu, o homem não separe"....não aceito a infelicidade e hipocrisias forçadas. Sim a essa muito humana e admirável capacidade de transgressão que o Génesis anuncia, pela tentação da serpente: a capacidade de discernir o bem e o mal, a liberdade afinal...
O texto de Bento Domingues retoma a questão e coloca-a imediatamente no titulo:

Casamento católico em vias de extinção?Por Frei Bento

Que pretende quem procura um casamento católico e o que recusa quem, embora baptizado, não quer casar pela Igreja?

(endereço-fonte:
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-10-2009/casamento-catolico-em-vias-de-extincao-18039249.htm)

1.O alarme foi dado pelos meios de comunicação social baseado em dados estatísticos: em 10 anos, na diocese de Lisboa, os casamentos católicos baixaram 62 por cento. Observaram-me que, se este ritmo se mantiver, em poucos anos, deixará de haver divórcios de casais católicos e um tema recorrente nestas crónicas - a situação dos divorciados na Igreja - também estará esgotado. É melhor, no entanto, não fazer previsões.

Dir-se-á que, depois de alguma alergia ao institucional, do proclamado desinteresse pela política, pelos partidos, pelos actos eleitorais, as instituições da Igreja e a Igreja como instituição também não poderiam fugir muito à tendência geral. Em parte assim será, mas o realce que a notícia teve, nos meios de comunicação social, dava a ideia de que o catolicismo, em Portugal, estaria em acentuado declínio e a hierarquia católica não poderia continuar a alimentar a ficção de que só existe o modelo católico de família que defende.

Não adianta muito pensar que este decréscimo brutal dos casamentos católicos seja apenas o fruto de políticas laicas acerca da família nem a sua estrepitosa divulgação seja regozijo com a perda de influência do catolicismo. Em Portugal, a liberdade religiosa não está em perigo, nem o direito ao casamento católico. A questão de fundo é outra: que fazer para que as famílias se transformem numa fonte de vida evangelizadora das novas gerações? A estatística citada sugere que as novas gerações só poderão receber uma herança se esta for um convite à invenção de novas formas de ser cristão.


2.Para a compreensão e vivência do casamento católico, surgiu, em Paris, em 1938, um inspirado movimento, obra do Padre Henri Caffarel (1903-1996). Em 2006 foi aceite o pedido de abertura do processo da sua beatificação.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se e foi criada a revistaL"Anneau d"Or, divulgando a experiência das pequenas equipas e a sua espiritualidade. Em 1947, o movimento organizou-se e foi elaborado um documento fundador: aCarta das Equipas de Nossa Senhora, revista em 1976. Em 2002, o Pontifício Conselho para os Leigos reconheceu, finalmente, as Equipas de Nossa Senhora (ENS) como Movimento de Fiéis Leigos. O Movimento expandiu-se por todos os continentes. Entrou, em Portugal, em 1957.

Sessenta anos depois, são celebrados os êxitos imensos deste Movimento de espiritualidade conjugal, apesar das dificuldades e dos limites que a moral familiar oficial impõe. No entanto, muitos casais das ENS interrogam-se: onde teremos falhado para que alguns dos nossos filhos não se casem pela Igreja e nem os seus filhos querem baptizar? Andaram em colégios católicos, foram à catequese, alguns até foram catequistas, pertenceram a movimentos juvenis da Igreja e, depois, nada! Resta-lhes a consolação de que alguns valores essenciais informem as suas vidas.

3.Esta sensação de culpa não tem, por vezes, muita razão de ser. Já não estamos no tempo em que os pais e as mediações de formação da Igreja eram as únicas referências no crescimento dos filhos. Vivemos em sociedades abertas e os mais novos, para além da natural rebeldia da juventude, podem dizer aos pais, de forma clara ou velada: eu já não vou por aí.

Uma observação destas não pode servir, todavia, para a resignação dos pais, dos educadores católicos e da pastoral da Igreja no seu conjunto.

Tendo em conta o que está a acontecer, seria preciso, depois de um debate alargado a paróquias, dioceses, movimentos e universidades católicas, reunir um Concílio dedicado exclusivamente à moral familiar proposta na Igreja e ao reexame do que se passa nas outras religiões e nas diversas manifestações da sociedade civil.

Para o vigente Código de Direito Canónico, "O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre baptizados foi elevado por Cristo nosso Senhor à dignidade de sacramento. Pelo que, entre baptizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, pelo mesmo facto, sacramento." (Cân. 1055).

As implicações teóricas e práticas desta apresentação do casamento merecem um amplo debate que não é para esta crónica. A pergunta que deixo é outra: que pretende quem procura celebrar um casamento católico e o que recusa quem, embora baptizado, não quer casar pela Igreja?

As dimensões de vida, a importância, as ambiguidades e mesmo os equívocos, que envolvem a opção por uma união de facto, um casamento civil ou um casamento religioso, não cabem em apreciações e valorizações esquemáticas.

É normal que a celebração do matrimónio suscite uma vontade de festa que não tem de ser uma exibição de riqueza real ou aparente. A Igreja, sem negar a importância de uma grande festa, deve propor, aos ricos, uma ocasião para repartir com os pobres. Os Encontros de Preparação para o Matrimónio devem ajudar a perceber que os noivos não estão obrigados a promover a indústria dos "casamentos de sonho".

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setembro 19, 2009

Ouvir o silêncio...

sugiro...

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setembro 10, 2009

« Le croyance ne supporte pas la critique alors que la foi ne peut que la désirer »

sugiro...

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setembro 06, 2009

Narcisismo in "Courier Internacional".

Um interessante dossiê acerca do "Narcisismo", desenvolvido no número de Setembro do Courrier Internacional, para além de outros artigos e "viagens" mediáticas. Viajar a preço de saldo e sem sair de casa...

Um interessante dossiê acerca do "Narcisismo", desenvolvido no número de Setembro do Courrier Internacional, para além de outros artigos e "viagens" mediáticas. Viajar a preço de saldo e sem sair de casa...


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setembro 05, 2009

Ética e Religião, na reflexão de A. Borges


Para todos os que se preocupem com estas questões, aqui fica alguma ajuda, na crónica sabática de A.Borges. Bom fim-de-semana.

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agosto 29, 2009

A tentação do Cristianismo

(...) Luc Ferrry não crê, porque "é demasiado belo para ser verdade". Outros, porém, acreditaram e acreditam, precisamente porque o cristianismo mostra a sua verdade na sua correspondência com o dinamismo mais fundo do ser humano. Cabe a cada um decidir.(...)

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julho 19, 2009

Sexo e Religião


...sugiro.

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julho 12, 2009

Caritas in Veritate, sg/ B. Domingues

(...) Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia. (...)

(Público, 12 de Julho)

domingo, 12 de Julho de 2009
Caritas in Veritate: algo de novo?


O que a encíclica de Bento XVI trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos

1.O título da terceira encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate - uma grande expressão da Nova Aliança, abertura do coração e da inteligência -, não precisa de grande tradução, mesmo se o latim, em Portugal, se tenha tornado especialização de poucos. É de temática social e inscreve-se numa tradição que remonta à Rerum Novarum (1891) de Leão XIII, que teve uma posteridade fecunda no século XX. A última tinha sido a Centesimus annus (1991) de João Paulo II, para celebrar esses cem anos em que muita água correu por baixo e por cima das pontes. Entretanto, também João Paulo II tinha publicado a Sollicitudo rei socialis (1987) para celebrar a inovadora Populorum Progressio (1967) de Paulo VI, preparada pelo padre Louis-Joseph Lebret, O.P., fundador do movimento Economie et Humanisme. Respondia aos apelos da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII.
A chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) é, de facto, a Doutrina Social dos Papas. Não se identifica com os percursos dos "cristãos pensadores do social" - como lhes chamou e os descreveu Yves Calvez -, embora tenham sido eles que, de modo independente, animaram e alargaram os grandes debates desta área no catolicismo.
João Paulo II tinha sublinhado que a DSI não é uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: constitui, por si mesma, uma categoria de natureza teológica (SRS 41).

2.A Caritas in Veritate de Bento XVI é um claro exemplo dessa opção. Embora procure ser uma mensagem para o mundo, essa característica nunca poderá ser bem entendida fora da expressão católica da fé cristã. O Papa apostou em não deixar nenhum aspecto na sombra, talvez para não multiplicar encíclicas, como fazia o seu predecessor. Apesar de muito noticiada nos meios de comunicação, não tem garantia de muitos leitores.
O seu grande marco é a Populorum Progressio de Paulo VI, mas existe para dizer que já não estamos no mesmo mundo e que a profundidade e a extensão da crise actual exige à Igreja uma nova lucidez, pois, como se diz no Evangelho, se for um cego a conduzir outro cego, caem ambos no buraco. Isto não significa que os Papas possam dispensar as ciências para caracterizar os fenómenos e disponham de competência própria para responder à velocidade das mudanças, num "mundo sem regras" (A. Maalouf).
O seu ponto de vista é teológico, mas não defende uma teocracia. Bento XVI não é um fundamentalista nem um ateu. Para ele, "razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas" (n.º 74). Ganhamos com a aliança entre as ciências e a caridade: "Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias disciplinas devem colaborar através de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade não exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser "temperado" com o "sal" da caridade. A acção é cega sem o saber e este é estéril sem o amor. De facto, aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente" (n.º 30).

3.A mútua inclusão da economia e da ética ocupa o centro da encíclica. O grande desafio que temos diante de nós - resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira - é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser esquecidos nem debilitados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade (n.º 36).
Não existe neutralidade ética nas decisões económicas: a angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações morais (n.º 37).
Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologia.

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julho 11, 2009

Da busca de sentido, sg/ A. Borges

sugiro...

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julho 06, 2009

Jan Hus, bohemian reformer...

Jan Hus (Bohemian religious leader)

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julho 04, 2009

Igreja hoje: que problemas? Reflexão de A. Borges

Obem conhecido jornalista, político e escritor italiano Eugenio Scalfari, fundador do influente La Repubblica, foi ao encontro do cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e uma das figuras católicas mais escutadas dentro e fora da Igreja, para uma entrevista, acabada de publicar no seu jornal.

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junho 23, 2009

Que nos espera sg/ A.Borges


Mesmo os mais distraídos colocar-se-ão, nas situações-limite, as velhas perguntas: donde vimos?, para onde vamos?, quem somos? Porque a realidade nos aparece por vezes exultante e, outras, horrorosa, e morreremos, perguntamos: o que é verdadeiramente?, qual o sentido da existência?, que andamos cá a fazer?, que nos espera?

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junho 14, 2009

Lutero e Calvino...que sei eu?

Que se tem feito para conhecer estes dois irmãos em Cristo, na Palavra? Que tenho eu feito para vencer o preconceito bebido desde a infância real e religiosa, onde bulas, protestos, papas antigos mas com ramificações actuais, casamento, etc...se misturam e impedem um esclarecimento? Oportuna a crónica de hoje, no Público, de frei Bento Domingues, recuperando estas duas figuras mestras do pensamento e vivência cristãos. Atentar nas publicações em português de obras deste dois autores...mais vale tarde do que nunca.

"As obras teológicas de Lutero e Calvino nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa

1.Tem sentido reabrir o passado, não por ser passado, mas, como dizia Paul Ricoeur, para "libertar a sua carga de futuro". As obras teológicas de Lutero e Calvino - dois dos nomes mais influentes da Reforma protestante - nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa. Consciente desta lacuna, o Cento de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, para assinalar os 450 anos da morte de Martinho Lutero (1483-1546), organizou um importante colóquio para situar o seu papel no advento da Modernidade (1). Recordando, depois, uma data decisiva na célebre controvérsia em torno da questão das indulgências (31 Outubro 1517), o mesmo Centro não se contentou com o seu debate anual sobre o significado da Reforma. Publicou a tradução das famosas 95 Teses de Martinho Lutero, tenham elas sido ou não afixadas na porta da Igreja de Vitemberga (2).

João Calvino nasceu há 500 anos, no dia 10 de Julho. De novo, o Centro de Estudos de Ciência das Religiões não quis deixar essa data em branco, publicando a tradução da sua Breve Instrução Cristã (3).
As esmeradas traduções e introduções dos textos referidos - que apontam para a obra imensa desses clássicos - pertencem a Dimas de Almeida, professor da Universidade Lusófona.
A importância do pensamento calvinista foi destacada por Max Weber (1864-1920), um dos modernos fundadores da Sociologia e autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Seja qual for a opinião sobre a tese desta grande obra de Max Weber, não podemos esquecer o seu impacto na discussão da génese e interpretação do capitalismo. Além disso, como recorda Dimas de Almeida, o contributo de Calvino para a ideia de democracia no Ocidente foi sublinhado por alguns analistas e não seria descabido encontrar, na origem do nosso sistema democrático, marcas dos presbiterianos dos EUA.

2.Se João Calvino influenciou a história do mundo ocidental não foi, apenas nem sobretudo, no plano económico, social e político. Aos 24 anos abraçou a causa da Reforma e, para ele, o fundamental era submeter a Igreja à Palavra de Deus. Karl Barth, de tradição calvinista e uma das figuras mais importantes da teologia do século XX, tem o cuidado de sublinhar que Calvino "nunca foi o nosso papa. (...) Os reformadores, nossos pais na fé, unidos aos pais da Igreja antiga, não podem ser para nós mais do que antepassados que nos ajudam a compreender. A verdadeira autoridade dos cristãos protestantes é a Palavra, aquela que o próprio Deus pronunciou, pronuncia e pronunciará eternamente mediante o testemunho do seu Espírito Santo nos escritos do Antigo e do Novo Testamentos. Calvino é para nós um mestre na arte de escutar esse singular e único ensino da Igreja".
Não é por acaso que se deve a Karl Barth o empenho na luta pela independência da Igreja frente ao nacional-socialismo. Foi ele que redigiu a Declaração Teológica de Barmen, adoptada no Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 e 31 de Maio de 1934, tentando encontrar uma orientação para os cristãos confusos diante da ascensão de Hitler: a Igreja deve obediência exclusiva ao seu Senhor e ao Evangelho e a sua característica essencial é ouvir a Deus. O último parágrafo da Breve Instrução Cristã, agora traduzida, reza assim: "Enfim, não é de nenhum outro modo senão em Deus que somos submetidos aos homens que foram estabelecidos acima de nós. E se eles nos ordenam algo contra o Senhor, não devemos ter isso em conta, pondo antes em prática esta máxima da Escritura: Impõe-se-nos mais obedecer a Deus do que aos homens."

3.Hoje, é voz corrente sublinhar que tanto Lutero como Calvino pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa. Devido a vários e complexos factores, a ruptura trágica consumou-se e continua. Durante a Contra-Reforma católica, a personalidade religiosa de ambos foi, muitas vezes, injustamente denegrida. Só no século XX os historiadores católicos reapreciaram essa história, mostrando a grande estatura humana, cristã e teológica destes reformadores.
Superada a violência pela tolerância recíproca, chegou o tempo da procura do conhecimento mútuo que favoreça um diálogo que vá alterando a mentalidade e a atitude de todos. É esse o caminho do ecumenismo entre as Igrejas cristãs.
O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não têm remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igrejas na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar interfecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.
(1) VV.AA., Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
(2) Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Cadernos de Ciência das Religiões, n.° 15, 2008.
(3) João Calvino, Breve Instrução Cristã, org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Série Monográfica, Vol. III, 2009.

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junho 13, 2009

Crente não crente ou com fé...

como cristão não me sinto minimamente "obrigado" a cumprir seja o que for.Se quiser e sentir posso ir à celebração da Eucaristia - sempre é mais bonito do que a vulgar e rotineira missa. Saramago tem alguma razão, visto que o que o vulgo conhece ainda se prende a uma catequese antiquada.Uma elite possui um conhecimento e uma fé mais esclarecida. Para mim o Corpo de Deus é apenas simbólico, oportunidade para me lembrar em profundidade do exemplo de Cristo que afinal como Homem sentiu todos os braços cortados e explorações e por isso foi crucificado...

A reflexão sabática de A.Borges que nos expõe algumas considerações e problemas que a Igreja oficial continua a "fazer marcar passo" e não desemburra...reflexão também sobre as considerações "heterodoxas" do papabile cardeal Martini, que acaba de publicar novo livro...

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junho 05, 2009

Laicismo sg/ José Saramago

...não se pode saber de tudo e José Saramago não disporá de tempo para eventuais aprofundamentos. Se algumas afirmações são suportáveis, outras, quiça as fundamentais, provêm do direito à diferença crítica e parece-me, do sentido "religioso" do ateísmo comunista, que se desinteressa neste enorme fenómeno plural e rico que é a espiritualidade. Ir mais fundo, e investigar este fenómeno social, religioso, político, nos seus múltiplos aspectos, que não se reduzem apenas aos "pecados" dos intervenientes. Resta-me reconhecer a importância da Igreja Católica em dois milénios de existência, não reduzindo esta constatação a um apoio inquestionável de todos os seus (nossos) pecados...Santos e Pecadores, como se intitula um livro há pouco tempo saído sobre a história dos papas...

Santos e Pecadores

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maio 31, 2009

Porque hoje é domingo:crónica e reflexão de Bento Domingues.

vatican.jpg

(Excelente edição "hors-serie" do «Le Figaro»", recém editado, e que aconselho vivamente)

(...)Quem pode o mais também pode o menos, isto é, se as mulheres podem ser cristãs, também poderão ser chamadas, ao mesmo título que os homens, a exercer qualquer ministério ordenado ou não, dentro da Igreja. Nem Deus nem Cristo fazem acepção de pessoas.(...)

(Jornal Público de 31 de Maio de 2009)

domingo, 31 de Maio de 2009
O mistério da pirâmide


Com o evoluir da sociedade, será normal que, na graduação do poder, as mulheres venham a ocupar todos os lugares

1.Num debate televisivo sobre o sacerdócio feminino nas diversas religiões, deparei com o desenho de uma pirâmide para mostrar a situação das mulheres na Igreja Católica. No cimo dessa pirâmide, vinha o Papa, abaixo, os cardeais, mais abaixo ainda, os bispos, seguiam-se, na descida, os padres e, na base da pirâmide, vinham os diáconos. Ali, não havia mulheres. Estava tudo no masculino.
O que mais me espantava, nesse desenho, não era a evidente exclusão das mulheres desses lugares de poder. Estava-se a debater, de forma comparativa, o papel das mulheres na direcção das diferentes religiões, a nível global e local. Não vem ao caso, agora, apreciar o que se passa nas outras religiões. No campo cristão, há Igrejas nas quais a pirâmide do poder já conta com presenças femininas e, com o evoluir da sociedade, será normal que, na graduação do poder, as mulheres venham a ocupar todos os lugares. Há quem diga que tempo virá, no qual será preciso, nessas Igrejas, como nos partidos, parlamentos e governos, lutar por uma quota de homens.
O insuportável, naquele gráfico, era a tentativa de identificar a Igreja Católica, Apostólica, Romana com a Hierarquia. Os esforços desenvolvidos, sobretudo ao longo do século XX, para acabar com essa identificação - uma das maiores reconquistas do Concílio Vaticano II (1962-1965) - parecia que não tinham servido para nada.
Depois, mais a frio, pensei: não há razões especiais para me irritar. Aquela pirâmide é, de facto, a representação que continua a vigorar no imaginário de católicos e não católicos. Quando se fala, bem ou mal, da Igreja - e não só nos meios de comunicação social -, pensa-se no que dizem e fazem o Papa, os bispos e os padres. Quem pensará que a Igreja é, em primeiro lugar, constituída pela rede mundial de comunidades cristãs mais densas ou mais raras, segundo os países e continentes? Compreendi, então, que já Santo Agostinho (354-430) tivesse sentido a necessidade de dizer: "para vós sou bispo, convosco sou cristão". A sua glória não estava em ser bispo, mas em ser cristão: alguém que a graça do Espírito Santo transformara num discípulo de Cristo.
Porque será que, mesmo depois de toda a ênfase posta pela Lumen Gentium do Vaticano II, naquilo que é comum a todos os cristãos (n.º 10) e de ter destacado que os vários ministérios da Igreja se destinam ao bem de todo o corpo (n.º 18), se continue a confundir a Igreja com a Hierarquia e esta transformada numa hierarquia sacerdotal?
2.A linguagem do sacerdócio nunca é utilizada, no Novo Testamento, para designar os ministérios ou serviços da comunidade. A usada é de carácter funcional para fazer ressaltar a sua diferença absoluta em relação ao sacerdócio veterotestamentário ou gentio. Por isso, os ministros das comunidades são designados como presbíteros (anciãos), bispos (vigilantes), pastores, presidentes, chefes, dirigentes, guias, etc.. A linguagem sacerdotal é aplicada só a Cristo, único mediador (Carta aos Hebreus), e, de forma colectiva, ao povo cristão, não para oferecer a Deus sacrifícios "materiais", mas a própria vida (Rm 12; 1Pd 2, 4-10).
A partir dos finais do século II, voltou-se a utilizar, no cristianismo, a linguagem veterotestamentária para designar os seus ministros, mas num sentido analógico, metafórico ou, mais exactamente, tipológico. Depois, de forma variável, desenvolveu-se a terminologia sacerdotal que vai sacralizar os ministérios cristãos à maneira do Antigo Testamento, como tendo parte no sagrado, no divino. Como diz o jesuíta Joseph Famerée, na época moderna, a partir da corrente espiritual francesa de Pierre de Bérulle (1575-1629), far-se-á do padre um "outro Cristo" como se, pela sua ordenação, tivesse sido ontologicamente transformado num ser novo. Nesta identificação, é "transubstanciado" num alter Christus, num mediador necessário entre Deus-Cristo e os humanos.
Esta visão sacerdotalizante e ontológica do padre é, para o autor citado, na linha de muitos outros, inaceitável (1).

3.Dir-se-á que, no referido documento conciliar, "o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, apesar de diferirem entre si essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se um para o outro mutuamente; de facto, ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo". Ao dizer "sacerdócio comum", poderia supor-se que a diferença essencial corre a favor do chamado "sacerdócio ministerial ou hierárquico". Erro grosseiro. Como dizia Tomás de Aquino, o que há de mais importante, de mais decisivo, no cristianismo, é precisamente o acolhimento da graça do Espírito Santo, anterior a qualquer forma de ministério ordenado. É ela que transforma a vida.
Na altura do Concílio, não foi possível chegar a acordo para que "sacerdócio" ficasse como próprio de Cristo e de todos os fiéis, como vem no Novo Testamento. O consenso possível foi o da justaposição de duas Escolas.
Quem pode o mais também pode o menos, isto é, se as mulheres podem ser cristãs, também poderão ser chamadas, ao mesmo título que os homens, a exercer qualquer ministério ordenado ou não, dentro da Igreja. Nem Deus nem Cristo fazem acepção de pessoas.

(1) Sacerdote et eucharistie chez Léon Dehon, in La Vie Spirituelle, n.º 782, Maio 2009, p. 240-241

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maio 24, 2009

Místicos,sábios,profetas...

"Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões sem um estudo aprofundado dos respectivos princípios teológicos fundamentais. Por outro lado, o nosso planeta não poderá sobreviver sem padrões éticos globais, sem referências éticas reconhecidas no mundo inteiro".
(Hans Kung, in bento domingues:crónica dominical do público de 24 de Maio de 2009(

Pontos de contacto entre as religiões?

24.05.2009, Frei Bento Domingues O.P.


O respeito pela liberdade religiosa é uma das proclamações mais repetidas, tanto por João Paulo II como por Bento XVI


1.Integrado nas comemorações do 25.° aniversário da AMI, em parceria com a Fundação Academia Europea de Yuste de Espanha, encerra, hoje, o primeiro Encontro de Culturas - Ouvir para Integrar, com a realização de um vasto programa, desde o dia 21. Foi a primeira vez que este encontro se realizou em Portugal (Lisboa), com a intenção de o repetir periódica e alternadamente em Espanha e Portugal. É convicção destas fundações que, para construir um mundo de concórdia e entendimento, é preciso estabelecer múltiplas pontes de diálogo entre as diferentes culturas e religiões.

Fazia parte do programa uma mesa-redonda dedicada aos Pontos de Contacto entre Religiões. Estas já demonstraram que encerram um imenso potencial de conflito - explorado, muitas vezes, por religiosos e irreligiosos -, mas possuem também um potencial de paz não menos surpreendente. Foram homens e mulheres religiosamente motivados que, sem violência e sem derramamento de sangue, defenderam, por exemplo, uma mudança radical na Polónia, na Alemanha Oriental, na África do Sul, em Moçambique, na América Central e do Sul, nas Filipinas.
Hans Küng, um famoso teólogo católico do diálogo inter-religioso, sintetizou as suas convicções a este respeito de forma quase axiomática: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões sem um estudo aprofundado dos respectivos princípios teológicos fundamentais. Por outro lado, o nosso planeta não poderá sobreviver sem padrões éticos globais, sem referências éticas reconhecidas no mundo inteiro".

2.Bela exigência programática, mas como me dizia um amigo, além dos maus contactos de hostilidade e indiferença, o ponto mais comum entre as religiões é a ignorância mútua, embora aumente a produção científica e de divulgação sobre todas e surjam, por vezes, alguns gestos exemplares. O próprio Hans Küng, tendo publicado várias obras especializadas, escreveu um precioso livro, acessível ao grande público, sobre o mundo fascinante, misterioso e complexo das grandes religiões e que serviu de apoio uma série da TV alemã (1). Parte de um princípio simples: se todos precisam de ser informados para ter voz e intervenção nos acontecimentos actuais, a competência não se deve limitar aos assuntos económicos, culturais e sociais. Deve compreender, também, o vastíssimo mundo religioso, no qual ele destaca as religiões originárias da Índia: hinduísmo e budismo; da China: confucionismo e taoísmo; do Médio Oriente: judaísmo, cristianismo e islão. Segundo ele, para as primeiras a figura-chave é o místico; para as segundas, o sábio; para as terceiras, o profeta. O estudo destas religiões e respectivas tipologias é precedido de uma longa exposição sobre as religiões tribais e as religiões desaparecidas.
Em Portugal, por enquanto, na área da Ciência das Religiões, apenas a Universidade Lusófona dispõe de uma licenciatura, um mestrado, um centro de investigação e uma revista. A instância académica, embora indispensável, não é suficiente para partilhar os possíveis pontos de contacto entre as diversas religiões. Na Europa actual, o pluralismo religioso assume proporções desconhecidas ainda há poucos anos e é fundamental que os diferentes grupos não se fechem sobre si mesmos, constituindo novos guetos religiosos.

3.Não são as religiões, mas os indivíduos e os grupos humanos que dialogam e descobrem as proximidades e as distâncias entre elas. O terreno humano em que todas se poderiam encontrar tem, desde 10 de Dezembro de 1948, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma referência incontornável: "Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos" (art. 18). Em Portugal, esta resolução da ONU só foi publicada no Diário da República a 9 de Março de 1978. Na Igreja, a liberdade religiosa só foi reconhecida no Concílio Vaticano II. Antes, dizia-se, reconhecer a liberdade religiosa seria equiparar os direitos da verdade e do erro. Ora, a verdade estava na Igreja e vigorava o adágio: "Fora da Igreja não há salvação". Hoje, o respeito pela liberdade religiosa tornou-se uma das proclamações mais repetidas, tanto por João Paulo II como por Bento XVI.
Os grandes especialistas, da própria e das outras religiões, poderão descobrir e declarar os pontos de contacto e as incompatibilidades. Esse trabalho está sempre exposto a ser desautorizado pelas cúpulas das diferentes confissões e, muitas vezes, pela voz popular manipulada.

Não se deve, no entanto, pensar que as religiões não podem mudar, para melhor e para pior. A Igreja Católica, num século, mudou do anátema para o diálogo. Mediante muitas e dolorosas peripécias, conseguiu mostrar que "tudo o que sobe converge", servindo-me da expressão de Teilhard de Chardin, no bicentenário de Darwin.
(1) Hans Küng, Religiões do Mundo. Em busca dos Pontos Comuns, Lisboa, Multinova, 2005

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maio 23, 2009

Quem não procura o inesperado...

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A reflexão de A.Borges...

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maio 17, 2009

Em que (quem) acreditar?

(...)Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar? Se a pergunta é atrevida, a resposta é perigosa. Não podemos pensar sem imagens, sem metáforas, sem conceitos. Para responder, através de imagens e metáforas, é importante saber quais são as que ajudam a viajar para o infinito e aquelas que já estão fixadas como objectos. É conhecida a observação: quando se aponta para o céu, o estúpido olha para o dedo. (...)

(Bento Domingues ln. Jornal Público)

domingo, 17 de Maio de 2009
A raiz da alegria


Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar?

1.No momento em que escrevo, ainda é cedo para procurar os frutos da viagem do Papa à chamada Terra Santa, lugar da desautorização espiritual das consideradas religiões abraâmicas - judaísmo, cristianismo e islão - ao pretenderem testemunhar todas do verdadeiro Deus umas contra as outras. Religiões supostamente anti-idolátricas que, cultivando a idolatria daquela terra, daquelas pedras, rios, lagos, mares, árvores, montanhas, muros antigos e recentes, monumentos sagrados, vão construindo um barril de pólvora sempre pronto a explodir. Pela serenidade das notícias, não deve ter havido nada que pudesse ser transformado, pelos grandes meios de comunicação social, num escândalo político-religioso. Dado o clima crispado que antecedeu a viagem, esta serenidade é um bom sinal.

2.Se a ignorância é sempre atrevida, parece que acerca das religiões até fica bem: basta ir numa excursão à Índia para ficar a saber tudo acerca de milénios de sabedorias e loucuras e adivinhar o seu futuro; uma peregrinação à Terra Santa é suficiente para descobrir as pegadas históricas de Jesus e outra pelos lugares referenciados nas Cartas de S. Paulo para ficar a conhecer, profundamente, os ziguezagues do seu pensamento. Se estudar era uma "veemente aplicação da mente", a estes peregrinos basta-lhes uma olhadela rápida com tempo para a fotografia.
Hoje, quero chamar a atenção para algumas edições Paulinas. Não se contentaram com a tradução de obras sobre S. Paulo e sobre Jesus e Paulo (sobretudo, as de J. Murphy-O'Connor e de Peter Walker). Apresentaram-nos, também, Jesus Hoje. Uma espiritualidade de liberdade radical, de Albert Nolan, um dominicano da África do Sul. Livro tão belo e sugestivo que é impossível não recomendar. Na colecção Sabedoria Cristã, com a marca de um estilo de espiritualidade que nada tem a ver com as mediocridades da New Age, onde tinham sido publicados três títulos importantes, surgiu agora uma obra que representa uma pura novidade no cenário cultural, teológico e espiritual do nosso país. Trata-se nada menos de alguns Tratados e Sermões de Mestre Eckhart (1260?-1328), filósofo, teólogo, pregador dominicano e, sobretudo, um grande místico, muito discutido desde o século XIV até à actualidade, dentro e fora do espaço eclesial. Apresentado, agora, como um incontornável mediador do diálogo entre o Ocidente cristão e as tradições místicas orientais, este autor proibido na teologia tornou-se, pela mão de M. Heidegger, uma referência da filosofia alemã.
Não é uma obra para almas apressadas nem para consolações imediatas. Quando se fala de acreditar ou não acreditar em Deus, a primeira pergunta é esta: em que Deus estás a pensar? Se a pergunta é atrevida, a resposta é perigosa. Não podemos pensar sem imagens, sem metáforas, sem conceitos. Para responder, através de imagens e metáforas, é importante saber quais são as que ajudam a viajar para o infinito e aquelas que já estão fixadas como objectos. É conhecida a observação: quando se aponta para o céu, o estúpido olha para o dedo. Há metáforas vivas e metáforas mortas: o sopé da montanha, as pernas da mesa ou da cadeira, de metáforas já não têm nada. O jogo simbólico e metafórico salva-nos pela sua capacidade poética de abrir horizontes sem contornos definidos, um viajar permanente da inteligência e da imaginação. Fazer de Deus um ente, nem que seja o Ente Supremo, não o deixa saltar para fora dos conceitos. Mas um Deus que coubesse num conceito era mais pequeno do que esse conceito, era um ídolo, um fabrico da mente. Mestre Eckhart obriga o espírito a um salto para lá de todos os conceitos e de todas as representações. A Deus não se vai, porém, de abstracção em abstracção, mas pelo despojamento absoluto e pela entrada na divindade, presente em tudo, não se confundindo com nada, sem nome adequado para a nomear: o fundo sem fundo de toda a realidade.

3.Há muitos livros que gostava de ver traduzidos em português. Referi-me, no ano passado, a Hablemos de Dios de Victoria Camps e Arrelia Valcárcel. Estas duas catedráticas de Ética elaboraram uma obra muito original sobre as peripécias da religião, especialmente do catolicismo, no devir do processo democrático espanhol. O movimento Nós Somos Igreja tomou a iniciativa de convidar as autoras para dar a conhecer essa obra em Portugal. Foram acolhidas no Centro Nacional de Cultura. Pena foi que os meios de comunicação social não tivessem compreendido a importância de uma problemática fundamental que - entre nós e por motivos opostos - católicos e agnósticos preferem ignorar.
Os textos da liturgia deste domingo fazem parte da constituição da originalidade cristã. Dizem que só lhe pertence o que serve a nossa alegria. Deus não faz acepção de pessoas, seja qual for a sua religião ou cultura, porque o amor que Deus lhes tem é incondicional e o seu mandamento é insubstituível: amai-vos uns aos outros. Que terá acontecido para que a alegria não seja o rosto das Igrejas cristãs, tantas vezes, coberto por normas e ritos de exclusão e de tristeza?


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maio 16, 2009

O "casino" dos Cardeais...sg/ A.Borges

...o Anselmo Borges que me desculpe pela alteração do titulo, mas a brincadeira terá sentido...

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abril 26, 2009

"Dançai com Cristo sobre os Evangelhos"

"Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."

...pegando nas palavras de Natália Correia, Bento Domingues associa a sua reflexão dominical.
(In Público de 26/04/09)

As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural

1. Desde E. Cassirer, ninguém estranha que se diga que o ser humano é um animal simbólico. Certo positivismo tem dificuldade com essa linguagem, mas é o positivismo que restringe a sua capacidade. É próprio das artes, da literatura e da música sugerir, no sensível, o inexprimível da realidade inabarcável em conceitos claros e distintos.
Na Semana Santa, foram celebradas todas as formas da dor humana. Na Vigília Pascal, antecipamos as páscoas que faltam: matar todos os dias o poder da morte na morte de Cristo, ressuscitar na Sua ressurreição. Nessa Vigília, mãe de todas as vigílias, apesar das longas horas que convocaram o que há de melhor em nós, tudo ficou ainda por dizer. Foi a partir daí que dois mil anos de literatura, música, pintura, cinema fizeram de Jesus Cristo a figura suprema do mundo desejado. Até às festas da Ascensão e do Pentecostes, os cristãos continuarão a dizer, num grande crescendo da memória, o que aconteceu, acontece e acontecerá.
Dir-se-á que os textos dos Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos sobre a Ressurreição estão semeados de acontecimentos inverosímeis, de incongruências e até de contradições. Todos os anos regressa a discussão sobre o que neles é histórico, lendário e simbólico.

2. Há dois caminhos que não vão dar a lado nenhum saudável: tentar destrinçar o que é histórico e o que é lendário; servir-se dos textos para pregações e catequeses moralizantes. Os historiadores e os psicólogos podem tentar saber por que razão os discípulos - que tinham dispersado ao verificar a crucifixão e a morte de toda a esperança depositada em Jesus -, passado pouco tempo, confessavam a experiência de que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Messias, está vivo e, por causa dele, estarão progressivamente dispostos a tudo. A esse nível, o fenómeno em torno da descrença e da crença na Ressurreição pode ser matéria de história e de psicologia. Mas nada mais. Ninguém viu o acto de ressuscitar nem quem o ressuscitou. São realidades da ordem do inverificável empiricamente. Por duas razões. Primeiro, porque não se trata de alguém que estava morto e que voltou à sua situação anterior. Se fosse o caso - como se diz que aconteceu com Lázaro -, poder-se-ia comparar a situação dessa pessoa antes e depois da morte. Segundo, um fenómeno sobrenatural e o próprio Deus não são evidentes, não são fotografáveis nem testáveis em laboratório. Quem imaginasse o contrário negaria a absoluta transcendência de Deus e o sobrenatural. As narrativas que temos são actos de linguagem que tentam apontar sinais, mas não descrever o sobrenatural.
Pode-se, no entanto, perguntar: mas então, porque será que as narrativas e as pregações do Novo Testamento não se contentaram com a sobriedade essencial: Jesus ressuscitou e não sabemos mais nada. Parem de pensar, de imaginar e de perguntar.
De facto, não foi o que aconteceu. S. Pedro, bastante mais tarde, aconselhou: "Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança" (1Pd 3, 15). Os autores do Novo Testamento tinham de mostrar que o ressuscitado era o mesmo que foi crucificado, mas não o era da mesma maneira. Era ainda mais real, mas numa forma de realidade incomparável com aquela com que tinham convivido.

3. Tarefa nada fácil. As testemunhas da experiência do Ressuscitado tinham de apresentar a sua convicção na linguagem dos gestos e das experiências que tiveram com Jesus. Tinham também de mostrar o que havia de radicalmente novo naquela experiência. Não lhes caiu do céu um ditado divino que dispensasse a imaginação e as palavras humanas. A Ressurreição transfigura, mas não pode negar as exigências da Incarnação. Tinham de se servir do que estava disponível na sua língua, na sua cultura. São os conceitos de inspiração, revelação e inerrância, atribuídos aos textos bíblicos, que precisam de levar uma grande volta, para não produzirem resultados mais nefastos do que aqueles que pretendem evitar.
Se consentirmos na convicção de que a linguagem simbólica, metafórica, é a mais adequada para exprimir e dizer a fecundidade do mistério pascal na nossa vida, como perpétuo movimento, constante conversão, passagem da morte à vida pelo amor dos irmãos, de todos (1Jo 3, 14), não estranharemos acontecimentos inverosímeis, incongruências e até contradições. O cristianismo junta, no Espírito de Deus, nosso espírito, duas palavras explosivas que parecem incompatíveis: Jesus e Cristo.

Não é na linguagem dos tratados teológicos e dos catecismos que a poetisa açoriana Natália Correia evoca a Páscoa e o Pentecostes. E ainda bem: "Musas amigas, levai estes espelhos / Que reflectem do tempo a estampa fútil. / Dançai com Cristo sobre os Evangelhos / O círculo dos deuses inconsútil. // Nem céu nem inferno dos sacramentos velhos / Que são os cárceres de uma fé indúctil. / De em meu barro escutar santos conselhos / Desposa o Espírito minha alma núbil. // E em meu jardim interior passeiam / À meia-noite em flor amantes mortos / Que entre acácias se estreitam ressurrectos. // Com paixões que as grades incendeiam / Endireito da vida atalhos tortos, / E na morte entrarei de olhos abertos."

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abril 18, 2009

Pensar a morte, na reflexão de A. Borges

Mas nada impede que dentro de cinquenta ou cem anos (porque não dentro de cinco?) volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?

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março 23, 2009

Transitório...in manus tuas...

...ao longo destes caminhos com sombra e sol, vou vendo as pequenas coisa que por aí estão...penso e sinto o transito desta vida, ainda com medo, iludo-me pacificamente, querendo estender a mão para algo, dizendo-me que estou e não estou só.
Repito ao longo da minha marcha, "In manus tuas dominus, commendo spiritus meus", intermediando com, "Veni sancte spiritus"...e vou assim enchendo o peito com fés estranhas e teimosas, não sabendo se o meu pé resvalará no próximo passo...
...."sigamos frágeis, despreocupados, ingénuos, absortos, sem qualquer preocupação que não seja, já não descobrir o truque de «ter Deus», mas sentir o bálsamo da sua constante presença dentro do peito"...( eu tento irmão Paulo...)

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março 22, 2009

Recasados II...na reflexão de Bento Domingues

(...) É neste contexto que Bento XVI deveria ser convidado a rever a triste carta Aos bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados, que o cardeal Ratzinger assinou em 1994.

(In Público de 22 de Março, acedido por subscrição.)

Não são da Igreja apenas os que olham para o passado, também os que olham para o presente, para os lados e para o futuro

1.Um dos chefes de redacção do jornal católico francês La Croix, Michel Kubler, no Editorial de 13 de Março (2009), ao comentar a carta de Bento XVI aos bispos, carta de um Papa profundamente magoado, pergunta se a "crise integrista" não será o sintoma de uma crise mais ampla, na Igreja e da Igreja. Ao levantar esta hipótese, não pretende tornar esse quadro ainda mais negro. Procura, apenas, saber onde estão as causas deste drama. Não resultarão elas, em grande parte, do crescente mal-estar de um sistema católico, cuja lógica e discurso são cada vez menos compreensíveis pela cultura ocidental? Não admira que os membros da Igreja, tributários desse sistema e dessa cultura, se encontrem cada vez mais divididos entre ambos. Deparamos, todos os dias, com testemunhos desse disfuncionamento e tudo se complica quando o sistema é usado com dois pesos e duas medidas.
Na eleição deste Papa, muitos católicos pensaram que Bento XVI não poderia ser a continuação do cardeal Ratzinger. Teria de compreender que as suas simpatias pessoais pelas correntes mais conservadoras e as suas alergias pelas teologias modernas não poderiam ser o critério de governo do animador do grande e plural Movimento que é a Igreja Católica. Agora, essa predisposição parece estar em crise, sobretudo no seu país: a Conferência Episcopal Alemã queixa-se de uma grande falta de colegialidade; o semanário Der Spiegel foi ao ponto de escrever que "um papa alemão ridiculariza a Igreja Católica"; não faltaram teólogos a declarar que, "se o Papa quer fazer alguma coisa boa pela Igreja, que se demita". Tal gesto não teria, aliás, nada de humilhante, pois, se os bispos entregam os seus cargos aos 75 anos, se os cardeais perdem os seus direitos aos 80, um Papa, cuja função é muito mais pesada, não deveria esperar por uma idade muito avançada para renunciar ao cargo. Devo observar, no entanto, que esta consideração tão sensata ter-nos-ia privado do velho mais jovem e criativo da Igreja no século XX: o Papa João XXIII.

2.As expressões de abertura, compreensão, generosidade e acolhimento de Bento XVI em relação à sectária "Fraternidade de São Pio X" não impedem de marcar os seus defeitos nem de destacar as qualidades que o comovem, sublinhando que não se pode deixar ao abandono, por razões mesquinhas, 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis.
Não seria esta uma boa ocasião para iniciar passos de aproximação e abertura em relação a movimentos, comunidades de base, bispos, teólogos, padres e leigos, que as atitudes e medidas de Ratzinger, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, contribuíram para afastar das instituições da grande Igreja Católica? Não são da Igreja apenas os que olham para o passado, mas também os que olham para o presente, para os lados e para o futuro. O chamado sistema católico parece ter perdido o sentido da catolicidade, da inclusão das vozes mais críticas e criativas que vivem um diálogo activo com o que há de melhor no mundo moderno e na diversidade das culturas.

3.É neste contexto que Bento XVI deveria ser convidado a rever a triste carta Aos bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados novamente casados, que o cardeal Ratzinger assinou em 1994.
Não se pode esquecer que o ser humano vive uma realidade física, psíquica e relacional numa história familiar muito complexa. Os sacramentos são para os seres humanos, não os seres humanos para os sacramentos. São celebrados, de forma ritual, para que, no quotidiano e nos momentos mais típicos da sua existência, possam viver a fé com esperança e responsabilidade.
A graça do matrimónio não substitui a natureza. Um fracasso matrimonial não é sempre o resultado de um pecado ou de uma infidelidade à graça nem incapacita, automaticamente, as pessoas divorciadas para um novo casamento. São conhecidas muitas experiências que testemunham que a nova relação resultou de um verdadeiro encontro com o amor humano e divino. As Igrejas do Oriente, com as quais a Igreja Católica Romana esteve em comunhão até ao século XI, souberam compreender essa situação humana e eclesial. Foi, aliás, por isso que, no Concílio de Trento, continuando a afirmar a indissolubilidade do matrimónio - e não se pode renunciar a esse horizonte -, não a definiu como um dogma de fé, como alguns desejavam.
Não seria importante que, depois de uma ampla consulta, se reunisse um Concílio Ecuménico das Famílias - representantes das várias tendências - para perspectivar uma pastoral matrimonial que substitua o moralismo por uma ética e uma mística verdadeiramente cristãs? "De uma vez por todas, foi-te dado apenas um breve mandamento: ama e o que quiseres faz. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor. Dessa raiz só pode sair o bem." Isto dizia Sto. Agostinho, no Tempo Pascal do ano 407.
Não é, certamente, dessa raiz que nasce o farisaísmo de certas comunidades paroquiais que apontam o dedo à situação matrimonial de outros irmãos.

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março 15, 2009

Do matrimónio indissolúvel, sg/ Bento Domingues.

A hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel
(Vêr Público de hoje)

1.Este tema não é novo no tempo destas crónicas. Que me lembre, comecei logo, em 1993, com um texto sobre Casar, descasar e recasar e não foi a última vez. Por outro lado, em 1995, aparecia, na colecção Nova Consciência, do Círculo de Leitores, Os Divorciados e a Igreja. Na introdução que escrevi, fiz o ponto do debate, que se tornara muito vivo, acerca do acompanhamento pastoral dos divorciados recasados e que tinha envolvido conferências episcopais de vários países. A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta aos bispos da Igreja Católica a respeito da comunhão eucarística por divorciados novamente casados (1994): os fiéis não estão excluídos da comunhão eclesial e devem ser cuidadosamente acompanhados na sua caminhada cristã. Dada, porém, a situação matrimonial irregular, não podem receber a comunhão eucarística.

O cardeal Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família, embora tenha destacado, em 2008, que os casais em crise não devem sentir a Igreja como ausente, intolerante ou madrasta, não abriu um caminho novo: a Igreja continua a tentar formas de convencer e explicar por que motivo os recasados não podem receber a Eucaristia, mas nutre a esperança de que, no final, a Palavra do Senhor, que está acima do Papa e dos bispos, será mais bem compreendida. Por agora, só pode dizer-lhes: são católicos, devem ir à missa, participar de certas acções da Igreja, de iniciativas de caridade e oração. Bento XVI censurou, no mesmo ano, os bispos franceses por consentirem em iniciativas destinadas a abençoar as uniões de católicos divorciados. A vontade de Deus e as leis da vida que Ele nos deu não podem ser relativizadas. O Sínodo dos Bispos discutiu, mas não deixou nenhuma indicação precisa ao Papa. Este lembrou que o único recurso canónico disponível, para os que casaram com rito religioso - mas apenas por convenção cultural - e acabaram separando-se, é a declaração de nulidade do primeiro casamento enquanto "sacramento celebrado sem fé".

Resumindo e concluindo: os católicos recasados pelo civil continuam a ser membros da Igreja, a ser convidados para a Ceia eucarística, mas ficam avisados de que não podem tocar nessa comida: está aqui, mas não é para vós. Podem e devem, no entanto, escutar a Palavra e rezar.

2.Diz-se que é uma solução simplista e de consequências nefastas para a vida pastoral da Igreja Católica. Foi, aliás, o que pude verificar no primeiro dos Colóquios sobre a Fé do passado dia 5, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, completamente cheia, com a seguinte interrogação: Os Divorciados/Recasados: Que Lugar na Igreja? Participavam na mesa duas pessoas divorciadas recasadas, testemunhando a sua profunda fé católica, mas sem perceberem por que razão o casamento que fizeram pelo civil não pode ser abençoado e não puderam participar na comunhão eucarística nem mesmo quando os seus filhos fizeram a Primeira Comunhão.

O casamento é, por natureza, uma instituição complexa. Junta duas histórias de vida, genéticas e culturais, com o propósito de formarem uma família que tem de contar com o passado, mas também com a nova rede de relações de cada um, do casal e dos filhos, quando existem. Realizado entre católicos, na forma canónica actual, é celebrado como um sacramento, que acrescenta, às complexas dimensões de qualquer casamento, a inscrição na complexa história da Igreja.

Há anos, Bernard Häring, um famoso teólogo, perguntava: "Haverá saída?" E mostrou que sim. O Centro Dominicano de Bruxelas publicou um documento de trabalho muito importante sobre a mesma questão, vindo a fazer parte de um dossier da revista Lumière & Vie assinado por especialistas, mostrando que não pode ser um assunto encerrado nem sob o ponto de vista teológico nem pastoral (1). O P. Luís Correia Lima, S.J., com o título Divorciados Recasados diante dos Sacramentos, apresentou com clareza as peças essenciais do debate (2).

3.Parece-me que a hierarquia da Igreja faz bem em não abrir mão do matrimónio indissolúvel, como horizonte. Ninguém de boa-fé se casa para se divorciar. O divórcio até pode ser o único caminho para acabar uma união absurda, mas pode também ser fruto de uma irresponsabilidade de ambos ou de um só. O futuro de um casamento depende, em parte, de uma conquista diária.

Quando se invoca a resposta de Jesus, não separe o homem o que Deus uniu, esquece-se a pergunta manhosa de alguns fariseus: "É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?" (Mt 19, 1-9). Homem, aqui, significa marido. O que Jesus não pode aceitar, de forma nenhuma, contrariando o próprio Moisés, é o seguinte: a mulher não pode estar sujeita aos caprichos do marido. Isto é tão verdade que os próprios discípulos disseram a Jesus: "Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se". O que estava em causa na resposta de Jesus, naquele preciso contexto social e religioso, era a defesa da mulher perante a arbitrariedade dos maridos.

Tenho de voltar a este tema na próxima crónica.

(1) LV, 206 (Março 1992)
(2) Cf. Revista Eclesiástica Brasileira, 239 (2000) 641-649

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março 08, 2009

Deus antigo, Deus novo, sg/ Bento Domingues

Tudo o que é grande e belo na vida exige sacrifícios. Que o digam os que se dedicam ao desporto, às artes, à investigação. A busca do prazer imediato mata o prazer diferido, aquele que vem da perfeição que se vai realizando. O amor do sacrifício é uma doença. Sacrificar-se por amor é expressão de boa saúde humana e espiritual.

(In Público de 8 de Março de 2009)

domingo, 8 de Março de 2009
O Deus antigo e o Deus novo


Ser sacrificado e sacrificar-se é um dado da experiência humana que pode ter sentidos aceitáveis e perversos

1. Nietzsche acusou, da forma mais veemente, o cristianismo de ser a "religião do sofrimento", a inimiga dos prazeres da vida. Não gosto dessas classificações rotundas porque o cristianismo é uma história muito longa, de várias faces e fases, de vários paradigmas, como Hans Küng mostrou numa obra célebre (1). Para evitar equívocos, há mesmo quem fale de cristianismo no plural. Seja como for, Fátima - uma das marcas do nosso catolicismo - é acusada de religião dolorista. O que, para um cristão, pode haver de mais inaceitável, nessas e noutras expressões, é a convicção de que exista um Deus ofendido que nunca está satisfeito com nenhuma reparação. Seria um sádico que se alimentaria da prostração humana. Certos raciocínios teológicos fizeram do próprio sofrimento de Cristo a resposta a um Deus infinitamente ofendido que só podia satisfazer-se com uma reparação infinita.
Pode ter versões mais caseiras: o neto acompanha a avó à missa. A homilia prolonga-se. A avó sente a inquietação do neto e pergunta-lhe: "Está muito chateado?" - Humm, mais ou menos! - Ofereça essa chatice a Nosso Senhor! O neto, um pouco admirado, resmunga: "Porquê, ele gosta?"

2. Ser sacrificado e sacrificar-se é um dado da experiência humana que pode ter sentidos aceitáveis e perversos, fora e dentro das religiões. De modo muito geral, o sacrifício pode ser definido como uma oferenda, animal ou vegetal, apresentada a Deus sobre o altar e subtraída, pela sua destruição parcial ou inteira, a qualquer uso profano.
O Antigo Testamento está marcado por muitas narrativas de sacrifício. O livro do Levítico fez a sua tipologia. Os profetas e os sábios criticaram a redução dos sacrifícios a actos puramente exteriores, contrapondo-lhes as atitudes interiores de entrega a Deus inseparável da prática da justiça e da misericórdia. Depois da destruição do Templo pelos romanos (70 d.C.), a oferta dos sacrifícios, no judaísmo, foi substituída pela liturgia da Palavra.
No Novo Testamento, Jesus - criticado por andar em más companhias e não seguir as rigorosas observâncias do jejum - lembrou, aos seus acusadores, a preferência de Deus: "Eu quero misericórdia; não quero sacrifícios". Jesus não procurou a morte nem esta era a vontade de Deus. Não tinha nenhum amor ao sacrifício, mas, por amor, deu a vida toda. Ao pedir, ao Pai, perdão para aqueles que o condenavam à morte, matou, na sua morte, o ciclo da violência e da vingança. Testemunhou, em lágrimas de sangue, que é possível um mundo outro.

3. A liturgia da Quaresma começou na Quarta-feira de Cinzas. Durante muito tempo, estas assinalavam a nossa evidente e pouco exaltante condição que nenhum mausoléu pode iludir: "Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar". Agora, em vez desta desolada verificação empírica, conformista, a celebração surge com uma individualizada proposta de vida: "Converte-te e acredita no Evangelho". Acredita que a morte não é a última palavra. Vive de tal maneira que Deus e os outros te queiram para sempre.
Na primeira leitura, o profeta Joel esclarece que os jejuns, as lágrimas e as lamentações não valem por si, mas apenas se exprimirem a conversão radical: "rasgai o vosso coração e não o vosso vestido".
Num trecho do Evangelho, segundo São Mateus, Jesus, perante um público que só pensa em recompensas, dá uma volta completa à religião exibicionista, destinada a mostrar quem era mais santo, mais digno de louvor pelas esmolas, jejuns, rezas e austeridades. A verdadeira religião é um segredo do coração, nosso e de Deus.

4. Neste domingo, a ideologia do sacrifício recebe um golpe mortal. A figura da fé mais incondicional, da obediência mais cega foi sempre a de Abraão, assumida pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islão.
Pouco interessa, aqui, saber se é uma personagem histórica, mítica, teológica ou uma construção de várias dimensões. Foi sempre muito inspiradora para a literatura, a música, o cinema, a espiritualidade e a teologia. Uns deleitam-se com a prontidão da sua fé e da sua obediência a Deus, a ponto de, por Ele, sacrificar tudo, mesmo o único filho. Confesso que nunca achei muita graça nessa exaltação de um Deus déspota e de uma obediência cega. Este admirável filme de suspense deve entender-se a partir do desenlace: há deuses que exigem uma fé cega e sacrifícios humanos. Abraão acabou por descobrir que andava enganado. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão para sacrificar o seu filho; quando ele o vai fazer, o Deus novo impede-o. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização (R. Girard).
Tudo o que é grande e belo na vida exige sacrifícios. Que o digam os que se dedicam ao desporto, às artes, à investigação. A busca do prazer imediato mata o prazer diferido, aquele que vem da perfeição que se vai realizando. O amor do sacrifício é uma doença. Sacrificar-se por amor é expressão de boa saúde humana e espiritual.
(1) O Cristianismo. Essência e História, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002


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março 07, 2009

Não concebo um Deus que não seja bailarino...

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Da pseudo-misoginia de S. Paulo

Sempre me provocou revolta, nos casamentos católicos, a leitura de cartas de S.Paulo, acerca da mulher e do seu estatuto no casamento. Consequentemente, a minha posição foi de alguma animosidade em relação ao apóstolo. Recentemente, tive a ocasião de ler obras mais actuais e fidedignas, e mudei de opinião. Como diz a crónica de A. Borges, de S.Paulo existem cartas verdadeira e pseudo-epístolas. Ora, é nas pseudo-epístolas que a misoginia se manifesta. Os noivos que exijam doravante que tais textos não sejam utilizados.

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fevereiro 28, 2009

Deus e a Liberdade de Expressão...

... trata-se, antes de mais, de um acto de liberdade de expressão. No quadro do respeito pela lei, todos têm direito a manifestar as suas opiniões e crenças. Este direito é, evidentemente, extensivo aos ateus.

Ver também artigo anterior acerca do tema.

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fevereiro 22, 2009

Do Xiismo sg/ Faranaz Keshavjee

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O xiismo que poucos conhecem
In Público de hoje, secção "crónicas", Faranaz Keshavjee


Com o intelecto podemos contemplar o Absoluto; com a razão só podemos pensar sobre ele

Em diversas circunstâncias se ouve falar dos conflitos entre xiitas e sunitas. O mais recente é o movimento da "talibanização" a noroeste do Paquistão. Antes destes, conheciam-se sunitas e xiitas em confronto no Iraque, e a mais próxima referência ideológica antes dessa era o xiismo da revolução iraniana, preconizada pelo Ayatollah Khomeini.

Na verdade, nenhum destes acontecimentos reflecte a natureza e os princípios éticos do xiismo, que poderiamos conhecer para evitar a perpetuação de uma ignorância que não só afecta o mundo não muçulmano como, inclusivamente, os próprios muçulmanos, incluindo os próprios xiitas, que são, antes de mais, culturalmente muçulmanos, ou seja, pouco conhecedores das tradições intelectuais de origem da sua teologia.
Num conhecido hadith do Profeta, Maomé teria dito: "eu sou a cidade do conhecimento; e Ali é a sua porta; aquele que desejar o conhecimento deve atravessar essa porta".

Conhece-se muito pouco ou quase nada desta figura que foi Ali ibn Abi Talib - a não ser que foi primo e genro do Profeta Maomé e que os seus partidários ficaram conhecidos como xiitas. Antes mesmo de o sunismo ser uma ideologia, e não tinha necessidade de o fazer, uma vez que o poder religioso assentava na liderança do califado secular, Ali, que havia recuado das lides políticas, iniciava uma teologia e teosofia particular que deu origem ao xiismo.

Entre várias outras questões que são abordadas no livro de Reza Shah Kazemi, Justice and Remembrance; introducing the spirituality of Imam Ali, fala-se aqui da sua interessante trajectória intelectual e religiosa, que teve que ver com aquilo que definiu como o "espírito do intelecto".

Para o Imã Ali, "intelecto" (aql) não equivalia a "razão". Ali teria querido usar a expressão "intellectus" tal como se usava na Cristandade Latina - aquilo que é capaz de uma visão contemplativa directa das realidades transcendentes; ao passo que a Razão, de natureza discursiva, indirecta, trabalha com a lógica e chega apenas a conceptualizações mentais dessas realidades. Com o intelecto, então, uma pessoa é capaz de contemplar, ou "ver" o Absoluto; com a razão, uma pessoa só pode pensar sobre ele. Para Ali, o intelecto contém profundidades inesperadas - tesouros enterrados. Isto não quer dizer que a razão e o intelecto sejam dicotómicas. Para Ali, a razão é um dos modos do intelecto, no entanto, não podemos reduzir a objectividade universal da revelação às especificidades das revelações "privadas" do indivíduo. Ou seja, uma pessoa pode dizer que entre as profundidades espirituais do intelecto e a sua superfície racional existe a continuidade e a descontinuidade, em simultâneo. O aspecto da continuidade manifesta-se no facto evidente de que todo o pensamento surge a partir de conceitos dotados de significados inteligíveis; os pensamentos têm que ver com ideias que são racionalmente inteligíveis, e têm que ver com as realidades que expressam. Mas, na opinião de Ali, existe uma descontinuidade entre os aspectos racionais e espirituais do intelecto, onde a razão encontra os seus limites. Para que se possa ir para além destes limites, precisamos de mais do que a razão. E esse "algo mais" é o que faz a ética do que estamos a considerar como sendo espiritual e não racional. É certamente "racional" no sentido em que a forma dessa ética é com efeito susceptível de escrutínio da razão; mas não é "racionalista", uma vez que a sua essência - esses tesouros da alma - não se conseguem estimar unicamente através da razão. E é neste sentido que o sujeito humano deve travar a sua verdadeira jihad - a da alma - sem nunca renunciar ao que é mundano e terreno porque esses são reflexos do Absoluto.

Este tipo de raciocínio neoplatónico bem como todo um conjunto de pensamento sobre o estado e a sociedade, ou sobre a justiça sagrada, ou a expressão de Ali de que "o verdadeiro intelectual não é apenas aquele que pensa correctamente, senão aquele que actua eticamente", são faces do xiismo desconhecidas de muitos de nós.
Obviamente que todo o xiismo se desenvolve a partir de princípios filosóficos que justificam a liderança espiritual do imã. No entanto, não podemos negligenciar o xiismo tal como surge e influencia toda uma civilização. Sobretudo aquela que assenta na postura intelectual que promove a consciência ética e social que vê a revelação como contínua e que permanece atenta aos sinais (ayats) de Deus nos horizontes e dentro de nós próprios. Estudiosa de temas islâmicos

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fevereiro 21, 2009

Como reconhecer Deus? sg/ Anselmo Borges

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Há relativamente pouco tempo, coloquei esta pergunta a um grupo de crentes: "Se Deus lhe aparecesse, dizendo 'aqui estou, sou eu o Deus', como o reconheceria?"

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fevereiro 08, 2009

Alçada Baptista sg/ Bento Domingues

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Para surpresa de quem o conhecia mal, Alçada aparece, em 1971, com a sua Peregrinação Interior. Vol. I: Reflexões sobre Deus. Serviu a Eduardo Lourenço, num texto magistral, para dilatar e aprofundar essa peregrinação, no interior da nossa literatura, da nossa religiosidade e do nosso catolicismo (2).

(Bento Domingues, ln Público de 8 de Fevereiros, texto sob subscrição)

domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Alçada Baptista e o catolicismo português


Não se reconhecia no mundo mental, espiritual e militante da Acção Católica e criar um partido tornara-se inviável

1.Quando se fala dos católicos - leigos ou padres - dos anos 40 a 74 do século passado, é quase só, e sempre, para saber o lugar que ocuparam na oposição ao Estado Novo, com o pressuposto de que a "Igreja" era um dos seus pilares. Alçada Baptista figura, necessariamente, nessa paisagem, não só devido às suas tomadas de posição individuais e de grupo, mas sobretudo por causa de um empreendimento de vanguarda e sem paralelo, nos anos 60, "A Aventura da Moraes", que se exprimiu através de uma livraria-editora e duas revistas: O Tempo e o Modo e Concilium (1).
Sobre as peripécias e repercussões desta aventura, já se escreveu muito e continuar-se-á, certamente, a escrever pela sua novidade e significação no campo cultural, religioso e político. O próprio António Alçada explicou, muitas vezes, a nascente desse sonho e as sucessivas dificuldades, incompreensões e desencantos na sua realização, sem nunca renegar a "iluminação" que o fez abandonar a banca prometedora de advogado e tornar-se um editor improvisado: "Naquela altura eu acreditava na Igreja como os crentes acreditam nas igrejas. A insatisfação religiosa que, algum tempo depois, iria desaguar no Concílio Vaticano II era um meio que exprimia as minhas ansiedades e achava que elas eram partilhadas por uma maioria de crentes que estavam inteiramente desmunidos de elementos que os ajudassem a consciencializar e a estruturar aquilo que, na linguagem que então me era cara, 'contribuísse para a progressiva libertação do homem através do esclarecimento e da denúncia da sua alienação política, cultural e religiosa'."

2.Alçada procurava, portanto, responder a uma grande lacuna do catolicismo português e agregar pessoas que a sentissem e a desejassem preencher. Não se reconhecia no mundo mental, espiritual e militante da Acção Católica e a criação de um partido, à imagem da ala mais autêntica da democracia cristã italiana, tornara-se inviável. Do Vaticano II ainda não se falava. Passados anos, quando se poderia pensar que tinha a solução na mão, deu-se conta que andava só a substituir umas coisas exteriores por outras que o impediam de ser ele mesmo. Nem tudo foi um desastre: "Uma das maiores compensações da minha 'irresponsabilidade' de me ter posto a ver se salvava o mundo foi, muito possivelmente, a de ter criado um estatuto que me deixou com um pé no sistema sem que ele se tivesse apropriado completamente de mim." Foi também essa profissão de editor e as andanças em que se viu metido que lhe permitiram um conhecimento do mundo e das pessoas que, como diz em A Pesca à Linha, de outro modo, lhe teriam passado ao lado. Acerca desses encontros, leituras e descobertas, confessa: "Trago sempre comigo um pouco de razão e ironia que me trava os encantamentos sem me retirar completamente do clima onde estou." No primeiro encontro com Lanza del Vasto, depara, em estado puro, com o prazer de viver, de olhar, de ver, de respirar, de ouvir, de estar com os outros, com a alegria. Era a coincidência entre pensamento e vida, mas para Alçada, o incorrigível anti-herói, na primeira reacção, pareceu-lhe que Lanza del Vasto, vestido de profeta, se levava demasiado a sério.

3.Para surpresa de quem o conhecia mal, Alçada aparece, em 1971, com a sua Peregrinação Interior. Vol. I: Reflexões sobre Deus. Serviu a Eduardo Lourenço, num texto magistral, para dilatar e aprofundar essa peregrinação, no interior da nossa literatura, da nossa religiosidade e do nosso catolicismo (2).
Vê, na Peregrinação Interior, o mais significativo e brilhante espelho de uma nova maneira de "ser católico", não isenta de dilemática inquietude, embora muito lusitanamente alheia à cegueira divina de Abraão e aos paradoxos de Job, o que marca, se não os limites clássicos da nossa religiosidade, ao menos os da visão dela de António Alçada Baptista: um catolicismo reformado e reformista, confiado e inquieto.
Dessa Peregrinação surgiu um segundo volume (1982) e, aventuro-me a dizer, um terceiro com outro título, O Tecido do Outono (1999), elaborando, através de novos laços, uma peregrinação expressa numa singular teologia narrativa, onde imanência e transcendência se exigem mutuamente: "Diria que há coisas na natureza e na condição humana que me impõem a existência de um núcleo misterioso a que chamo Deus. [...] Estamos no tempo da morte de Deus, da sua ausência infinita, e aguardamos a sua Ressurreição. É evidente que não posso estar interessado num deus que aterrorizou toda a minha vida passada, que me cortou cruelmente de uma perspectiva de desenvolvimento humano que tem que ser vivido na terra e de que procura separar-me: dos prazeres, dos valores que a terra me proporciona, quer na minha comunicação com os outros, quer no meu desenvolvimento pessoal como o amor humano e a alegria. Recuso uma concepção de Deus cujo caminho seja a tristeza e a angústia."
Alçada, na sua peregrinação, perdeu-se de uma Igreja que sabe tudo e de um Deus autoritário. Encontrou em Cristo a humanidade de Deus, a fonte da possível humanização divina da Igreja.
(1) Teresa Tamen (cord.), A Aventura da Moraes, CNC, 2006
(2) Literatura e Interioridade, in O Canto do Signo, Lisboa, Presença, 1994, pp. 150-157.

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fevereiro 07, 2009

...um dólar por dia...

sugiro... a reflexão de A.Borges acerca do excesso do capital, da ausência de ética na sua prática...

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janeiro 24, 2009

Dez mandamentos do Empresário cristão...

1. Trata dos negócios de tal modo que a tua empresa tenha um bom lucro. 2. Sê justo com os teus parceiros de negócio. 3. Mostra estima pelos teus colaboradores. 4. Faz negócios prospectivamente e assegura o futuro da tua empresa. 5. Procura parceiros que como tu acreditem em Deus. 6. Cultiva a humildade. 7. Coloca os teus talentos e recursos ao serviço dos outros. 8. Não te percas no trabalho. 9. Reconhece que a tua empresa não te pertence a ti, mas a Deus. 10. Respeita todos os que não partilham a tua fé.

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janeiro 18, 2009

Casamentos e autocarros sg/Bento Domingues...

...in Público de hoje.

Casamentos e autocarros

18.01.2009, Frei Bento Domingues O.P.

A prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas

1. Os que, no século XIX, anunciaram a "morte de Deus" e o fim da religião foram muito precipitados. A interrogação metafísica não se esgota em nenhuma construção filosófica nem a preocupação religiosa se confunde com as suas expressões organizadas ao longo dos tempos. Se a religião estivesse morta, a cascata de reacções às palavras de Casino (13/1/09), do patriarca da diocese de Lisboa, não teria inundado os meios de comunicação. Voluntária ou involuntariamente, D. José Policarpo realizou uma operação de marketing religioso, sejam quais forem os resultados para a Igreja Católica e para a Comunidade Muçulmana, a curto e a médio prazo. Até os possíveis danos colaterais, no campo do diálogo inter-religioso, convergem para aquele princípio pouco respeitável: "Bem ou mal, o que importa é que falem de nós". No fundo, os muçulmanos conseguiram uma atenção que ultrapassa a sua presença em Portugal. Poderão dizer, à portuguesa, "há males que vêm por bem". Espero, aliás, que este incidente ajude a intensificar e alargar o diálogo da Igreja Católica, em Portugal, com a população muçulmana. O facto de o catolicismo ser maioritário, no nosso país, não pode servir para não ter em conta as outras religiões. O diálogo inter-religioso é essencial para se deixar interrogar pelo outro, independentemente do número dos interlocutores. Não só porque, onde uns, num país, são maioritários podem ser minoritários noutro. Vale a regra de ouro: fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam. Além disso, a prática da hospitalidade gratuita entre as diversas religiões faz bem a todas. Perde-se a ignorância, o orgulho e, com humildade, podem acolher-se e questionar-se mutuamente.
Que o patriarca tenha desassossegado a comunidade muçulmana, a propósito do casamento de jovens católicas com muçulmanos, por causa dos "sarilhos" em que se podem meter, é um aviso de pastor responsável. Não deveria, no entanto, esquecer o que se passa em sua casa. Seria bom que desassossegasse os seus colegas no episcopado, a começar pelo bispo de Roma, acerca dos sarilhos em que envolveram as exigências da celebração do casamento católico - algumas delas dispensáveis - que leva muitos a ficar, apenas, pelo casamento civil. A relação com o divórcio, com um segundo casamento, com o impedimento do acesso à comunhão eucarística dos recasados, acaba por aumentar o número dos católicos não praticantes. Como os sacramentos são para ajudar e não para complicar, até o próprio Deus deve exclamar: ai o que estão a fazer da graça do matrimónio!
2. Essa questão veio interromper uma outra que já andava na imprensa e, sobretudo, na Internet: as reacções à propaganda ateísta nos autocarros. A moda começou em Inglaterra, passou aos EUA, a Espanha e parece que vai chegar a Portugal. O slogan inscrito nos autocarros, inspirado no cientista ateu Richard Dawkins, é o seguinte: "Deus provavelmente não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida".
A campanha publicitária, agora em andamento por vários países, começou por ser planeada e parcialmente financiada pela Associação Humanista Britânica (BHA) e visava colocar cartazes em 30 autocarros de Londres.
O novo ateísmo militante tem vários protagonistas de nomeada. Um dos mais célebres é Dawkins, autor de várias obras importantes. Através delas, procurou distribuir as seguintes convicções, sintetizadas por Alister McGrath (1): uma visão darwiniana do mundo toma a crença em Deus desnecessária ou mesmo impossível. A religião estabelece proposições que se alicerçam na fé, o que representa um retrocesso face à busca rigorosa e factual da verdade. Para este autor, a verdade está sempre alicerçada em provas evidentes e todas as formas de misticismo ou obscurantismo, baseadas na fé, devem ser rigorosamente combatidas. A religião oferece uma visão do mundo pobre e pouco clara. "O universo apresentado pela religião organizada é um universo medieval acanhado, extremamente limitado". Inversamente, a ciência oferece uma visão arrojada e luminosa de um universo grande, belo e assombroso. A religião conduz ao mal. É como um vírus maligno que infecta as mentes humanas. Esta não é uma apreciação estritamente científica, uma vez que a ciência não sabe determinar o que é o bem ou o mal: "A ciência não possui nenhum método para decidir o que é ético". Não obstante, esta é uma contestação profundamente moral da religião, bem enraizada na cultura e na história ocidental e que deve ser considerada com a maior seriedade.
No seu livro, Alister McGrath não procurou fazer uma crítica à biologia evolucionista de Dawkins. As opiniões deste devem ser avaliadas pela comunidade científica no seu todo. Ele enfrenta, apenas, as conclusões gerais deste cientista, em particular as referentes à religião e à história intelectual, domínio sobre o qual tem uma competência especial para se pronunciar, isto é, a problemática, extraordinariamente importante, da transição da biologia para a teologia. Ele é biólogo e teólogo. Voltaremos a este tema, pois, como diz Tomás de Aquino, não é evidente que Deus exista ou não exista. (1) O Deus de Dawkins, Lisboa, Alêtheia, 2008, p. 21

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dezembro 20, 2008

"There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life"

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Trata-se de uma campanha publicitária a favor do ateísmo, promovida pela Associação Humanista Britânica e apoiada pelo célebre biólogo darwinista R. Dawkins, professor da Universidade de Oxford, ateu militante e, segundo muitos, fundamentalista.

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dezembro 14, 2008

Ummah, ignorância e confusão, sg/Faranaz Keshavjee...

...in Público de hoje.

(...)"Os seres humanos são uma nação colocados juntos pela sua humanidade. E o ornamento do poder divino está em cada um e em todos eles, sendo essa a sua alma racional. Na verdade, o ser humano é a alma racional. Todos os homens são na realidade uma entidade singular, expressa em muitos indivíduos. E uma vez que as suas almas são uma só, e o amor decorre da virtude da alma, é dever deles mesmos mostrar o amor e o afecto uns pelos outros. Isto é natural em seres que não se deixem guiar pela sua alma irascível. Quando o ser humano detém a sua alma irascível e é guiado pela sua alma racional, todos os homens se tornam seus irmãos e amigos."(Ibn 'Adi)

A ignorância e a confusão dentro da Ummah

14.12.2008, Faranaz Keshavjee


Há uma apatia geral em pesquisar, pensar e discutir a filologia historicista dos textos clássicos e dos factos islâmicos


Tenho referido que um dos maiores problemas de coexistência e de reconciliação entre o pensamento europeu ocidental moderno e o pensamento de grande maioria dos muçulmanos tem que ver com um profundo hiato de conhecimento e de esclarecimentos, e consequentes confusões, sobre questões que se prendem essencialmente com o Alcorão - a revelação recebida pelo Profeta Muhammad durante 22 anos da sua vida - e o facto islâmico, que engloba fenómenos muito mais dispersos, ambíguos e difusos, pois este prende-se com a adaptação e interpretação daquela revelação a um mundo militar, político, económico e cultural em desenvolvimento e expansão desde o século VIII d.C. até ao XVIII, com o culminar do império Turco-Otomano. No fundo, são mil anos de história em que a Revelação vai conhecendo os mais diversos "islãos".
É também este um longo período de tempo em que sucedem as mais interessantes evoluções intelectuais, culturais e políticas que acabarão por influenciar determinados elementos essenciais para a compreensão e entendimento da diversidade do mundo dos muçulmanos. E uma das mais interessantes transformações é a que vai no sentido da criação de uma confusa transnacionalidade "islâmica" que assume um renovado sentido de "Ummah". Esta transformação de uma identidade reconhecida pelos próprios muçulmanos e atribuída também pelos não muçulmanos pode ser verificada com clareza na forma como o conceito de Islão se substitui ao conceito de Deus no Alcorão. Para que se entenda melhor, basta comparar um dado interessante: a forma "islão" aparece só sete vezes no Alcorão, mas a sua significância e alcance ganha tal importância, tanto para os muçulmanos como nos escritos ocidentais, que acaba por dissolver "Allah" - o conceito abraâmico e unitarista da transcendência que surge umas 2697 vezes no Alcorão!
Numa realidade em que existe uma superioridade efectiva da razão teletecnocientífica (TV, mass media, Internet) sobre a razão crítica filosófica, e na qual não consigo antecipar mudanças substanciais no universo académico português, com imensos experts sobre o mundo muçulmano que nunca se cruzam com potenciais pesquisadores-pensadores nestas matérias, mas que acham que podem organizar "com a prata da casa" cursos de especialização no islão, fico com pena de não ter podido viver em tempos áureos das dinastias Fatimida ou Buyida, onde o saber e a aprendizagem, sem olhar a credos, cores ou género, estava aberto a todo o tipo de saber, com o intuito final de procurar a unidade na diversidade da razão humana.
Na interessante obra sobre o Humanismo no Renascimento do Islão durante a dinastia Buyida, Joel Kraemer mostra a mundividência de Ibn 'Adi:
"Os seres humanos são uma nação colocados juntos pela sua humanidade. E o ornamento do poder divino está em cada um e em todos eles, sendo essa a sua alma racional. Na verdade, o ser humano é a alma racional. Todos os homens são na realidade uma entidade singular, expressa em muitos indivíduos. E uma vez que as suas almas são uma só, e o amor decorre da virtude da alma, é dever deles mesmos mostrar o amor e o afecto uns pelos outros. Isto é natural em seres que não se deixem guiar pela sua alma irascível. Quando o ser humano detém a sua alma irascível e é guiado pela sua alma racional, todos os homens se tornam seus irmãos e amigos." (1992, p. 115)
Entre os pupilos e seguidores de Ibn 'Adi encontravam-se médicos e cientistas cristãos e muçulmanos, empenhados nas traduções das obras de Aristóteles entre outros, e o trabalho patrocinado pelos mecenas do saber e do conhecimento fazia-se sobretudo ao nível do pensamento crítico e da filologia dos textos clássicos. Esta tradição ficou perdida, principalmente no que diz respeito ao Alcorão e aos desenvolvimentos no pensamento islâmico. Há uma apatia geral, de muçulmanos e não-muçulmanos, em pesquisar, pensar, discutir academicamente a filologia historicista dos textos clássicos e dos factos islâmicos. Mais grave ainda é verificar que, entre os membros desta Ummah transnacional, o discurso e o pensamento não passa da mito-história e de um tradicionalismo reinventado, descontextualizado e desintegrado. Precisamos urgentemente de dominar a alma irascível, colocar a razão crítica ao serviço da fé, e passar da mito-história para o estudo transdisciplinar da tradição, para finalmente, dar lugar à liberdade da razão individual. Estudiosa de temas islâmicos (Faranazk@sapo.pt)

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Bento Domingues e os...professores.

Habitual leitor das crónicas de Bento Domingues, não posso enquanto professor, deixar de reagir com alguma estupefacção à crónica que nos deixa no Público de hoje. Esta de uma peregrinação a Fátima patrocinada pela Plataforma sindical não lembraria ao diabo...não entendo com Bento Domingues, habitualmente crítico esclarecido, embarca numa notícia do Dn, especialista nos últimos tempos, em confundir a opinião pública com algumas afirmações manipuladoras...aqui fica o protesto e a crónica em entrada estendida. Todos falam falam, mas quem é que percebe mesmo do assunto? Graves vão os tempos.
Salva-se a segunda parte da crónica com as sugestões bibliográficas do cronista, que refere livros bem apaixonantes.
Bom domingo para todos e para Frei Bento.

Peregrinações e janelas

14.12.2008, Frei Bento Domingues, O.P.


No exercício do direito à indignação, num Estado democrático, não vale tudo

(In Público de 14 de Dezembro)

1.Havia rumores de que a Plataforma dos Professores estaria a preparar uma peregrinação a Fátima contra a ministra da Educação. Naquele espaço, há mais do que lugar para todos os professores, familiares e apoiantes. Estranhei que se falasse de uma "peregrinação contra". Em geral, as peregrinações são feitas para agradecer ou pedir alguma graça ou, ainda, como método de transformação espiritual.

As aparições de Fátima não fazem parte do credo católico. A hierarquia da Igreja não pode impor a ninguém a sua aceitação. Acolher ou não esse fenómeno religioso que, desde 1917, vem marcando o catolicismo português depende da atitude de cada um. Há muitos anos que os frequentadores do Santuário se contam aos milhões. Além disso, a rede viária e os equipamentos hoteleiros servem, hoje, para muitos eventos que nada têm a ver com a religião. Ninguém poderia levar a mal que a plataforma sindical dos professores se reunisse em Fátima.

Curiosa é, porém, a notícia do DN (06.12.2008) com um título nitidamente confessional: Professores vão a Fátima pedir a bênção da Igreja. O conteúdo é inquietante: "Na guerra da educação, os sindicatos não descartam qualquer carta do baralho da influência social e espiritual. A Plataforma dos Professores reúne-se com o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, em Fátima, para lhe pedir a bênção para os protestos contra Maria de Lurdes Rodrigues. Os portugueses estão fartos de agitação, mas são muito católicos..."

Em alguns círculos, a chacota das extrapolações não se fez esperar: os professores, ao pedir a bênção da Conferência Episcopal para os protestos contra a ministra da Educação, ofereceriam, em troca, o propósito de colocar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima em cada uma das salas de aula de todas as escolas do país... Combateriam, assim, o laicismo no ensino e acabariam por favorecer esse comércio que também está a sofrer com a crise.

No momento em que escrevo, não posso saber ainda se a audiência se realizará nem qual será o seu resultado. Seja como for, o recurso à intervenção da hierarquia católica num processo político reveste aspectos melindrosos. Não acredito que a Conferência Episcopal se vá deixar envolver num protesto de consequências incontroláveis. Os alunos, ao verificarem que os professores não estão dispostos a ser avaliados - a não ser como eles quiserem -, podem começar também a não aceitar exames, a faltar quando lhes apetecer, a impedir os professores de entrar na sala de aulas, a não ser para os humilhar com slogans usados pelos professores nas manifestações.
Haverá professores interessados em tais cenários? Mandaram-me um artigo de Moisés Espírito Santo, sociólogo e professor do ensino superior, que resvala no seu próprio delírio: "Eu só acreditaria que esta escola valha a pena - já que (como vemos) quanto mais palavreado eduquês, quanto mais avaliações, quanto mais Magalhães... menos saberes e menos formação profissional - se os jovens saíssem de lá a portar-se como gente grande para lutar, a saber organizar-se e a protestar sem medos. Com ovos, com tomates e, quando tiver de ser (longe vá o agoiro!), à pedrada" (Jornal de Leiria: 27.11.2008).
Haverá muitos portugueses a desejar que a tarefa das escolas seja a de preparar terroristas? No exercício do direito à indignação, num Estado democrático, não vale tudo. Ficou célebre a expressão "juventude rasca", de Vicente Jorge Silva, primeiro director do PÚBLICO, quando os estudantes viraram as costas à ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, e deitaram as calças abaixo. Parece-me, no entanto, uma extrapolação indevida afirmar que os professores de agora são todos a reprodução, em adulto, dessas atitudes.

2.As peregrinações não vão dar todas a Fátima. O turismo religioso voltou-se, apesar da crise, para itinerários de há dois mil anos, sobretudo para os de Paulo de Tarso, a grande figura cristã deste e do próximo ano. As Edições Paulinas lançaram um conjunto de obras deliciosas para conhecer os enigmas das suas arriscadas viagens e das suas Cartas apaixonadas (1).
Cristo não deixou nada escrito, mas esse vulcão humano e divino provocou, muito cedo - desde há dois mil anos até hoje - ondas e ondas de inspirada literatura. Além daquilo que se pode saber de Jesus, através da investigação histórica - mas sem passar ao lado dela -, o que sobretudo interessa é responder à pergunta: como viver, nas encruzilhadas do nosso tempo, do seu próprio Espírito? O dominicano Albert Nolan responde de uma forma radical, sábia e comovente (2).
Anselmo Borges, um encantado com a metáfora da janela, já tinha aberto uma para o (In)Visível. Surge, nas vésperas deste Natal, com outra aberta sobre a paisagem do (In)Finito (3). É um regalo para a razão e para a imaginação.

(1) Peter Walker, Nas Pegadas de São Paulo. Um guia ilustrado das viagens de São Paulo, Lisboa, Paulinas, 2008; Jerome Murphy-O'Connor, Paulo. Um homem inquieto, um apóstolo insuperável, Lisboa, Paulinas, 2008; Jesus e Paulo. Vidas paralelas, Lisboa, Paulinas, 2008.
(2) Albert Nolan, Jesus hoje. Uma espiritualidade de liberdade radical, Lisboa, Paulinas, 2008
(3) Anselmo Borges, Janela do (In)Finito, Porto, Campo das Letras, 2008

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dezembro 08, 2008

O feriado da "Imaculada Conceição"

Foi concretamente Santo Agostinho que elaborou a doutrina do pecado original, no sentido de um pecado cometido pelos primeiros pais (Adão e Eva) e transmitido a todos por herança, no acto sexual. Houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original.

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dezembro 07, 2008

O cristianismo como presépio...

"Para refazer a nossa alma na beleza e na pobreza, basta acolher a graça do Presépio."

Nem só de pão vive o homem

07.12.2008, Frei Bento Domingues O.P. (jornal Público)

Encontrar-se com o nosso património artístico, expressão da fé cristã, é fácil e barato. Basta acolher a graça do Presépio

1. Nem só de pão vive o homem, mas sem pão é difícil. O Diabo sabia disso quando pôs Jesus à prova no deserto. Hoje, diante dos efeitos económicos da especulação financeira, a nível global e local, a oração pelo "pão nosso de cada dia" - que não dispensa o trabalho - continua a fazer todo o sentido.
Quanto à crise, consultei o site da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). Estava com pouca luz. O filósofo André Comte-Sponville - um ateu meio cristão - realça o primado evangélico do amor, alma de uma ética superior, mas não perde o sentido do realismo mais chão: "A ética vale mais do que a moral. A moral vale mais do que o direito. Mas a moral é mais necessária do que o amor, o direito é mais realista do que a moral. Se não formos capazes de viver à altura do Novo Testamento, respeitemos, ao menos, o Antigo."
São afirmações lapidares e insuficientes. Encontrei alguns fervorosos católicos lamentando que o Papa - embora com alguns recados à banca - não tenha excomungado os maiores responsáveis por uma crise que continua mais misteriosa do que a Santíssima Trindade.
A receita das excomunhões não me entusiasma e as determinações papais só contam para quem as deseja acolher. Por outro lado, os textos do Novo Testamento colocaram na boca de Jesus de Nazaré e de sua Mãe textos assustadores sobre os ricos. Na escola de S. Paulo, sustentava-se que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" (1 Tm 6, 10). Os cristãos que alinham com sistemas de exploração e com práticas de corrupção sabem muito bem o que fazem e sabem que estão, pelo efeito da sua actuação perversa, a excomungar-se da comunidade humana.

2.Estamos no Advento, mas a necessidade de vigilância não é exclusiva desta quadra litúrgica. Hoje, mesmo fora dos espaços eclesiais, é frequente ouvir: não se pode permitir aos mercados que façam o que lhes apetece sem qualquer controlo. Não basta, no entanto, aproveitar a crise para ter mais cuidado com a gestão da vida económica. Quem ficar por aí vai sonhar com o fim deste pesadelo para voltar a pautar a vida pessoal, profissional e social pela mesma escala de preocupações. Ora, o que está em causa é o sentido que cada um dá à sua vida, a responsabilidade que assume em relação ao bem comum e o espírito de compaixão pelos que vivem sós e abandonados: justiça e gratuidade.
A alteração de critérios deve começar já pela preparação deste Natal. É evidente que ainda há muito sentimento humano para que os sem-abrigo e os velhos e novos pobres não sejam totalmente esquecidos. Os meios de comunicação podem fazer imenso para avivar o sentido da solidariedade e nem são precisas "300 ideias" para os atender. Mas, se ficarmos por aí, é porque pensamos que as pessoas "só vivem de pão". Além da satisfação das necessidades materiais básicas - e estamos muito longe de estas serem atendidas, apesar de todos os programas de combate à pobreza - as pessoas vivem, sobretudo, de afectos e beleza. Quando os presentes de Natal não são investimentos, valem na medida em que forem concretizações de presença pessoal, de reconhecimento, isto é, de que os outros contam para nós.
É normal que o marketing se esforce por encontrar modelos de gastos de Natal para tempos de crise, porque presentes de luxo para gente de luxo são negócios, válidos apenas como negócios, mais ou menos honestos, investimentos talvez mais seguros do que a oscilação dos jogos da Bolsa. A ética desses investimentos e jogos é anti-solidária: a riqueza de uns implica a pobreza de outros.

3.Na perspectiva de revisão de vida, neste tempo de Advento, talvez possamos mudar de registo sem muitos gastos. É um momento privilegiado para descobrir a aliança entre a pobreza voluntária e a beleza. A pobreza, quando imposta, é feia e destruidora. Quando voluntária, pode ser azeda por moralismo, como a de João Baptista, ou bela como a de Jesus e Francisco de Assis. Os Evangelhos encheram de música o curral do nascimento do filho de Maria e o Poverello foi o grande poeta do presépio e da natureza. Fra Angelico só gastou alguma tinta para encher de beleza o Convento de S. Marcos de Florença.
Somos europeus. G. Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, numa conferência na Universidade de Salamanca - no começo do próximo ano estará em Portugal -, insistiu na redescoberta da nossa herança cultural multifacetada. Na apologia da vertente cristã, lembrou algumas afirmações de grandes figuras da cultura europeia: para Goethe, a língua materna da Europa é o cristianismo; segundo I. Kant, a fonte da qual brotou a nossa civilização é o Evangelho; T. S. Eliot foi mais explícito: "Um cidadão europeu pode não pensar que o cristianismo seja verdadeiro e, contudo, o que diz e faz brota da cultura cristã da qual é herdeiro. Sem o cristianismo não teria havido nem sequer um Voltaire ou um Nietzsche. Se o cristianismo desaparece, desaparece também o nosso rosto."
Encontrar-se, hoje, com o nosso património artístico, expressão da fé cristã, é fácil e barato. Para refazer a nossa alma na beleza e na pobreza, basta acolher a graça do Presépio.

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novembro 24, 2008

Dia da Ciência:Poema para Galileu

sugiro...

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novembro 17, 2008

O "Mosquito"


Quando é que começaste com as tuas habilidades,
Monsieur?

Para que são essas pernas tão altas?
E para quê tíbias tão esguias e finas,
tu, sobranceria?

E é preciso elevares tanto o centro da tua gravidade
e pesares tanto como o ar quando em mim poisas
e em mim ficas, sem peso nenhum, tu, fantasma?

Ouvi uma mulher chamar-te Victory com asas
na indolente Veneza.
Viras a cabeça no sentido da cauda e sorris.

Como podes pôr em ti tanta crueldade,
partícula translúcida de fantasma
em corpo tão frágil?
Estranho ser, com as tuas asas e as tuas pernas trémulas,
deslocando-se lentamente como a garça ou um súbito coágulo de ar,
não és senão nada.

E contudo há uma aura que te circunda,
a tua pequena e maldosa aura, voando às voltas, lançando torpor na minha mente:

As tuas habilidades, o teu número de infecta magia:
a invisibilidade e o poder anestesiante
que fazem a minha atenção distrair-se de ti.

Mas agora sei qual é o teu jogo, feiticeiro listrado;
Estranho, sim, como volteias pelo ar, magnânimo, e
em círculos e recuos me envolves,
vampiro de asas
Victory alado.

Determinado, do alto das pernas finas e compridas
olhas-me de viés com uma astúcia consciente da minha atenção,
tu, minúscula partícula.

Odeio a forma como voas de lado, às guinadas no ar,
porque já leste os meus pensamentos contra ti.

Mas vem, vamos brincar às escondidas
e logo se vê quem é mais esperto neste jogo, nesta simulação.
Se o homem ou o mosquito.

Tu não sabes que eu existo, e eu não sei que tu existes.
Ora vamos lá então!

É esse teu zumbido,
esse teu odiento e rápido zumbido,
tu, demónio pontiagudo,
que me faz estremecer subitamente o sangue em total aversão por ti:
essa espécie de corneta, breve e estridente, junto aos meus ouvidos.

Porque fazes uma coisa dessas?
Não é certamente boa política.
Mas dizem que não consegues evitar.

Se assim é, então acredito um pouco na Providência que protege os inocentes.

Soa tão surpreendente quanto um slogan
o grito de triunfo quando me picas o crânio.

Vermelho, sangue vermelho
super-mágico
líquido proibido.

Vejo como ficas
durante um só segundo num espasmo esvaído,
obscenamente extasiado
sugando sangue fresco,
o meu sangue.

Tanto silêncio, tanta suspensão de movimento,
tanto prazer farto,
tanta obscenidade violentadora.

Cambaleias
mas aguentas-te.
Só esses teus malditos e frágeis filamentos,
essa tua imponderável leveza,
te salvam, levam-te no mesmo sopro de ar que a minha raiva faz ao coçar-se.
E afastas-te em irrisória glória,
tu, gota de sangue alada.

Não te poderei vencer?
Serás demais para mim?
Serás mesmo Victory com asas?
Nem mosquito saberei ser para, enquanto mosquito, te derrotar?

Estranho como o sangue que sugaste faz tão grande mancha
quando comparada com a tua infinitesimal e ínfima presença!
Estranha a negra e densa fogueira onde desapareces!

D.H.Lawrence

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novembro 15, 2008

Deus e Darwin, sg/ A.Borges

Uma pedagógica reflexão de A.Borges, cuja leitura...
sugiro...
sugiro...

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outubro 21, 2008

Ciência e religião...

sugiro...

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outubro 18, 2008

TA BIBLIA...

Lídia Jorge disse de modo iluminante: "A Bíblia é o poema colectivo mais longo criado até agora pela Humanidade. Nele se espelham as várias batalhas que os homens engendram na sua demanda pelo amor absoluto."

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outubro 13, 2008

A Vida Eterna ... despedida.

Avidaeternasavater.jpg

...com um dos mais belos poemas de amor e tudo o mais que possa ser, aqui deixo a sugestão para leitura de mais uma obra extraordinariamente pedagógica de F.Savater.

Despedida

Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar a carne pobre e pura
que nenhum de nós viu apodrecer

Outros viriam lúcidos e enlutados,
e no entanto eu venho embriagado,
Hermengarda, eu venho embriagado.
E se pela manhã encontrarem a cruz
do teu túmulo derrubada no solo
não foi a noite, Hermengarda,
nem foi o vento.
Fui eu.

Quis amparar a minha embriaguez na tua cruz
e rolei pela terra em que repousas
coberta de margaridas e contudo triste.

Eis-me aqui junto da tua sepultura,
Hermengarda,
para chorar o nosso amor de sempre.

Não é a noite, Hermengarda,
nem é o vento.
Sou eu.

( Ledo Ivo, Valsa fúnebre para Hermengarda.)

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outubro 09, 2008

Graça Morais e a "Rota do Sagrado"

sugiro...

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outubro 06, 2008

Sua Santidade Ratzinger...

courriersetembro08.jpg

...a instituição Igreja católica romana não esqueça da sua própria e enorme responsabilidade. A sua fobia à sexualidade e o menosprezo encapotado pela mulher, a sua resistência a rituais mais adaptados aos tempos actuais, tem feito com que muitos seres humanos se tornem indiferentes à sua mensagem.Não desdigo destes tempos impiedosos em que o vil metal se impões escandalosamente mas ver o argueiro no outro e não ver a enorme catarata na sua própria visão...

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setembro 27, 2008

Paulo de Tarso...

...tendo lido ultimamente uma obra sobre esta enorme e importante figura do cristianismo - poderiamos dizer que sem ele talvez este tivesse desaparecido - sugiro a leitura da reflexão de A. Borges no Dn de hoje.

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setembro 20, 2008

"O bosão de Deus..."

sugiro...

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setembro 13, 2008

O século XXI será religioso? Cenários...

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...avançados pelo número de Agosto de "Philosophie magazine". Aproveito igualmente a crónica de A. Borges no Dn de hoje.

ver pequeno slide show alusivo com fotos da revista em apreço

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agosto 16, 2008

Meditação das férias...

sugiro...

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agosto 02, 2008

Igreja ...poder e prazer.

sugiro...

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julho 26, 2008

Pensar...

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"Pensar é uma bonita e orgulhosa ocupação quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue «sair» de estados de alma difíceis. Nesse caso outra coisa tem de acontecer. Então deve ser-se passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto com um bocadinho de eternidade."
(Etty Hillesum, diário, pg.115, A/alvim)

Até à próxima terça-feira vou estar em "Metanoia" ..

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julho 24, 2008

Dentro de mim há um poço muito profundo...

...E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que essas procuram Deus dentro de si.


(In: "Diário", Etty Hillesum, pg.112, Assírio e Alvim ed.)

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julho 19, 2008

Sagrad0 e profano, da imagem e do símbolo.


Como habitualmente aos sábados, a crónica no Diário de notícias de A.Borges, convida-nos à reflexão...

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julho 16, 2008

Todo esse devorar... Etty Hillesum,"Diário".

... de livros, desde pequena, é simplesmente preguiça da minha parte. Deixo que os outros formulem aquilo que eu mesma devia fazer. Procuro a confirmação por toda a parte do que em mim vive e se revolve, mas para obter o esclarecimento vou ter de utilizar as minhas próprias palavras. Vou ter de deitar borda fora muita preguiça, e sobretudo inibição e insegurança, antes de me descobrir. E por minha via, aos outros. Tenho de atingir o esclarecimento e tenho de me aceitar. E agora vou comprar um melão ao mercado. É tudo um peso enorme dentro de mim. E eu gostaria tanto de ser leve.

Absorvo tudo, há anos e anos, vai tudo para dentro, para um grande reservatório, mas um dia terá de sair tudo cá para fora, senão fico com a sensação de ter vivido para nada, se só ter espoliado a humanidade e não ter dado nada em troca. Às vezes tenho a sensação de que parasito, daí às vezes a grande depressão e a interrogação de se na realidade levo uma vida útil. Se calhar é minha tarefa explicar-me toda, explicar-me realmente toda, tudo o que me atinge e tortura e o que em mim brada por uma solução e formulação. Porque porventura não serão problemas só meus, mas também os problemas de muitos outros. E quando eu, ao fim de uma longa vida, conseguir encontrar uma forma para as coisas que agora são um caos dentro de mim, talvez tenha então concluído a minha pequena tarefa com êxito.
(…)
Às vezes sinto-me como se fosse um caixote do lixo, tenho tanta turbação, vaidade, meio-termo e inferioridade em mim! Mas, também existe uma verdadeira honestidade, e uma paixão quase elementar, para induzir pureza e encontrar harmonia entre o exterior e o interior.
Às vezes desejava estar numa cela conventual, com a sabedoria sublimada de séculos nas prateleiras de livros ao longo das paredes, e com vista para as searas – têm mesmo de ser searas e também de ondular – e aí eu quereria aprofundar-me nos séculos e em mim mesma, e, com o correr do tempo, viriam então o sossego e a clareza. Mas assim não custaria nada. Aqui, neste lugar, neste mundo e agora, tenho de alcançar o entendimento, o sossego e o equilíbrio. Tenho de me lançar na realidade repetidamente, tenho de me explicar tudo o que surge no meu caminho, o mundo exterior precisa de receber sustento do meu mundo interior e vice-versa, mas é tudo tão extremamente difícil, e porque é que tenho esta sensação de sufoco por dentro?
(In diário, pgs. 100/101)

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julho 12, 2008

Forte feio delicadamente com luva branca na...

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...na Igreja Católica e Apostólica Romana...,
...crónica sabática de A.Borges, sugiro...

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julho 09, 2008

Etty Hilesum, II.

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Etty Hillesum também escreve: «Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar um poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experimenta a vida lá, e lá também a poderá cantar».

A eleita de Deus

Aqueles que disseram que a poesia e a possibilidade de Deus cessaram com Auschwitz levantavam questões muito sérias, que marcaram intensamente o debate filosófico e teológico da segunda metade do século XX. E, de facto, dentro de um determinado quadro de compreensão foi o colapso. O que Etty intui fulgurantemente é que a experiência daquele inferno histórico exige a necessidade de uma nova gramática. «Vou ter de achar uma linguagem nova», escrever ela. E achou.
Olhamos para ela em Werterbork e vemos a eleita do Senhor, passeando-se na solidão e na lama, escrevendo algumas das orações mais extraordinárias que um ser humano poder proferir, mas não na amplidão majestosa de um templo, antes no espaço putrescente da latrina comum, onde se refugiava de madrugada em busca de um instante de silêncio e de concentração. Vemos a enamorada de Deus esgotar-se em atenções aos deportados, curando, intercedendo. Ela própria ferida por dores violentas, sempre à procura de uma janela donde se alcance um fragmento de céu, ou de uma tábua onde, por fim, possa sentar-se a ler umas frases de Rilke. Seguimo-la na leitura que faz do Evangelista Mateus, «o meu bom Mateus», nos comentários aos textos de Paulo e de Santo Agostinho como se de uma mestra experimentada nos caminhos do espírito se tratasse. Lemos «Gostaria muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo», e é difícil recordar que quem nos fala é aquela rapariga de Amesterdão que ali chegou há poucos meses.

(…) “Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que não ponhas no meu caminho.”»

A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz.

(in diário, prefácio, pag.21-23, adaptação)

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julho 06, 2008

Ano Paulino: crónica de B.Domingues...

...in Público de hoje. Sugiro a leitura. Bom domingo.

Ano Paulino, ano de convocatórias

Frei Bento Domingues O.P. - 20080706

É preciso que se abandone o divórcio que há entre arte, cultura e a expressão religiosa, fechada em si mesma

1.Num momento em que muitos têm a sensação de que a Igreja pensa que avança, recuando, a promessa de um ano inteiro dedicado a personalidade e obra de S. Paulo, só por si, não é boa nem má: tanto pode servir para nos confrontarmos com reformas inadiáveis, como para saturar o mercado com a reedição de propostas gastas que já não levam a lado nenhum.

Para já, importa não desligar o Ano Paulino da vontade manifestada por Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, de convocar a arte contemporânea, que anda longe dos grandes temas, símbolos e narrativas, para exprimir a profundidade da fé crista. Para esse efeito, pretende chamar cinco ou seis grandes artistas que incarnem, de forma exemplar, esse desígnio. Na arquitectura, na construção de templos, o diálogo já começou. Refere o arquitecto português Siza Vieira, o japonês Tadao Ando, o italiano Renzo Piano, o suíço Mario Botta, o norte-americano Richard Meier, judeu que construiu a bela igreja do jubileu, em Roma. Esse diálogo deve continuar também com a arte e a música contemporâneas, para que se abandone o divórcio que há entre arte, cultura e a expressão religiosa, fechada em si mesma. Este projecto não se destina a aumentar o chamado património cultural da Igreja, mas a superar a situação actual, de desleixo e de mediocridade, que impede a irrupção criadora do Espírito.

Essa abertura estética não deve servir para esquecer as dificuldades criadas, aos católicos, em nome de uma moral convencional. Anselmo Borges foi muito oportuno ao apresentar as Conversas Nocturnas em Jerusalém, entre o padre G. Sporschill e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão (DN, 20/06/2008). Reflectem preocupações de ordem ética, sacramental e disciplinar, internas à Igreja, nas quais muitos se reconhecem e outros tomarão como uma desgraça que nem a idade pode desculpar, esquecendo-se de que o cardeal não é mais idoso do que Bento XVI. É possível que alguns lamentem que Carlo Martini não tenha lutado por essas perspectivas, quando era bispo efectivo de uma das maiores dioceses do mundo. E, quando sugeriu a necessidade de um concílio para debater algumas destas questões, foi pena que não tivesse encontrado aliados para essa urgência. No entanto, mais vale que o tenha feito agora do que em memórias póstumas.

2.O cardeal Martini retirou-se para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna." S. Paulo perdeu essa devoção numa viagem sem regresso, que, segundo os Actos dos Apóstolos, mudou o rumo da sua vida: "respirando ainda ameaças e morticínios contra os discípulos do Senhor, foi procurar o Sumo Sacerdote e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse alguns adeptos do Caminho, homens ou mulheres, ele os trouxesse agrilhoados para Jerusalém" (Act 9, 1-2). Nessa viagem, não prendeu ninguém. Foi ele o libertado da ideologia política e religiosa que matava os profetas.

A continuação desta passagem dos Actos descreve a conversão de Paulo. Não resultou de uma crise de identidade religiosa: "Circuncidado ao oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, um hebreu descendente de hebreus; no que toca à Lei, fui fariseu; no que toca ao zelo, fui perseguidor da Igreja; no que toca a justiça - a que se procura na Lei - irrepreensível. Mas, tudo quanto para mim era ganho, isso mesmo considerei perda por causa de Cristo. Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero esterco a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé. Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos" (1).

3.No ardor das polémicas a que o obrigaram, Paulo moveu-se no teclado da sua cultura greco-romana e no da sua esmerada formação rabínica. Ao tentar exprimir o terramoto que abalou todas as suas seguranças, até parece querer dinamitar a razão e a religião: "Os judeus pedem sinais e os gregos andam à busca da sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que, para os judeus, é escândalo, para os gentios, é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1Cor 1, 22-25). Essas sabedorias, ao pretenderem ser a medida da razão e essas religiões, apresentando-se como os laicos caminhos de Deus, criavam a ilusão de uma máquina que controlava o presente e o futuro. Em Damasco, Paulo encontrou-se com o absolutamente imprevisível. Dir-se-á que as suas convicções, acerca da morte/ressurreição, exigem um salto abissal, sem rede. Não me admira que muitos se resignem a um destino de estrume.
(1) Carla aos Filipenses 3,2-11; cf. Act 9; 22; 26; Gal 1, 1 lss e 2; lCor 15,8-11; 2Cor 10- 12.

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julho 05, 2008

..."a bispa do Porto, a cardeal de Lisboa..."

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Convidado para intervir no Congresso Feminista, na Gulbenkian, na semana passada, comentando intervenções sobre "Mulheres e Religiões", tentei apresentar alguns princípios de hermenêutica feminista das religiões e dos seus textos.

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julho 04, 2008

Etty Hillesum: "Diário".

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“Nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são, gostava de viver longamente para no fim, mais tarde, conseguir explicar, e se isso não me for dado, pois bem, nesse caso uma outra pessoa irá fazê-lo e então um outro continuará a viver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e por isso tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para que o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades.”
(a continuar...)

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junho 29, 2008

Dos santos populares...e...não populares

...como vai sendo habitual, a reflexão dominical de frei Bento Domingues. Bom domingo para todos.


Populares e impopulares

Frei Bento Domingues, O.P. - 2008/06/29 (In público)

As religiões só têm sentido se servirem para destapar o horizonte do quotidiano rotineiro: abrir o céu à terra e a terra ao céu
1
Estamos em tempo de santos populares: "Primeiro vem Santo António, depois S. João e, por fim, vem S. Pedro para a reinação". Santo António, pronto-socorro em todos os apertos, merece o primeiro lugar. É o português mais universal e nem se importa que lhe atribuam várias nacionalidades. Estranho é S. João Baptista: vida dura, pregação severa, cabeça servida num prato e, no entanto, põe o país - sobretudo Braga e Porto - de cabeça perdida. Mais espantoso ainda é S. Pedro. Fixaram-lhe, nos Evangelhos, uma imagem de homem rude e precipitado; generoso, mas de vistas curtas; pronto para as afirmações mais sublimes e para as negações mais ingénuas e medrosas. Os Actos dos Apóstolos procuraram corrigir essa impressão. S. Paulo, embora o reconhecesse como coluna da Igreja, achava-o um bocado cobarde, deixando-se levar pelas circunstâncias.

Estas festas, de forma mais ou menos aldrabada, lembram que as religiões só têm sentido se servirem para destapar o horizonte do quotidiano rotineiro e para transformar as tristezas em alegria: abrir o céu à terra e a terra ao céu.

2
Hoje, a liturgia oficial trouxe S. Paulo para a festa de S. Pedro, mas não faz dele um santo popular. Sendo o grande génio do cristianismo, não deixa de provocar grandes alergias. Já nos seus próprios escritos - Epístolas famosas - deparamos com alguém que tem de estar sempre a afirmar-se e a defender-se. Procura a paz e a comunhão, mas provoca uma agitação permanente. Reivindica, a pés juntos, a sua condição de apóstolo, mas lembram-lhe sempre que não fez parte do grupo de Jesus, foi perseguidor dos cristãos e ate presidiu ao martírio de Estêvão. Apesar de ter organizado uma campanha internacional de socorro aos pobres da Igreja de Jerusalém, esta, por razões ideológicas, nunca se mostrou agradecida, antes pelo contrário. Agora, fazem dele o inimigo das mulheres e dos homossexuais, alguém que não mexeu uma palha para libertar os escravos, que chegaram a ser dois terços da população do Império romano a que ele pertencia. Para uns, é um moralista chato e rabugento; para outros, até os seus textos de circunstância são transformados em leis universais, válidas em todo o tempo e lugar, isto é, obra de um teólogo profissional, completamente perdido em questões abstractas, sem ligação com a vida do povo. A Carta aos Romanos é um quebra-cabeças para as relações entre cristãos e judeus. Como se isto não bastasse, há quem faça dele o maior traidor da simplicidade evangélica, apresentando-o como o verdadeiro fundador do cristianismo, um concorrente do próprio Jesus.

3
Celebra-se, neste domingo, a abertura do "Ano Paulino". Bastará um ano, consagrado ao estudo da sua obra e da sua revolução, para desfazer todos esses preconceitos e aprofundar enigmas que atravessam dois mil anos de história? Antes de mais, é preciso identificar a complexa geografia cultural e religiosa de S. Paulo. De um lado, havia o Evangelho e, do outro, a Tora (Lei). Com Paulo de Tarso, o cristianismo tornou-se um sistema doutrinal sólido. A sua língua e, até certo ponto, os seus conceitos não vinham de Jesus de Nazaré. Brotavam, sem dúvida, de fontes autenticamente judaicas quanto ao fundo, mas eram gregas quanto à forma, não só a partir da versão grega das Escrituras, mas também dos pensadores e escritores da Diáspora helénica. Esses judeus estavam em diálogo contínuo e profundo com a filosofia e a cultura dos gregos. A eles se deve uma herança escrita da mais alta importância que os cristãos acolheram, desde o começo, e salvaram-na. O judaísmo rabínico preferiu ignorá-la e construiu-se sem ela (1).

Paulo, ao não exigir que os judeus se tornassem gregos, isto é, não-judeus, nem que os gregos se tornassem judeus, revelou a imparcialidade de Deus - não faz acepção de pessoas ou de povos - e fundou a universalidade humana e religiosa: "Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa" (Gal 3, 28-29).

Quem assim fala é um judeu - declarado apóstata pela 12.ª Bênção da 18.ª Oração de Petição judaica - que, em nome de outro judeu, propõe um caminho para a realização da comunhão de toda a humanidade na sua imensa diversidade. George Steiner levanta uma questão que não é possível desenvolver aqui: "Esquecemos prontamente que não só Jesus, mas também os autores dos Evangelhos e dos Actos, e todos os seus primeiros seguidores, eram judeus. Os primórdios do cristianismo e da história macabra do ódio entre os judeus estão inextricavelmente entretecidos" (2).

Talvez seja esse um ponto essencial para o diálogo entre cristãos e judeus rabínicos do nosso tempo. No entanto, a revolução desencadeada por Paulo de Tarso não pode ficar circunscrita a problemáticas confessionais. Importa encontrar-se, também, com a voz de alguns filósofos nossos contemporâneos, como Alain Badiou e Giorgio Agamben. Fica para depois.

(1) André Paul, Qumrân et les Esséniens, Paris, Cerf, 2007.
(2) A Bíblia Hebraica e a Divisão entre Judeus e Cristãos, Lisboa, Relógio d'Água, 2006, 84-85.

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junho 27, 2008

O Amor não cansa nem se cansa

Para chegares a saborear tudo,
não queiras ter gosto em coisa alguma.
Para chegares a possuir tudo,
não queiras possuir coisa alguma.
Para chegares a ser tudo,
não queiras ser coisa alguma.
Para chegares a saber tudo,
não queiras saber coisa alguma.
Para chegares ao que não gostas,
hás de ir por onde não gostas.
Para chegares ao que não sabes,
hás de ir por onde não sabes.
Para vires ao que não possuis,
hás de ir por onde não possuis.
Para chegares ao que não és,
hás de ir por onde não és.

Modo de não impedir o tudo:
Quando reparas em alguma coisa,
deixas de arrojar-te ao tudo.
Porque para vir de todo ao tudo,
hás de negar-te de todo em tudo.
E quando vieres a tudo ter,
hás de tê-lo sem nada querer.
Porque se queres ter alguma coisa em tudo,
não tens puramente em Deus teu tesouro.

(PENSAMENTOS DE SÃO JOÃO DA CRUZ
Extraídos do livro “O Amor não cansa nem se cansa”, selecção de textos feita por Frei Patrício Scidiani, ocd, Editora Paulus, 2a. ed. )

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junho 21, 2008

Oração beneditina

Consentir na ausência
como quem vai a uma festa,
Atravessar o sofrimento
como quem junta os amigos,
Contemplar o invisível
como quem descobre um rosto,
Esperar o impossível
como quem aguarda uma carta,
Ouvir o silêncio
como quem decifra um oráculo,
Acolher as impotências
como quem recebe um milagre,
Desenrolar a tristeza
como quem desfralda uma vela,
Apresentar as mãos vazias
como quem eleva uma taça,
Caminhar em terra árida
como quem vai a uma fonte,
Olhar a própria fraqueza,
como quem descobre uma estrela.

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junho 20, 2008

Da morte de Deus?

(...) a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser homem sem colocar honestamente a questão de Deus. É que ser homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão.

(…) Os espíritos mais atentos acham, porém, que é necessário dar antes razão a L. Kolakowski, o filósofo polaco agnóstico, quando afirma que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, nunca mais houve ateus serenos: “com a segurança da fé desfez-se também a segurança da incredulidade. Ao contrário de um mundo familiar, protegido por uma natureza benéfica e benigna, como era proposto pelo ateísmo iluminista, o mundo sem Deus dos nossos dias é sentido como um caos opressor, eterno um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura (…). De há cem anos a esta parte, (…) praticamente nunca mais vimos ateus serenos (…). A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço feito para esquecê-la, recorrendo a toda a espécie de narcóticos (…)”.

Como escreveu o filósofo Eusebi Colomer, recentemente falecido, a própria expressão “morte de Deus” não é unívoca, pois pode ter e tem múltiplos sentidos. Pode significar que Deus realmente nunca existiu, embora só recentemente tenhamos feito essa descoberta. Pode querer dizer que talvez Deus exista, mas os homens, que outrora se lhe dirigiram pela fé e pela invocação, hoje já não acreditem nele. Talvez queiramos apenas exprimir a experiência de ausência e aparente silêncio de Deus, própria do nosso tempo. Segundo a fé cristã, Deus morreu verdadeiramente no mundo na Sexta-Feira Santa histórica de há dois mil anos, e é talvez ainda em Sexta-Feira Santa que nos encontramos, de tal maneira que clamamos com Jesus do alto da cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?” Talvez estejamos apenas a referir-nos à necessidade de transcender constantemente a nossa ideia acerca de Deus, e, neste sentido, a “morte de Deus” significa a morte dos ídolos fabricados por nós. Afinal, que Deus era esse que morreu? Se o Deus verdadeiro é o Deus sempre maior, que transcende sempre tudo quanto possamos pensar ou afirmar dele, então os deuses enquanto ídolos têm que morrer, para ser possível a fé no Deus verdadeiro…
Neste domínio, a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser homem sem colocar honestamente a questão de Deus. É que ser homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão.

Janela do (In)Visível, Anselmo Borges, Campo das Letras

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junho 14, 2008

Relação Igreja e Estado, sg/ A.Borges

A(s) Igreja(s) não precisam de pequenos e reles privilégios, que deviam evitar. Mas, garantidos os direitos humanos e no quadro do respeito pela autonomia dos indivíduos e pelo pluralismo democrático, as religiões podem dar, como escreveu J. Habermas, ontributos significativos mediante os seus recursos simbólicos e a sua capacidade superior de "articular a nossa sensibilidade moral"

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junho 12, 2008

Le monde des religions; L'Inquisition,

Mondereligionsinquisição.jpg

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junho 08, 2008

De Oseias, da compaixão, porque hoje é domingo

...a excelente crónica dominical de frei bento domingues no jornal Público.

Uma revolução traída?

08.06.2008, Frei Bento Domingues O.P.


O "código da santidade" gera uma sociedade discriminatória. O "código da compaixão" gera uma sociedade inclusiva


1.De que revolução e de que traição se pretende falar? Talvez se possa dizer em duas palavras: Jesus era um judeu - talvez um "judeu marginal"(1) - que preferiu seguir, sem condições, o "código da compaixão" (Mt 9, 9-13) em vez do "código da santidade" (Lv 17 - 26). É o ponto de vista de José António Pagola (2).
As Igrejas cristãs, de formas bastante diferentes, acabam, na prática, por confessar que talvez não seja muito possível, neste ponto, seguir Jesus de Nazaré, sem perigo de autodestruição. Por outro lado, não podem riscar dos seus textos fundadores os testemunhos, mesmo os mais gritantes, dessa revolução. Mais ainda: sentem-se obrigadas a proclamá-los, sem rodeios, na sua própria liturgia, como acontece, na Igreja católica, na celebração deste domingo. Importa, antes de mais, compreender em que consistiu essa revolução.
Nas camadas mais baixas da Galileia do tempo de Jesus, abundavam os indesejáveis: os que não conseguiam sair da sua condição de indignidade, os pobres de pedir e as prostitutas. Estas, para sobreviver, tinham de renunciar à sua honra de mulheres.
Esta situação era mantida e alargada pelo sistema de pureza vigente, que acentuava as discriminações na sociedade a que Jesus pertencia. Desde a invasão da cultura helénica, impulsionada por Alexandre Magno, aquele pequeno povo viu-se obrigado a defender, com todas as suas forças, a sua identidade ameaçada. Para sobreviver era preciso reafirmar a sua adesão incondicional à Lei, ao Templo, ao respeito do Sábado - sinal de identidade de Israel no meio dos povos - e a promover uma política de separação dos gentios e dos impuros. Para isso, era fundamental o cumprimento do "código de santidade", uma estratégia de separação do puro e do impuro, do santo e do pecador: "Sede santos porque Eu sou santo".
Este sistema de pureza ritual teve como resultado, talvez inesperado, o endurecimento das diferenças e discriminações dentro do próprio povo. Por nascimento, os sacerdotes e levitas gozavam de uma santidade superior; os que observavam o "código de santidade" gozavam de maior dignidade do que aqueles que viviam em contacto com os gentios ou que, como os publicanos e prostitutas, exerciam profissões que implicavam, de facto, uma permanente transgressão desse código. E, depois, vem o mundo dos leprosos, eunucos, cegos, coxos, doentes e mulheres, suspeitas sempre de impureza pela sua menstruação e partos. Estes são os impuros, afastados do Deus Santo e do Templo. A própria vida impedia a maioria de cumprir as normas de pureza e as purificações rituais. A sua exclusão do Templo parecia mostrar que era o próprio Deus que os afastava, não suportando a sua proximidade.

2.Jesus não via as coisas assim. Perante o proclamado "código de santidade" - "sede santos porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" - Ele introduz outra exigência que transforma, de forma radical, o modo de entender e viver a "imitação" de Deus, e propõe: "Sede misericordiosos (compassivos) como o vosso Pai é misericordioso (compassivo)". Jesus podia reclamar-se da tradição profética: "Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos" (Oseias 6, 3-6).
Jesus não nega a "santidade" de Deus, mas o que qualifica essa santidade não é a separação do impuro, mas o seu amor compassivo. Deus é grande e santo, não porque vive separado dos impuros, mas porque é compassivo com todos e "faz brilhar o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos" (Mt 5, 45).
Jesus faz uma verdadeira revolução: o "código da santidade" gera uma sociedade discriminatória; o "código da compaixão" gera, pelo contrário, uma sociedade acolhedora e inclusiva, mesmo dos sectores sem honra e respeitabilidade. A grande acusação que se repete contra Jesus não é apenas a de ser amigo de publicanos e pecadores, mas de partilhar a mesa com eles, o grau maior de proximidade e de mútua inclusão. E não só: de incluir no seu grupo um publicano (Mateus). O texto da Missa de hoje não pode ser mais claro.
Os pecadores eram os que recusavam a Aliança com Deus, desobedecendo à sua Lei. Eram os que profanavam o culto, desprezavam o grande dia da Expiação, assim como os delinquentes, os que colaboravam com Roma na opressão do povo judaico, os usurários, as prostitutas, etc. Se Jesus tivesse acolhido à sua mesa os pecadores para lhes pregar o retorno a Lei, conseguindo que publicanos e prostitutas abandonassem a sua vida de pecado, até poderia ser aplaudido. A surpresa, donde nasce a acusação, é esta: Jesus acolhe os pecadores sem lhes exigir, previamente, o arrependimento, tal como era entendido tradicionalmente, e nem os submete a um rito penitencial, como fazia João Baptista. Oferece-lhes a sua comunhão e amizade como sinal de que Deus os acolhe no seu Reino, ainda antes de terem voltado a prática da Lei e de se integrarem na Aliança. Acolhe-os como eles são, pecadores, confiando totalmente que o Deus de misericórdia os procura e transforma com o seu Amor se não o recusarem.
Será que as leis e regulamentos litúrgicos actuais da Igreja católica testemunham o amor gratuito e o acolhimento incondicional de Deus?
1) John P .Meier, Jesus. A Marginal Jew, Nova Iorque, 2001
2) Jesus, Aproximación histórica, PPC, Madrid; 2001

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junho 01, 2008

Peixe fresco...

... sermão de S.ºAntónio, sg/ A.Borges

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maio 22, 2008

Fides

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"A fé é, primeiro um dom de Deus. Ter fé é sentir no mais profundo do seu coração, uma impressão durável e perturbadora que só pode ser comparada com o amor, que o Amor na sua perfeição e a sua quinta-essência. «É o coração que sente Deus e não a razão», dizia Pascal. Se é verdade que nas ciências saber é também procurar, quanto mais na fé, onde a diferença é imensa entre o domínio do que é conhecido e do que é desconhecido e que só é pressentido pelo amor através das sombras. Este claro-escuro convida a uma investigação que não tem fim."

Encontra-se este impulso em todas as religiões, de todas as épocas. Se este sentimento religioso se torna insípido, pde ficar a «carcaça»: dogmas, imagens, recordações, tradições. Eles ajudam na «travessia do deserto» , ou nas «noites do espiírito» descritas pelos místicos. Mas isso não é suficiente. Aquele que sente a sede de Deus quer mais.

(Jean Guitton, "O livro da sabedoria e das virtudes reencontradas". Noticias Editorial, pag.114)

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maio 18, 2008

Chora-se longamente em terras de...

... primos bíblicos, judeus e palestinos na reflexão dominical de B. Domingues, O.p.

"A única coisa que exige uma vida inteira de aprendizagem é a atenção aos outros e a faculdade de perguntar ao próximo: o que é que te faz sofrer tanto?"

O ex-patriarca latino de Jerusalém

18.05.2008, Frei Bento Domingues

Israel encontra-se numa encruzilhada: não reconhecer um Estado palestino poderá ser "o fim do Estado judaico"

1. Ao fazer 75 anos, o patriarca latino de Jerusalém, Michel Sabbah - uma personalidade absolutamente invulgar - apresentou, como é de regra nessa idade, a sua demissão ao Papa Bento XVI. Ao despedir-se, deixou aos cristãos uma notável Carta Pastoral de balanço e de esperança (1).
Este bispo é um árabe palestino. Nasceu em Nazaré, em 1933. Durante a guerra de 1948, encontrava-se, ainda como seminarista, do lado palestino-jordano, onde permaneceu vinte anos. Só pôde visitar a sua família uma vez. Na guerra de 1967, foi retido em Jerusalém inteiramente ocupada. Ordenado presbítero em 1955, exerceu o seu ministério na Jordânia, em Jerusalém e, em 1968, durante algum tempo, em Djibouti. Em 1970, pároco de Amã, capital da Jordânia, viu desenrolar-se o Setembro negro contra os palestinos. Dez anos mais tarde, foi-lhe confiada a presidência da Universidade de Belém. Em 1987, foi nomeado patriarca latino de Jerusalém. Era a primeira vez, desde a restauração da sede deste patriarcado em 1847, que um árabe assumia esta responsabilidade.
Fala correntemente árabe, hebreu e cinco línguas ocidentais. Doutorou-se em Filologia, na Sorbonne. Alguns, bloqueados por uma visão maniqueísta, quiseram arrumá-lo no campo dos ferozes opositores ao Estado de Israel. Mas manteve-se fiel ao que lera, do profeta Isaías, na Liturgia das Horas, no próprio dia em que soube da sua nomeação para patriarca, a 7 de Dezembro de 1987: "A paz será o fruto da justiça (...) o meu povo viverá na beleza da paz."
Michel Sabbah nunca apoiou, mesmo nos momentos mais dilacerantes, a violência armada de nenhum dos campos. Procurava situar-se unicamente no seu papel de pastor de uma Igreja, de um povo e de uma terra. Como ele dizia, "o patriarca não é um homem político. Para exigir justiça e o fim da ocupação militar, só lhe resta a oração e a palavra" e, por isso, sem outros meios, sempre gritou contra a violência e a injustiça.

2.Este bispo deixa a função de patriarca latino de Jerusalém quando Israel celebra 60 anos da sua fundação e de espectaculares realizações em vários domínios. No entanto, como escreveu, no PÚBLICO (09.05.2008), o historiador israelita Benny Morris, Israel "é um lugar triste". Os seus judeus já começaram a perder a esperança de que este conflito, de cem anos, com o mundo árabe muçulmano, possa vir a terminar, isto é, perderam a esperança de que Israel seja aceite como uma presença legítima do Médio Oriente. Por isso, paradoxalmente, Israel continuará a ser "um dos lugares menos seguros para os judeus".
Para o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel e, agora, vice-presidente do Centro Internacional de Toledo para a Paz, Shlomo Ben-Ami (El País, 11.05.2008), Israel encontra-se numa encruzilhada: não reconhecer um Estado palestino poderá ser "o fim do Estado judaico". Além disso, passados 60 anos, continuam a existir, no interior de Israel, tremendas fracturas entre laicos e religiosos, judeus e árabes, pobres e ricos, o centro e a periferia que podem terminar numa explosão violenta. A sociedade está fragmentada, num tenso mosaico multiétnico, composto por judeus e por uma importante minoria árabe rejeitada; por uma prolífera comunidade ultra-ortodoxa, que vive de subsídios estatais, e nacionalistas religiosos, que defendem uma corrente messiânica do sionismo; por uma imigração russa de qualidade e uma comunidade etíope marginalizada; por judeus orientais que continuam a lutar por se incorporar na classe média e askenazies acomodados; por um centro rico e uma periferia pobre.
Israel tem, por isso, de resolver perigosos desequilíbrios na sua estrutura social. E por muito criativa que possa ser a sua economia, os gastos militares estão a afectar gravemente os investimentos do país na educação e na investigação científica.
Shlomo Ben-Ami tenta mostrar por que razão o conflito palestino-israelita é total e absoluto. Não se trata só de um enfrentamento por causa de terras nem de uma disputa fronteiriça qualquer. É um choque de direitos e de recordações. O amor às mesmas paisagens, as reivindicações mutuamente excludentes sobre terras, lugares, símbolos religiosos e o espírito de espoliação, que as duas partes pretendem monopolizar, faz com que as suas narrativas sejam, praticamente, irreconciliáveis. É, além disso, uma guerra de imagens contrastadas e diabolizadas, uma luta entre duas mitologias nacionalistas que reclamam o monopólio da justiça e do martírio. A história dos desastres judaicos e a instrumentalização que deles fez o sionismo é uma lição que os palestinos absorveram com rapidez: expulsão, exílio, diáspora, holocausto, regresso, genocídio, são palavras-chave, de judeus e israelitas, que se converteram em parte fundamental do espírito nacional palestino.
Ao lembrar o exemplo do ex-patriarca Sabbah, recordo as palavras de Simone Weil, a judia de muitas fronteiras: "A única coisa que exige uma vida inteira de aprendizagem é a atenção aos outros e a faculdade de perguntar ao próximo: o que é que te faz sofrer tanto?"
(1) Prendre le risque de la paix en Terre sainte, in La Documentation Catholique, n.° 2401 (4.05.2008).

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maio 17, 2008

Deus, moral, cérebro... sugiro

... partilho a reflexão sempre estimulante de A. Borges.


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maio 04, 2008

Porque hoje é domingo... da Ascensão.

... como o meu saber continua a ser infimo sobre estas coisas da religião e da espiritualidade, como continuamente sinto o ímpeto de uma busca sem fim definido, valho-me de outros saberes e sentires. Desta forma são sempre enriquecedoras as reflexões dominicais de frei bento domingues o.p. Segue em entrada estendida o seu discorrer sobre ciência e religião, conquistas e limites daquela, sentido, necessidade desta. E, fala-nos também desse suposto mistério que é a ascensão de Cristo para algures não se saberá onde...

Subir aos céus
Frei Bento Domingues O.P. – 2008/05/04(público)

A linguagem das transformações espirituais da existência não se lê nem se interpreta com um dicionário.
1.
O biólogo Francisco José Ayala, membro da Academia Nacional da Ciência dos EUA, tem dedicado a sua vida ao estudo da evolução. Para ele, religião e ciência não são inimigas.
Ao apresentar, em Espanha, o seu último livro (1), o jornal El Mundo fez-lhe algumas perguntas. As suas respostas interessam.
A primeira pergunta é daquelas que aparecem sempre nestas circunstâncias: será possível conciliar religião e ciência?
A resposta também já se tornou um lugar-comum entre os que não gostam de cultivar confusões: religião e ciência tratam de coisas distintas.
Perante o debate público, que irrompeu nos EUA em 1991, sobre o chamado "Desígnio Inteligente" (2), F. Ayala não se contenta em dizer que são coisas distintas. Para ele, os que propõem o "Desígnio Inteligente" são, precisamente, os que vão contra Deus porque procuram usar a ciência para demonstrar a sua existência. Além disso, se essa teoria estivesse certa, seria uma blasfémia. Implicaria que Deus é incompetente porque desenha mal as coisas e, por outro lado, é cruel, pois cria predadores.
Por exemplo, o nosso olho é mais deficiente do que o dos polvos. Será que Deus tem mais apreço pelos polvos do que pelos humanos?

Quando lhe perguntam se há cientistas crentes, responde que isso não é incompatível. Um Deus pessoal, como nas religiões monoteístas, está presente em todos os indivíduos. Isso não significa que nos desenha, mas que nos inspira valores morais.
Há uma escola de teologia evolutiva que sustenta que a presença de Deus também evolui.
O entrevistador insiste: não terá a religião surgido como resposta a enigmas sem resposta que a ciência vai solucionando?
Para F. Ayala, a religião nasce de uma necessidade biológica dos humanos, pela consciência da existência e pela consciência de que vamos morrer. Há uma inclinação para a angústia e isso leva ao enterro dos mortos e à necessidade de acreditar em algo transcendental, comoDeus. Nasce também como resposta aos enigmas da vida que se vão resolvendo e, sob esse aspecto, o papel da religião vai diminuindo.
A ciência, porém, não é solução para o problema existencial e é este que nos faz crer na vida do além.

A vida do além implica a existência de uma alma imortal?
Resposta do biólogo: a ciência não pode responder. Isso é algo espiritual e a ciência fala de processos naturais. Aliás, sobre a mente, sabemos que o cérebro existe, como comunicam os neurónios, mas não como se convertem esses sinais eléctricos em ideias e sentimentos, nem como chegamos a ter consciência pessoal. Não quero, por essa razão, fixar a ideia de alma na mente.
O entrevistador veio logo com uma resposta: a religião diz que a existência tem um sentido e a ciência diz que a evolução foi fruto de adaptações e mutações. O biólogo acrescenta: sim, houve mutações. No entanto, a evolução não é fruto do azar, mas da selecção natural. Somos uma espécie entre milhões. Todavia, a ciência não nos diz para onde vamos.
A religião dá sentido à vida.

2.
Se a religião dá sentido à vida, as expressões desse sentido serão plurais. As religiões são diferentes. Aqui, interessa-me destacar um dos aspectos que a convicção cristã assume neste Domingo da Ascensão de Cristo aos Céus. Se a abordagem da fé não é a da ciência, é de boa higiene mental partir do princípio de que não estamos a falar de um lugar nem das vias de acesso a esse espaço que pudesse ser observado e descrito por qualquer ciência ou técnica, como se Jesus fosse um dos precursores dos astronautas. Basta de representações ridículas da fé. Na pregação, na catequese e na teologia, temos de reflectir sobre a linguagem que a Bíblia e o Credo cristão usam. As "leis" da linguagem simbólica, metafórica, parabólica, poética e narrativa existem para sugerir, dão que pensar, mas não obedecem a uma ligação circunscrita entre os significantes e os significados. Esse tipo de explicações mata a música da linguagem e não dá conta das transformações a que ela convida. A linguagem das transformações espirituais da existência não se lê nem se interpreta com um dicionário.

3.A Ascensão é a linguagem da fuga à manipulação política de Cristo pelas Igrejas. Jesus tinha vencido essas tentações, mas nunca estarão definitivamente resolvidas. Os Actos dos Apóstolos, a primeira história da Igreja, começam por essas permanentes ambições dos discípulos: "Senhor, será agora que ides restaurar a realeza em Israel?" (Act 1, 6). Cristo parece cansado com essa pergunta recorrente. Dissera tantas vezes que não veio ao Mundo para mandar, mas para servir a esperança e a transformação da vida e eles sempre na mesma... Agora, confessa que só o Espírito de Deus lhes poderá dar a volta e é o único dom que ele tem para a Igreja.

É também recorrente a pergunta: onde estarão as pessoas que amamos e morreram? Não aconselho ninguém a ir ao cemitério. Creio que estão no coração de Deus, a casa definitiva de todos. Se me perguntam onde é e como é, atrevia-me a dizer que é tão grande como o amor de Deus, tão invisível e presente como Ele. Não procuro outro Céu.

(1) Darwin y el Diseño Inteligente, Alianza, 2008.
(2) Sobre o debate sobre o "Desígnio Inteligente", cf. Francis S. Collins, A Linguagem de Deus, Lisboa, Presença, 2007

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maio 03, 2008

Paulo de Tarso na reflexão de A,Borges

O artigo de A.Borges, dá algumas indicações sobre o famoso São Paulo, que paralelamente ao esforço de proselitismo cristão - famosa a sua conversão a caminho de Damasco - ficou conhecido por supostas posições misóginas que pelo que A. Borges nos diz, não correspondem à verdade. Penitencio-me da minha ignorância... que seja motivação para conhecimento mais crítico seja sobre que assunto for.

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abril 27, 2008

Lembrar Cristo para quê? ...

A reflexão dominical de Bento Domingues. Um cristianismo de esperança e de acção, intervindo em situações como a que actualmente se revela explosiva: a carência de alimentos. Em extensão à reflexão de Bento Domingues, sugiro a leitura de dossier sobre a questão alimentar, igualmente desenvolvida no jornal Público de hoje. Bom domingo!

Democratizar a teologia

Frei Bento Domingues – 20080427(In Público)

No campo da teologia, a modéstia é de regra. A arrogância teológica é a própria negação do trabalho teológico

1-

Quando escrevi o texto publicado no passado domingo, ainda era cedo para falar da viagem do Papa aos EUA e à ONU. Agora, sinto-me dispensado de voltar a esse tema. Os meios de comunicação foram abundantes na cobertura do acontecimento e, no geral, realçaram o êxito das intervenções do bispo de Roma. Terá, no entanto, resultados indesejáveis se as comunidades católicas continuarem a reduzir o seu horizonte ao que faz, diz e deixa de fazer e de dizer Bento XVI. Mesmo sem o desejar, acabam por se desresponsabilizar, depositando, no Papa, todas as esperanças e decepções.

O culto da personalidade vive dessa preguiça. Ainda há bem poucos anos, era inimaginável um Papa melhor do que João Paulo II. Qualquer discordância era vista como uma infidelidade à Igreja. Neste momento, não se perde nenhuma ocasião para exaltar o Papa teólogo e receber, como palavra divina, tudo quanto sai da sua boca ou da sua pena. Já não é suficiente que seja um bom teólogo, com uma boa carreira académica, entre muitos outros bons teólogos e académicos de várias correntes. A propaganda tenta fazer dele o teólogo, o único, no meio do deserto.

2 –

Na missa do domingo passado, S. Pedro, na sua Primeira Carta, procurou democratizar o sacerdócio, a realeza e a profecia. Hoje, e na mesma carta, tenta democratizar a teologia: "Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede. Fazei-o, porém, com brandura e respeito." E, no caso de os cristãos serem perseguidos, que isso aconteça por fazerem o bem, não por fazerem o mal.

O imperativo, "estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança", significa que a prática teológica, exigida a todos, não pode ser substituída por um corpo de especialistas, por mais indispensáveis que eles sejam. É normal que qualquer grupo religioso procure aprofundar a sua identidade, mostrando o que tem de específico, aquilo que o distingue dos outros. Quem tentasse eliminar todas as diferenças, para evitar conflitos, facilitar o bom entendimento e o convívio entre todos, acabaria numa ditadura.
Neste momento, vive-se uma situação paradoxal: por um lado, exalta-se o pluralismo religioso e, por outro, afirma-se, com insistência, que as religiões são todas a mesma coisa, são todas equivalentes. Deus, se existe, é só um e não vale a pena andar a esforçar-se por mostrar concepções diferentes acerca do que se sabe muito pouco. Quando se afirma o pluralismo religioso, talvez se procure defender as minorias para não serem esmagadas pela maioria e enterrar de vez a intolerância e as guerras de religião. Quem diz que, afinal, as religiões são todas a mesma coisa não sabe muito de nenhuma.
A ignorância pode ser ou não atrevida. O ignorante pode desejar conhecer, escolhendo métodos adequados para a descoberta. Mas pode, também, ficar por leituras avulsas que alimentam alguma curiosidade para conversas de circunstância, aumentando o número de pretensiosos pseudo-eruditos.

3 –

Quando S. Pedro exorta os cristãos a estarem prontos a dar razão da sua esperança, não pretende formar comunidades de tagarelas, mas comunidades estudiosas e actualizadas. Ora, o estudo supõe informação rigorosa e "veemente aplicação da inteligência", como diz S. Tomás de Aquino. No campo da teologia, a modéstia é de regra. A arrogância teológica é a própria negação do trabalho teológico. De Deus tanto mais saberemos quanto mais nos apercebermos que excede tudo o que dele pensamos saber. Daí a importância da chamada "teologia negativa". Ela não permite repouso em nenhuma afirmação.

Qual será, então, a essência da esperança cristã e que razões teremos para esperar, mesmo contra toda a esperança?

No coração da própria Eucaristia ecoa sempre uma voz: "Fazei isto em memória de mim." Mas que memória é essa? Estará Jesus Cristo a desejar que os cristãos estejam sempre a lembrar-se dos seus inimigos, daqueles que o crucificaram, difundindo, através dos séculos, o ressentimento e esperando o momento exacto para a vingança? Teria Jesus algo a ver com a ira de Iavé, com o Deus dos exércitos que espalha o terror e o sangue?

Quem assim pensou ou pensa não está a evocar a memória de Jesus Cristo, mas a de um anticristo qualquer. Se os cristãos não podem deixar de pregar o crucificado, é, precisamente, por causa do que, há dois mil anos, aconteceu na Cruz e que constitui, para sempre, a essência da fé cristã e a raiz da esperança num mundo radicalmente diferente.

Jesus, na Cruz, o condenado à morte, abandonado de tudo e de todos, não pediu que a ira do Deus dos exércitos se abatesse sobre os seus inimigos: "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem." O Deus que invocou é o Deus do amor misericordioso, do perdão que abre o futuro, mesmo aos inimigos.
A razão da esperança cristã está na insubstituível Árvore da Cruz, fonte de ressurreição de vivos e mortos. A memória cristã é o remédio actual contra o ressentimento e o ódio. Viver no horizonte da esperança cristã é saber que fora do perdão e da reconciliação não há salvação nem para as pessoas nem para os povos.

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abril 26, 2008

...jovens almas assexuadas e censuradas...

Há muito tempo que em termos pessoais e entre amigos insisto no mesmo: a Igreja Católica "teima" na teimosia... faltam vocações, faltam pastores/padres. Eu próprio que nos idos anos 60/70, andei no seminário, abandonei porque fundamentalmente a sexualidade me era negada. Não ponho a questão do casamento ou não casamento - entre os leigos quem quer casar casa ou não - coloco a questão na liberdade de expressar a muito humana sexualidade, sem vergonhas.
Com igual destaque, a I.Católica comete, nas suas teimosias que já chateiam, o erro de impedir a participação plena das mulheres, quando estas são e estão em maior número em fé e em práctica religiosa. Enfim!

Em entrada estendida um artigo sobre esta temática.

mercado das almas...

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abril 20, 2008

...um Cristo por aí clandestino...

... porque não somos cristãos, ou mesmo, religiosos? Que fazemos do mistério, aqueles que não se assumem ateus? Respondemos com a distração da vida à monotonia da crença e da rotina do crente de domingos habituais?
Porque hoje é domingo, a reflexão de Bento Domingues...

domingo, 20 de Abril de 2008 (público de 20 de Abril de 2008)
Deus ainda anda por aí


Todos os baptizados são "sacerdotes, reis e profetas", isto é, todos são Igreja

1.É com este título descontraído que o filósofo italiano G. Vattimo - expoente do pensamento débil e da interpretação da pós-modernidade - encerra um longo e interessantíssimo diálogo sobre O Futuro da Religião (1). Verifica que esta não morreu. Pelas minhas contas, continuará a ver morrer quem tenta fazer-lhe um funeral precipitado. Manifesta-se, agora, muito activa na corrida à Casa Branca, não só no Partido Republicano, mas também na disputa entre os dois candidatos democratas. Segundo as estatísticas, a grande maioria dos norte-americanos nunca escolheria um presidente ateu, embora alguns julguem exagerado que George W. Bush veja Deus, quando olha para o Papa. Foi pena que o não tivesse visto, quando João Paulo II tudo fez para evitar a guerra no Iraque.
No momento em que escrevo, ainda não posso comentar a visita de Bento XVI aos EUA e a sua programada intervenção na ONU. O Papa manifestou, à partida, um grande respeito por uma sociedade muito pluralista e pluralista também no plano religioso. Não é por acaso que tem encontro marcado com 220 representantes de várias religiões.
É uma vergonha ver o catolicismo associado ao escândalo dos padres pedófilos, embora seja de estranhar que essa aberração tenha sido silenciada acerca de guias de outras religiões. De qualquer forma, o Papa, ao partir para os EUA, ia disposto a nada silenciar, mesmo a responsabilidade da hierarquia católica.

2.Seja como for, G. Vattimo - aliás, a principal figura convidada para as Jornadas de Teologia da UCP no Porto (3-6 Março, pp) - tem a impressão de que, actualmente, o cristianismo é odiado por causa dos padres. Dou-lhe a palavra, embora não goste de "predicação" nem de "prédica", habituado, como estou, a dizer "pregação".
"Não encontro", diz ele, "nenhuma explicação para o facto de que alguém não aceite a predicação de uma religião de amor, caridade, pathos e misericórdia. É este o mistério do primeiro capítulo do Evangelho de João: os seus não o acolheram. Mas por que será tão difícil a prédica do cristianismo? Acho que a culpa é da Igreja; não simplesmente por causa da riqueza do Papa ou da corrupção dos padres pedófilos nas igrejas americanas, mas por causa da força excessiva da sua estrutura. (...) Quando falamos do futuro da religião, coloco-me também uma outra pergunta: qual o futuro da Igreja, da sua estrutura visível, disciplinar e dogmática? Sou censurado por muita gente por falar ainda de cristianismo em vez de outra coisa, mas o que recebi da Igreja, da tradição, dos textos, é o cristianismo... Deste modo, devo sempre supor que exista algo de objectivo porque me refiro à religião da maneira com que nos referimos a todas as outras coisas. Esta é a pergunta principal: o que é que posso esperar como crente, como um crente que se predispõe a acreditar, daquele aspecto da vida social e individual que é a religião?"
Nesse diálogo, R. Rorty, um revitalizador da filosofia pragmática norte-americana, sustenta que uma solução válida para todos é sair da velha igreja e fundar uma nova. Refere que Harold Bloom escreveu um bom livro, no qual fala dos mórmons, dos cientistas cristãos, e dos baptistas do Sul, concluindo com a grande tradição americana: "Se não gostas das igrejas existentes, funda uma nova." O mote desse livro é o seguinte: nenhum americano acredita ser mais jovem do que Deus.
Para G. Vattimo, a posição de Rorty tem a ver, novamente, com a relação entre instituição e liberdade (2).

3.Apesar da vontade compulsiva que alguns podem ter de fundar novas igrejas, eu acredito noutro caminho, o da conversão das igrejas e das religiões, afastando o que, nelas, impede o essencial. O Vaticano II, em relação ao catolicismo, insistiu na "hierarquia das verdades". As convicções católicas não têm todas o mesmo valor. Nesse aspecto, o chamado "pensamento débil" tem uma função importante: sorrir diante do ateísmo militante, do fanatismo religioso, de toda a rigidez. É preciso encontrar formas mais descontraídas de conversar sobre o que é essencial, sem ter à perna anátemas em nome da ciência ou da religião.
Os textos da celebração da Eucaristia de hoje dão, a este respeito, preciosas indicações. Perante a necessidade de neutralizar a acepção de pessoas e grupos, no interior das primeiras comunidades, os apóstolos criaram novos serviços de atendimento, o diaconado. Os diáconos, por sua vez, para não caírem na burocracia eclesiástica, entregaram-se à criatividade do Espírito Santo. Por outro lado, é-nos revelado que uma comunidade deve estar, sobretudo, preocupada com a qualidade cristã dos seus membros. E que esta exige bons padres e bispos. Todos os baptizados são "sacerdotes, reis e profetas", isto é, todos são Igreja e responsáveis pela encarnação da Palavra na humanização do mundo. Acreditamos que Jesus Cristo anda por aí, clandestino, a abrir caminhos de verdade e vida, dentro e fora da Igreja, para tornar possível outro futuro, através da criatividade humana.

(1) Richard Rorty e Gianni Vattimo (org. Santiago Zabala), O Futuro da Religião, Coimbra, Angelus Novus, 2007.
(2) Cf. op. cit., p. 86-89.



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abril 05, 2008

..."bestia cupidissima rerum novarum"...

Do Homem, do transcendente, do transcender, na reflexão sempre enriquecedora de A.Borges

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março 30, 2008

Ser como S.Tomé...ou não. Sugiro

... para uma reflexão dominical, acompanhando Frei Bento Domingues.
(in jornal o Público, secção "Opinião" de 30 de Março)

Tomé, o incrédulo

30.03.2008, Frei Bento Domingues


Diante da morte de tudo, a pergunta pelo sentido da vida e da história não é desumana

1.De todas as personagens da Páscoa, S. Tomé foi a que conseguiu uma posteridade mais sólida. Os desconfiados, os cépticos e até os incrédulos elegeram-no sempre como seu padroeiro: "Eu, cá, sou como S. Tomé, só creio naquilo que vejo." Este pessimista irónico - que nada tem a ver com o Tomé dos evangelhos gnósticos - é uma criação do autor do Evangelho atribuído a S. João, exímio na arte de dizer o mesmo e o seu contrário para sugerir sempre outra coisa (Jo 11; 13; 20).
A ressurreição de Cristo não é o prolongamento, puro e simples, da identidade do Jesus histórico. Para significar que é o mesmo, o autor atribui ao Ressuscitado uma visibilidade e um comportamento que não parecem diferentes do tempo que vivia, comia e bebia com os discípulos. Para significar que é diferente, aparece no meio deles, ora irreconhecível, ora até com as portas e janelas fechadas...
Ainda antes de Tomé, Maria Madalena, a mulher das lágrimas e a grande figura do feminismo cristão, surge-nos também através dessa estranha arte literária. No primeiro dia da semana, foi ao túmulo fazer os rituais, que eram proibidos ao sábado, e encontrou um quadro surpreendente que a interroga: "Mulher, por que choras?" Ela só sabe dizer: "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram."
Voltou-se e é o próprio Jesus que lhe pergunta: "Mulher, por que choras? A quem procuras?" Pensando que era o jardineiro, implora: "Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste e eu irei buscá-lo." Vê e não vê. Só quando Jesus a trata pelo seu nome: "Maria!", encontra, com outros olhos, o seu Mestre de sempre que, em hebraico, se diz: "Rabbuni."
Diz o Evangelho que, neste cenário, eles não se puderam abraçar - "não me retenhas" - e foi investida da grande missão: "Vai anunciar aos discípulos: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus." Maria Madalena, transformada em testemunha do Evangelho, surpreende-os: "Vi o Senhor!", e conta tudo o que lhe aconteceu.
A fé na ressurreição não é fruto das nossas investigações, embora aconteça no interior da nossa perplexidade e desejo: é pura graça e iniciativa do Ressuscitado. É dele que vem um outro olhar sobre a realidade.

2.A posteridade e a actualidade de S. Tomé parecem, em parte, ilusórias. Ficam a meio caminho. É seguido facilmente por quem é repentino em suspeitar e negar, por quem está sempre de pé atrás perante qualquer novidade. Essa atitude não respeita, porém, o lento amadurecer até à hora da iluminação que traz consigo infinitamente mais do que todas as provas que pareciam indispensáveis. É, todavia, disto que o texto fala. Quando o misterioso Ressuscitado diz a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e vê as minhas mãos! Estende a tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas acredita!", este cai rendido: "Meu senhor e meu Deus!" Não precisa de mais nada.
Acontece, depois, algo de insólito, despropositado, contraditório. O evangelista coloca na boca de Jesus uma declaração aparentemente obscurantista, o elogio de uma fé cega: "Porque viste, acreditaste. Felizes os que não viram e acreditaram" (Jo 20, 19-28). Por que terá sido?
Sou levado a pensar que existe, aqui, um aviso aos eternos nostálgicos da Igreja dos começos, daquelas comunidades onde brilhavam os fundadores do movimento cristão e se multiplicavam as aparições e visões do Ressuscitado, como refere, aliás, o próprio S. Paulo (1 Cor 15, 4-8). Quando o autor do IV Evangelho escreve, já está longe das primeiras gerações compostas por judeo-cristãos e nós, muito longe do regime sacral da natureza.

3."Eu, cá, sou como São Tomé"... assume, agora, novas expressões. A Universidade de Oxford converteu-se, nos últimos anos, num campo de batalha intelectual entre os que defendem a compatibilidade entre ciência e religião e os que a negam. Entre os que a negam, tornou-se sobretudo conhecido Richard Dawkins, zoólogo e ateu militante. Entre os que a defendem, destaca-se um convertido, Alister McGranth, biofísico molecular e teólogo. São ambos professores em Oxford. A Fundação John Templeton, norte-americana, especializada em apoiar estudos sobre as relações entre razão e fé, resolveu oferecer ao Centro Ian Ramsay, satélite da Faculdade de Teologia, dois milhões e meio de euros. Esta pequena fortuna destina-se a apoiar projectos de investigação, durante três anos, que façam mais luz sobre a forma como as nossas estruturas cognitivas e as nossas crenças se relacionam.
Não se antecipem resultados para não se acrescentar ao ópio da religião o ópio da ilusão científica. Não cabe à investigação prometer o que não sabe, mas demonstrar. Por outro lado, a razão científica não é a medida de toda a realidade. As motivações afectivas, estéticas e vivenciais têm razões que só a "razão cordial" pode conhecer. Nem todos os seres humanos se sentem felizes, instalados apenas na finitude que desautoriza o desejo. Diante da morte de tudo, a pergunta pelo sentido da vida e da história não é desumana. Se é legítimo procurar Deus, não fica mal a Deus procurar os seres humanos, quando toda a esperança parece perdida.

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março 29, 2008

Pecar, reconjugar o verbo...

Oh God, make me good, but not yet!

...como habitualmente, ao sábado, acompanho a reflexão de A. Borges... a partilhar também.

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março 22, 2008

Pesah...

círio.jpg

Era aquele tempo de coisas certas e habituais
Moldado em rotina a
Que o Sagrado erguia véu
Os dias eram os que eram
Com tarefas lineares ortodoxas
Nós aqui as coisa ali
E Deus lá em cima por todos
Vigiava
Era aquele tempo de coisas certas
Havia o nascer do sol o meio-dia
O sino pachorrento
As cegonhas voando voos de absoluta normalidade
Eu estava por ali e Deus lá em cima
E as estações sorriam mesmo que fosse o Inverno
E tudo podia assim continuar saudade tenho
As festas apareciam nos momentos certos
E era Natal e era a Santa Semana e a Páscoa
A infindável narrativa da morte
Mas era tudo cheio de uma crença inocente
Que fazia olhar para a Via-Sacra como
A estrada por excelência
Cujo cumprimento nos dava um descanso
De alma e de consciência
Repouso inolvidável em longas noites sossegadas
Era aquele o tempo de coisas certas
A alegria dos ramos de oliveira
O pesar aparente pela agonia de Cristo
A luz inesquecível do círio pascal
Em sábado de aleluia
Hoje afinal
Depois amanhã era será a Páscoa
Havia foguetes e amêndoas atiradas aos putos
E a sobrepeliz do Prior que suava as caminhadas
Obrigatórias da sua profissão
Beijar-se-á o crucifixo em insistência
Quando o que se via era Cristo ressuscitado
E eram assim aqueles tempos habituais e certos
Amanhã será tempo também
Só que sem a certeza do habitual
Eu aqui e Deus em Infinito nenhures
Um sossego quebrado em buscas infrutíferas
Na alegria teatral de uma amêndoa doce
Atirada ainda
Em simultâneo gesto rasgado
De um crucifixo em aleluia
Entoado por um sino pachorrento
Era assim
Eu aqui e algo algures ali
Eu e os tempos
Os hábitos
As certezas
As coisas…

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março 21, 2008

Cristianismo com humor...

... se algo devemos privilegiar e defender será esta liberdade de expressão que se traduz em...

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março 16, 2008

Domingo de Ramos...

Em complemento poderá ler a habitual reflexão de Bento Domingues...

Fora do amor não há salvação

16.03.2008, Frei Bento Domingues, OP


O que mais importa, na Semana Santa, é confrontar a nossa vida com esse processo e fonte de amor infinito


1Repetiu-se, durante séculos de cristandade - embora com significações diferentes - que "fora da Igreja não há salvação". De forma oficial, esta afirmação deicida só foi desautorizada duas vezes antes do Vaticano II. Hoje, a salvação foi substituída pela globalização do império do dinheiro. Prefiro uma sabedoria mais antiga: fora da vida como dom faremos sempre, deste mundo, um inferno. Ao contrário das aparências, a celebração da Semana Santa não está só preocupada com o processo de Jesus, que nunca poderá ser ignorado. O que mais importa, no entanto, é confrontar a nossa vida com esse processo e fonte de amor infinito.
Sejam quais forem as interpretações que se possam fazer acerca da sua personalidade, ninguém se atreve a negar a existência histórica de Jesus de Nazaré, como já foi moda. Nos últimos trinta anos, a convicção de que se pode reconstruir uma imagem histórica de Jesus sai cada vez mais reforçada e documentada.
Nasceu, provavelmente, entre os anos 6 e 4, antes da era comum. Falava o dialecto da sua região, o aramaico da Galileia. Frequentava a Sinagoga e sabia ler textos bíblicos em hebraico. É normal que soubesse, também, um pouco de grego e alguns termos em latim. Este judeu da Galileia cresceu e viveu nessa parte setentrional da Palestina, herdeira directa do grande reino de Herodes.
Cruzavam-se, nela, as vias de comunicação em direcção a portos que ligavam a terra nacional dos judeus ao imenso espaço mediterrânico. Davam também acesso a vastos territórios do Oriente onde a cultura grega se impunha cada vez mais. Foi nesta terra aberta e de misturas que o fundador do cristianismo passou a maior parte da sua vida e lançou as bases de uma nova religião.
2. A sua intervenção foi muito breve, mas explosiva sob o ponto de vista teológico e social: era preciso mudar de Deus, de religião, de família e sociedade. Ele esperava o advento iminente do reino de Deus que daria início a um período de justiça, de igualdade, de bem-estar e de paz, a começar no coração das pessoas para nascerem de novo. Não sendo política nos métodos, a mensagem de Jesus tomava-se política nas suas consequências.
Este Galileu queria subtrair os seus discípulos à lógica dos estreitos e asfixiantes interesses familiares e dos grupos político-económicos do seu tempo. É nesse sentido que se compreende que tenha louvado os que abandonavam mulher, filhos, trabalho e que vendiam tudo o que possuíam. Também para derrubar a lógica egoísta dos núcleos domésticos, propunha-lhes uma hospitalidade sem retribuição, queria que as famílias hospedassem os deserdados, os pobres de pedir e também os doentes graves, reconfigurando, assim, radicalmente, a vida familiar.
Jesus sonhava com uma sociedade de iguais em que se praticasse a justiça e o amor recíproco. A atenção para com os pobres nada tinha de romântico, como a atitude típica de certas elites que exaltam a vida simples. Sabia que a doença e a pobreza extremas eram e são horríveis. Devem ser combatidas e eliminadas (1).
Nos Actos dos Apóstolos, foi imaginada uma comunidade onde todos eram um só coração e uma só alma e tinham tudo em comum (Act 4, 32-35). Muito mais tarde, S. João entendeu bem o espírito de Jesus: fazer família com quem não era da família, saltar todas as fronteiras para reunir todos os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52).
3. Não é por acaso que a Quaresma começa com Jesus assaltado pelas tentações da dominação económica, política e religiosa. Enfrenta-as como tentações diabólicas, que procuram desviá-lo do seu projecto e às quais responde com um não radical. S. Marcos mostra que os discípulos não percebiam esse caminho, essa alergia ao poder de dominação. Jesus não percebia como é que eles o queriam seguir sem abandonar as ambições do velho mundo e sem se converterem ao espírito de serviço desinteressado (Mc 10, 35-45).
Ao entrar na Semana Santa, é-nos lembrado que Jesus não morreu de velho nem de doença. A pretexto da sua intervenção subversiva, as autoridades políticas e religiosas moveram-lhe um processo que continua muito discutido. Foi condenado à morte e crucificado, talvez a 7 de Abril do ano 30, véspera do grande dia da páscoa judaica e executado nos arredores de Jerusalém, junto de uma velha pedreira. Teria, nessa altura, entre 34 e 36 anos.
Perante isto, é paradoxal que se coloque na boca de Jesus "Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou", como se ele tivesse procurado o sofrimento e a cruz. Nas celebrações da Eucaristia, também se repete: "Na hora em que Ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte"... Isto pode parecer perverso: afinal, Jesus terá sido uma marioneta nas mãos de Deus e os que o condenaram e executaram, instrumentos da vontade divina?
Estas expressões dizem, no entanto, a verdade mais profunda: Jesus detestava o sofrimento e a cruz, mas para não trair, para não renegar o caminho de libertação que, por amor incondicional, escolhera, aceitou todas as consequências que lhe impuseram.
(1) Cf. Corrado Augias e Mauro Pesce, A Vida de Jesus Cristo. O Homem Que mudou o Mundo, Lisboa, Presença, 2008.

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março 02, 2008

"Importa mais o que fazes do que o que crês: pelos frutos os conhecereis"

1 Além dos textos - sempre diferentes e belos - da liturgia diária, tenho tido por companhia, na caminhada desta Quaresma para a Páscoa, um livro com um título que parece assinado por duas místicas - Hablemos de Dios - e que, afinal, é obra de duas agnósticas, Victoria Camps e Amelia Valcárcel. São ambas catedráticas de Ética, uma em Barcelona e outra em Madrid, com notáveis currículos. Comecei a folheá-lo por simples curiosidade e confesso que já me obrigou a várias releituras. O livro consta de um programa de cartas que estas duas amigas escreveram, uma à outra, com a preocupação de estudarem o lugar da religião nas chamadas sociedades seculares e laicas: O Lugar da Religião no Século XXI; Estaremos Secularizados?; Deus, a Transcendência e a Moral; Laicidade, Laicismo, Fundamentalismos; O Mal: Onde está Deus?; Aprender a Viver sem Deus; Ofensas à Religião; Fé e Descrença; Deus e Nós; O Cristianismo e o Futuro.
Tanto Victoria Camps como Amelia Valcárcel tiveram uma educação rigorosa e intencionalmente católica. Católica era Espanha, oficialmente, quando vieram ao mundo que as marcou. Foram testemunhas de várias revoluções. No campo intelectual - e no caso delas também profissional - passaram pela influência do marxismo, do existencialismo, da filosofia analítica. Tudo isto serviu para socavar um bom número de crenças e também de práticas e costumes - pouco fundadas ou simplesmente equivocadas. As duas eram jovens nos anos que explodiram no Maio de 68. Ambas são feministas e contribuíram activamente, cada uma à sua maneira, para difundir o discurso da emancipação da mulher. No campo estritamente religioso, o Concílio Vaticano II permitiu respirar com alívio e pensar que outro catolicismo era possível, ainda que a esperança tenha durado pouco. Veio, depois, o pós-modernismo, com o relativismo e a descrença como senhas de identidade que punham em apuros todos os ideais da Ilustração. Espanha viveu uma transição política sem precedentes e a religião católica foi-se privatizando. Como resultado de todo este processo, confessam: "Hoje, contemplamos o fenómeno religioso a partir da distância e da dúvida. Para nós, a religião é mais um objecto de estudo, de interesse e de curiosidade do que algo que nos defina e constitua. Isso não impede que essa espécie de aleitamento religioso que nos alimentou na infância e na juventude continue a notar-se na nossa forma de tratar o tema religioso. A nossa perspectiva não é, pelo menos assim o pensamos, a de quem procura um ajuste de contas com passado ou fale movido por ressentimento. Ainda que tenhamos visto como se debilitaram, em nós, algumas crenças que, noutros tempos, foram sólidas, pensamos, no entanto, que sem crenças não se pode viver. De todas elas, a fé religiosa continua a ter um peso substancial na existência de muitos indivíduos e de sociedades inteiras, um dado que merece ser tido em conta."
2. Dentro dos dez temas acima indicados, nunca estas duas filósofas esquecem, nem no estilo nem no conteúdo, que escrevem cartas de mútua e amistosa provocação filosófica, ética e religiosa. Cada uma está interessada em levar a outra cada vez mais longe, não em mostrar-se mais inteligente. O resultado são 268 páginas em que o leitor tem a impressão de que, também ele, faz parte desta profunda indagação.
Victoria Camps termina a sua última carta defendendo que, no Estado laico, a religião deve entrar no "espaço público" de deliberação. Isso não pode acontecer, porém, enquanto se continuar a identificar as religiões, cristãs ou não cristãs, com suas expressões mais fanáticas e suas manifestações mais violentas, aquelas que atraem mais os meios de comunicação que nada sabem de matizes e profundidades. "Prefiro um mundo no qual a religião tenha lugar e possa expressar-se abertamente, se ainda tiver sentido para alguém." Amelia Valcárcel, por seu lado, diz à sua amiga Victoria, em forma orante: "A religião tem ainda muito tempo para organizar o mundo. Rezemos para que ouse pensar livremente e se humanize. Oremos para que se torne compassiva, caritativa. Aliás, como diz a nossa religião, importa mais o que fazes do que o que crês: pelos frutos os conhecereis."
3. Jesus deve sentir-se muito melhor na companhia destas filósofas do agir humano, da responsabilidade perante o mal, perante o sofrimento do mundo do que com os discípulos e os fariseus escandalizados com o seu comportamento pouco religioso, como se lê, hoje, no Evangelho de S. João. Jesus, com efeito, ao passar, viu um homem cego de nascença. Eles vieram logo com a pergunta fatal: Rabi, quem pecou, ele ou os seus pais, para que nascesse cego? O Mestre não está interessado nessa discussão culpabilizante dos inocentes. Deus não pode ter nada a ver com isso. O que interessa é a cura do cego. Se Jesus teima em realizá-la no dia proibido, no sábado, dia exclusivamente consagrado a Deus, é para mostrar que esse dia só lhe pode agradar se for o dia especialmente consagrado à libertação dos seres humanos. A humanização desta religião é que a torna divina.

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março 01, 2008

Do Nada para o Nada, caminhantes ...

nessa contínua e misteriosa busca do Mistério, com a orientação laboriosa de A. Borges

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fevereiro 16, 2008

Hoje apetece-me "Taizé"

de e para ou para de crente agnóstico e ou este crente expectante

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fevereiro 10, 2008

Tempo de Quaresma.

Do seu início neste domingo, propiciando reflexão respectiva a Bento Domingues...

(...) Os 40 dias de Quaresma são uma bênção. Um tempo de retiro destinado a aprender a resistir à tirania diabólica da publicidade que nos impõe modelos de vida e de organização económica, social, política, cultural, religiosa e irreligiosa, a nível local e global, pessoal e familiar. Um tempo para a descoberta do que é essencial, supérfluo e prejudicial. Um tempo para descobrir as sugestões de Deus, dentro e fora de nós.

Deixar cair as máscaras da religião

Frei Bento Domingues O.P. - 2008-02-10 (in Público)

A Quaresma é um tempo para a descoberta do que é essencial, supérfluo e prejudicial
1.O medo do caos cria os costumes, as leis e os ritos. A ditadura dos costumes, das leis e do ritualismo mata a vida, a criatividade, impede a irrupção do novo, mas dá a ilusão da segurança. Em nome da sensatez, a reforma das instituições, dos costumes, das leis e dos ritos gera os protestos mais insensatos.

O Vaticano II surgiu como libertador ao questionar a persistência da mentalidade da Contra-Reforma - a que alguns chamam "tridentinismo" -, mas também provocou o medo de se cair na anarquia, na irresponsabilidade, na desordem total. A denúncia dos exageros ou do radicalismo serviu, por outro lado, para tornar sagrado, intocável, o que era preciso transformar ou até abolir.

Temos, assim, o problema das exigências da crítica responsável. Supõe o acolhimento de uma herança e a capacidade de a questionar para discernir o que é preciso manter e o que importa deixar cair. Nascemos num país, numa língua, numa cultura, mas com alguma capacidade de contribuir para mudar o próprio país, de mudar de país, de marcar a língua e a cultura em que nascemos e de nos abrirmos a outras. O ser humano realiza-se acolhendo, recusando e transformando o que recebe. O mesmo se passa com a religião.

2.Jesus nasceu numa família fiel observante dos princípios da lei e da tradição judaicas. A reputação de rabi indica que conhecia bem as Escrituras, mesmo não sabendo nós quem foram os seus mestres. Ser discípulo e baptizado por João - antes de encontrar o seu próprio caminho - mostra que ele pertencia a uma corrente do judaísmo, marcado pela pureza dos costumes e o fervor messiânico, características malvistas aos olhos do clero e das autoridades políticas. Embora Jesus estivesse marcado pela piedade judaica, cultivava um grande espírito de independência a respeito da tradição reinante. Alimentava o sentimento da proximidade de Deus, mas tinha reservas frente ao culto do Templo e aos costumes sacralizados que marcavam o quotidiano.
A relação com a religião do seu povo - atravessada, aliás, por várias correntes - obedecia a um critério humanista: as instituições e as expressões religiosas são para o homem, não é o homem para elas. Neste sentido, era também um filósofo da religião. Não é por acaso que algumas comunidades cristãs, para não serem catalogadas no universo das seitas religiosas, preferiam reivindicar o estatuto de escolas filosóficas: "somos da escola do Logos". Os seguidores de Jesus foram, por isso, considerados ateus. O judaísmo helénico, resultado do encontro da fé judaica com o pensamento grego, já tinha esboçado um precedente.

3.Em nome da salvação, existem formações religiosas que apresentam a divindade como inimiga do ser humano. Daí uma longa história de rivalidades, de exclusões. Deus vive à custa do que rouba aos seres humanos e estes, para se afirmarem, precisam de negar o Deus que os nega.
O próprio nome de Quarta-Feira de Cinzas - que celebrámos na semana passada - pode dar a ideia de humilhação do ser humano: do pó ao pó ("Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar"). Este realismo materialista diz bem os nossos limites e a nossa integração na natureza, mas não exprime a dignidade humana. Esta também não é salva pela hipocrisia religiosa que o texto do Evangelho, dessa liturgia, denuncia de forma cruel. Não é essa, no entanto, a máscara maior da religião.

Celebra-se hoje o primeiro domingo da Quaresma. Não se destina a resolver questões de há dois mil anos, mas também não podemos prescindir do que se passou com Jesus. Os textos mostram-no retirado no deserto, depois de uma experiência mística que punha tudo em causa. O tempo dos sonhos mais puros - os sonhos messiânicos - transformou-se no tempo das tentações mais diabólicas, isto é, na sedução pelo poder total, mediante a dominação económica, política e religiosa em nome do bem de um povo.

Jesus resistiu a tudo isso, a partir de uma convicção radical que ele transformou numa crítica metódica: essas seduções não vinham de Deus porque eram propostas que enganavam as fomes mais profundas do ser humano.
Há muitas receitas para a Quaresma dos cristãos. É preciso não as deixar cair no mero cumprimento de um ritual. O próprio Papa retomou a proposta tradicional de um tempo dedicado à oração, ao jejum e à esmola, que não deve ser reduzida a algumas orações mais, à higiene alimentar e aos tostões de reserva para os pobres. Se assim for, serve apenas para reforçar as máscaras que nos escondem de nós mesmos e que disfarçam a situação real dos excluídos.

Aprender a viver é aprender a morrer a tudo o que nos estraga sob o ponto de vista intelectual, afectivo e social. Os 40 dias de Quaresma são uma bênção. Um tempo de retiro destinado a aprender a resistir à tirania diabólica da publicidade que nos impõe modelos de vida e de organização económica, social, política, cultural, religiosa e irreligiosa, a nível local e global, pessoal e familiar. Um tempo para a descoberta do que é essencial, supérfluo e prejudicial. Um tempo para descobrir as sugestões de Deus, dentro e fora de nós.

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fevereiro 03, 2008

Bento XVI, "Sapienza": Liberdade de expressão.

Pela reflexão de Bento Domingues e de A.Borges, divulgo alguns textos de reflexão. Este primeiro, provém de Bento Domingues. Em princípio mais dois se seguirão sobre o assunto. Com a devida vénia ao autor, e ao jornal Público.Bom domingo.

segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
Como nasceu a universidade?


O discurso de Bento XVI, lido por M. Marietti, acabou por suscitar um verdadeiro concerto de aplausos

1. O clericalismo e o laicismo são duas formas de fanatismo que se alimentam com o medo da verdade do outro, com o medo de que o outro possa ter razão.

O Papa foi convidado a falar na Universidade de Roma "La Sapienza", na cerimónia de abertura do ano académico. Em nome da defesa da laicidade, alguns professores e alunos protestaram. Bento XVI, face à situação, preferiu anular a visita. O discurso acabou por ser lido por M. Marietti, suscitando nos docentes, investigadores, pessoal administrativo e estudantes um concerto de aplausos. O reitor da universidade, Renato Guarini, no seu discurso de abertura, renovou o convite ao Papa. Segundo ele, uma universidade tem o dever de continuar livre, tolerante e aberta. Houve, depois, uma grande manifestação de desagravo na Praça de S. Pedro. Mas não é isso que tem importância. Decisiva é a questão de fundo: em nome da laicidade, uma universidade italiana - fundada, aliás, por um Papa - será obrigada a recusar o diálogo com uma das correntes mais constantes da tradição europeia? Como observou o matemático judeu Giorgio Israel, "é surpreendente que quem escolheu como lema a célebre frase atribuída a Voltaire - "lutarei até à morte para que tu possas dizer o contrário do que eu penso" - se oponha a que o Papa pronuncie um discurso na Universidade de Roma".

Bento XVI começava o seu discurso, precisamente, com a pergunta: o que é que pode e deve dizer um Papa numa ocasião destas? Foi convidado como bispo de Roma - que tem responsabilidades em relação a toda a Igreja católica - para uma universidade que já não é do Papa. Não esqueceu, porém, que este se foi tornando uma das vozes da razão ética da humanidade.

2. Acolhe a objecção: ao falar como Papa, não estaria a tirar conclusões da fé sem validade para os que a não partilham? Antes de responder a esta questão, levanta outra fundamental: o que é a razão? Como poderá uma norma moral demonstrar que é "razoável"? Serve-se da posição maleável de John Rawls para não deixar à razão "pública" o exclusivo da razoabilidade que também se pode encontrar em doutrinas que derivam de uma tradição responsável e motivada. A sabedoria das grandes tradições religiosas deve, por isso, ser valorizada como uma realidade que não se pode lançar impunemente para o cesto da história das ideias. Como representante de uma comunidade que guarda, em si, um tesouro de conhecimento e de sabedoria ética, fala como representante de uma razão ética. Bento XVI, em relação aos destinatários da sua intervenção, pergunta: o que é a universidade? Qual é a sua missão? Ele pensa que se pode afirmar que a verdadeira e íntima origem da universidade está na sede de conhecimento, própria do homem. Este quer saber o que é tudo aquilo que o rodeia. Quer a verdade. Neste sentido, o seguinte questionamento de Sócrates seria o impulso do qual nasceu a universidade ocidental. Diante de uma defesa da religião mítica e sua devoção, Sócrates contrapõe: "Tu acreditas que entre os deuses exista realmente uma guerra recíproca e terríveis inimizades e combates... Teremos nós, Eutifrone, de afirmar que tudo isto é verdade?"

Nesta pergunta aparentemente pouco devota - mas que, em Sócrates, derivava de uma religiosidade mais profunda e mais pura, ou seja, da busca do Deus verdadeiramente divino - os cristãos dos primeiros séculos reconheceram-se a si mesmos e ao seu caminho. Acolheram a sua fé, não de forma positivista ou como a via de fuga de desejos não realizados, mas como uma diluição da neblina da religião mitológica, deixando espaço à descoberta daquele Deus que é Razão criadora e, ao mesmo tempo, Razão-Amor. Por isso, ao interrogar-se da razão sobre o Deus maior e também sobre a verdadeira natureza e o autêntico sentido do ser humano, era para eles, não uma forma problemática de falta de religiosidade, mas fazia parte da essência do seu modo de serem religiosos. Por conseguinte, eles não tinham necessidade de diluir ou abandonar o questionamento socrático, mas podiam, aliás deviam, acolhê-lo e reconhecer, como parte da sua própria identidade, a árdua busca da razão para alcançar o conhecimento da verdade inteira. Assim podia, aliás devia, no âmbito da fé cristã, no mundo cristão, nascer a universidade.

3.O estilo do discurso de Bento XVI - do qual, hoje, só apresento a introdução - não é fácil para uma leitura de jornal. Ao procurar os fundamentos das relações entre a fé cristã e a razão, no horizonte da busca da verdade, num contexto de relativismo cultural, parece que não quer deixar nada por dizer, embora se note que também ele anda à procura. Veremos quais são os caminhos que propõe para a articulação das ciências, da filosofia e da teologia na universidade. S. Tomás de Aquino, celebrado amanhã na Igreja católica, começou a tornar-se o seu guia.


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janeiro 26, 2008

Teologia dogmática e ... o coração.

Certeza da dúvida ou dúvida da certeza, crente e descrente, teoria e praxis... a reflexão de A. Borges
Bom fim-de-semana!

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janeiro 13, 2008

Da confissão "auricular" às "penas do Inferno".

confession.jpg
foto daqui

Da minha antiga práctica religiosa, confesso que pequei um bocado ao confessar-me...principalmente quando o padre confessor queria saber "determinadas" coisas... mas como havia a absolvição final, a coisa compunha-se e vinha de alma lavada até ao primeiro pecadilho.
Bento Domingues, em mais uma das suas muito humanas e simultaneamente eruditas intervenções no jornal Público,
ajuda-nos a refectir sobre a questão.

O embaraço da confissão
Frei Bento Domingues O.P. - 20080113


No Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões"

1.Este é o título dado a um debate que terei de orientar amanhã, no Convento de S. Domingos, no programa das conferências mensais do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA). Onde estará, porém, o embaraço, se, ainda não há muitos anos, o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canónico, assim como as instruções de João Paulo II sobre O Sacramento da Penitência, foram tão desembaraçados a dizer o que é e como deve ser a "confissão auricular"?

O mal-estar vem de longe, reforçou-se com o Vaticano II e há quem tema e quem deseje que a confissão desapareça de vez. Entre nós, foi D. António Ferreira Gomes que, nas suas Cartas ao Papa, escreveu o que muitos pensavam e não diziam: "Factos são factos e o facto é que hoje, em grande escala, pequenos e grandes fogem do confessionário, sendo essa a maior causa da "descrença" de muitos que intimamente aceitam Cristo e o Evangelho."

Segundo o historiador J. Delumeau (1), todas as cronologias destinadas aos alunos do ensino secundário deveriam dar um grande relevo à decisão do IV Concílio de Latrão (1215) que tornou a confissão anual obrigatória. Esta norma modificou a vida religiosa e psicológica dos homens e das mulheres do Ocidente e pesou espantosamente nas mentalidades, até à Reforma nos países protestantes e até ao século XX nos que permaneceram católicos.

Como observa o monge beneditino Philippe Rouillard, professor de Teologia dos Sacramentos e da Liturgia, em muitas igrejas, os confessionários já só têm um valor de vestígio, se não foram comprados por antiquários para os transformar noutra coisa. V. Gómez Mier descreveu um desejado Adiós al Confesionario. Sem se poder generalizar, a verdade é que, no Ocidente, a maioria dos padres não manifesta grande pressa em "ouvir confissões", são cada vez menos os fiéis que pedem para "se confessar" e a maior parte dos que participam na missa de domingo avança para a Comunhão sem recorrer a esse ritual.

2.Apesar de todo este mal-estar, o citado Ph. Rouillard observa que, salvo no círculo muito restrito dos especialistas da liturgia, a confissão não provocou muitas investigações. Os historiadores que se poderiam interessar pelo assunto são católicos e não se sentiriam muito à vontade para abordar uma questão que os incomoda. Os confessores nunca poderiam dar qualquer informação por razões de absoluto sigilo (2). No entanto, não estamos completamente às escuras acerca da história da confissão. Além de estudos parciais, da "História" de C. Vogel sobre o pecador e a penitência na Igreja antiga e na Idade Média e da obra muito conhecida de J. Delumeau, um grupo de investigadores reuniu-se, durante 25 anos, para nos oferecer excelentes versões das "Práticas da confissão", desde os Padres do Deserto (IV-V) até ao Vaticano II.

Em face da contestação protestante, o Concílio de Trento (1545-1563) procurou fazer do sacramento da penitência o sustentáculo de toda a vida cristã. Se isto teve um grande êxito em muitos casos, acabou por minimizar a importância da Eucaristia e de alterar o seu verdadeiro sentido. A hostilidade que gerou, a partir do século XVIII, coincide com a afirmação progressiva dos direitos humanos e da autonomia da consciência, na qual ninguém pode mandar.

No século XX, a Congregação dos Sacramentos decidiu em 1910, por decreto, a idade do "uso da razão" - por volta dos 7 anos - para aceder à Primeira Comunhão eucarística, precedida de confissão.

As ameaças com as penas do inferno para quem não confessava os pecados mortais, incluindo, então, as crianças e os adolescentes, foi talvez um dos maiores desastres da pastoral da Igreja em toda a sua história. Não vale a pena perder muito tempo com esse detestável passado inquisitorial.

3.Não posso explicitar nem justificar, de modo adequado, uma perspectiva que entende o caminho cristão como uma conversão permanente, celebrada no Baptismo é retomada em todas as celebrações da Eucaristia.

As orientações na evangelização e na pastoral devem ter em conta a diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos e o respeito pela consciência inviolável de cada um. No campo propriamente sacramental, é preciso, antes de mais, respeitar a sua hierarquia. Se a porta é o Baptismo, o mais importante dos sacramentos é a Eucaristia, que é também o grande sacramento da confissão dos pecados, da misericórdia e do perdão de Deus. Esta dimensão, iluminada pela proclamação da palavra do Evangelho, percorre toda a missa. Quando não se ajuda a perceber isto, arruina-se o que se pretende salvar com a "confissão auricular".

Certas práticas da confissão não foram apenas grandes crimes do ponto de vista cristão, foram também uma constante e infame desvalorização da Eucaristia como sacramento do perdão.

A Igreja viveu cerca de 12 séculos sem a norma da confissão auricular e Santo Agostinho nunca se confessou.

(1) L"Aveu et le Pardon: les difficultés de confession, XIII-XVIII siècle, Paris Fayard, 1990, pp. 13-14.
(2) Philippe Rouillard, História da penitência - Das origens aos nossos dias, Paulus, São Paulo, 1999.

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janeiro 05, 2008

Ser reconhecido... sg. A. Borges.Sugiro.

Em tempos de breves futilidades a reflexão de A.Borges, sobre tema clássico, onde a ternura de um gesto suplanta em humanidade a erudição da Filosofia...a ler

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janeiro 03, 2008

Foto-galeria 2007...sugiro.

Selecção Público

Selecção Reuters

Recolhido in: Jornal Público.

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janeiro 02, 2008

"O que é na realidade o Homem?" ... sugiro.

É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração.

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dezembro 22, 2007

...por isso Ele é ateu... sugiro.

O futuro das religiões é interessarem-se pela dignidade humana, a única causa de Deus. Por isso Ele é ateu

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dezembro 16, 2007

Este Homem, deve chatear mesmo os "machões" da I. Católica...

... o título é de minha iniciativa. Com a devida vénia a Frei Bento Domingues, reproduzo em entrada estendida o texto: "O Cristianismo, invenção de mulheres?" ... o Dan Brown do código não é parvo de todo...

(com a devida vénia ao jornal público de 16 de Dezembro de 2007)

O cristianismo, invenção de mulheres?

Frei Bento Domingues, O.P. - 20071216

Temos de atribuir às mulheres o nascimento do cristianismo1Defendi no colóquio A Mulher nas Religiões que o cristianismo é uma invenção de mulheres seduzidas por um Cristo feminista. Sustento esta tese desde os anos 60. Ainda há, no entanto, quem se espante com esta evidência, sem dúvida escandalosa, dos textos cristãos de referência, os quatro Evangelhos canónicos, que devem ser a norma de todas as Igrejas cristãs, seja qual for a sua hermenêutica. Emprego, aqui, o termo "invenção", não no sentido de ficção enganadora, mas enquanto "descoberta". No curto espaço de que disponho, posso apenas nomear algumas dessas narrativas exemplares que o leitor poderá verificar em pormenor.

Conta S. Lucas que um fariseu convidou Jesus para jantar. O convite foi aceite e, quando já estava à mesa, apareceu uma mulher da cidade, mulher de má fama, perfumando e cobrindo Jesus de carícias e beijos. Diante desta cena, o fariseu ficou intrigado: "Se este homem fosse profeta, saberia bem quem é a mulher que o toca, porque é uma pecadora." Jesus arranjou logo histórias para provar que, em falta, estava o fariseu e que um grande e puro amor estava a transformar essa mulher (Lc 7, 36-50).

Depois disso, Jesus saiu por cidades e aldeias, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Era acompanhado pelo grupo dos Doze, mas também por um grupo de mulheres pouco recomendáveis que financiavam o projecto: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios; Joana mulher de Cuza, o procurador de Herodes; Suzana e várias outras (Lc 8,1-3).

É ainda no Evangelho de Lucas, com a contraposição de Marta e Maria, que Jesus torna evidente que a mulher não está condenada a ser, apenas, uma boa dona de casa (Lc 10, 38-42). É espantoso como uma cena de radical defesa da mulher exposta às arbitrariedades dos maridos foi transformada no pseudofundamento da indissolubilidade do matrimónio (Mt 19, 112)

No Evangelho de João, é uma samaritana, uma herética, de vida matrimonial nada exemplar, que faz a descoberta de um judeu muito especial, talvez o messias, e é este judeu que lhe revela o culto universal, "em espírito e verdade", que nada deve ao Templo de Jerusalém nem ao do monte Garizim (Jo 4). Nunca saberemos o que Jesus escreveu na areia, mas encenou, de forma surpreendente, a libertação de uma adúltera, no acto de ser apedrejada pelos adúlteros (Jo 8,1-11).

2Segundo o Evangelho de Marcos, Jesus teve um trabalho enorme para fazer perceber o seu projecto aos discípulos. Não conseguiu grande coisa. No final - e aqui há concordância em todas as narrativas dos Evangelhos -, os Doze, ao verem a sorte do Mestre crucificado, concluíram que tudo aquilo era assunto encerrado. Tinham andado enganados: "Maldito aquele que morre no madeiro." Pelo contrário, as mulheres que tinham vindo da Galileia com Jesus mantiveram-se fiéis, durante a crucifixão, a sepultura e prepararam-se para as últimas homenagens (Lc 23, 55-56). Foi junto ao túmulo que ouviram: "Porque procurais, entre os mortos, aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressurgiu." Correram a anunciar o acontecimento aos Onze que não lhes deram crédito (Lc 24,1-11).

O Evangelho de João narra uma história espantosa, centrada numa mulher muito especial: Maria Madalena anda à procura de Jesus e o Mestre Ressuscitado anda à procura dela. Encontram-se num jardim e ela é investida por Cristo: "Vai aos meus irmãos e diz-lhes: "Subo a meu Pai e vosso Pai; a meu Deus e vosso Deus." Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: "Vi o Senhor" e as coisas que ele lhe disse" (Jo 20,1.11-18).

3Não é o momento para discutir a natureza dessas narrativas. Quem as ler atentamente verá que Jesus de Nazaré é apresentado sempre em defesa das mulheres, mesmo das mais desclassificadas. Finalmente, foi a fé das mulheres que resistiu à noite da crucifixão, da morte, da sepultura e que foi premiada com a certeza do Ressuscitado. Foi-lhes revelado que, no cristianismo, não é entre os mortos que se pode procurar o futuro.
Se foi sobretudo uma aventura de mulheres que testemunhou que Cristo está vivo para sempre, se foi Ele quem as encarregou de evangelizar os apóstolos e se foram também elas que prepararam, com eles, o Pentecostes (Act 1, 14), temos de lhes atribuir o nascimento do cristianismo.

Mas a narrativa de Lucas, que abre o futuro da Igreja, começou por nos dizer que o Espírito do Pentecostes estava presente em Maria de Nazaré, mãe de Jesus, desde o começo da aventura. Nessa engenhosa composição, é a uma mulher que o Céu pede para entrar na história humana, para Deus se tornar um de nós (Lc 1-2).

Aqui, não me interessam nada as questões biológicas. Os Evangelhos não são tratados de biologia. São textos simbólicos que dizem que a nossa vida pode ser transformada, se consentirmos no apelo e na graça do Espírito de Deus.

Se tivermos em conta a situação da mulher na cultura judaica, de que Jesus fazia parte, estamos perante uma milagrosa inovação que os textos, embora escritos mais tarde, não conseguiram ocultar. O que aconteceu depois já é outra história.

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dezembro 08, 2007

Vaticano 2035...

a reflexão sabática de A.Borges

vaticano 2035.jpg
Vaticano 2035


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dezembro 04, 2007

Aprenda a bater na...mulher, em poucas lições...

sem comentário...julgue por si

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dezembro 03, 2007

"A fé de que eu gosto, diz Deus, é a esperança" ... sugiro.

...a crónica de Frei Bento Domingues, em tempo de Advento, essa teimosia que o Tempo insiste em vir a ser...

Advento de Deus e nosso advento

Frei Bento Domingues O.P. – 2007/12/02 (in Publico, por subscrição)

O calendário litúrgico lembra todos os anos aos cristãos que entramos no Advento. É uma palavra de futuro que, ao repetir-se todos os anos, parece evocar o eterno retorno do mesmo.

É o tempo que nos devora e não é o tempo que nos consola. Se parece escandaloso ter nascido sem ser consultado, não é com alegria que alguém pode escolher o tempo e o modo de morrer. Nietzsche, no entanto, desafia-nos a dançar nas prisões. Ao aproximar estas imagens contraditórias, evoca as estranhas relações do ser humano com o tempo. Se tivéssemos apenas cadeias, cairíamos no desespero; se não houvesse senão a dança, viveríamos na ilusão. A nossa relação com o tempo vive destas duas evocações: prisão e liberdade, mas a lógica do tempo escapa-nos. Podemos fechar os olhos e criar a ilusão de que o tempo não existe. Logo que os abrimos, o presente está sempre a ir para o passado sem nos poder dizer o futuro. É a nossa condição: viver nesta passagem fugaz e fugidia, onde tudo se inscreve e tudo se apaga.

Para o Eclesiastes, um belo livro do Antigo Testamento, a vida parece feita apenas de enganos: "Ilusão das ilusões - disse Qohélet -, ilusão das ilusões, tudo é ilusão." Mas ficar aí também seria uma ilusão. Consentir na nossa finitude é o começo de sabedoria. Segundo o poema de Qohélet, "para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o plantio; tempo para matar e tempo para curar; tempo para destruir e tempo para edificar; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para se lamentar e tempo para dançar; tempo para atirar pedras e tempo para as ajuntar; tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço; tempo para procurar e tempo para perder; tempo para guardar e tempo para atirar fora; tempo para rasgar e tempo para coser; tempo para calar e tempo para falar; tempo para amar e tempo para odiar; tempo para guerra e tempo para a paz." (Ecl 3, 1-8)

2.Há dois mil e oitocentos anos, o profeta Isaías - evocado, hoje, na primeira leitura da missa - esperava que Jerusalém fosse, finalmente, transformada na cidade da paz para todos os povos: "Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra." (Is 2, 1-5)
Dir-se-á que megalomania do desejo não tem limites. Espera contra toda a esperança e recomeça, mesmo depois das maiores desilusões. Em vez da paz, a chamada Terra Santa transformou-se na terra da violência e do sofrimento sem fim, de gastos astronómicos em armamento, que nem diante da bomba atómica recuaram.
Cada tentativa para chegar a um tratado de paz tem acabado numa desilusão. Quando, em 1995, tudo parecia bem encaminhado, Rabin, denunciado como traidor do Estado judaico, foi abatido a tiro por um judeu. Sempre que se aproximam as presidenciais nos EUA, a estratégia vira as suas baterias para as negociações. É o que está a acontecer agora, em Annapolis. Abriram-se novas negociações acordadas pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, com o patrocínio de G. W. Bush. Pretendem terminar, no final de 2008, com o reconhecimento comum de dois Estados - Israel e Palestina - a viverem lado a lado em paz e segurança. Como à partida tudo aponta para mais um fracasso, esperemos que Deus escreva direito por linhas tortas.

3.Não invoquemos, no entanto, o nome de Deus em vão, porque não tem culpa nenhuma da loucura dos homens. Espero que o advento do Deus da paz esteja sempre a acontecer. Se assim não fosse, Deus não seria Deus, o excesso permanente do dom. Nós, seres humanos, é que inventamos cada vez mais razões para adiar a reconciliação, mais prontos para a guerra do que para a paz. A omnipotência de Deus é discreta, porque não substitui nem a nossa razão nem a nossa vontade.
Há sempre Deus a mais e Deus a menos. Os fundamentalistas religiosos servem-se do nome de Deus para combater os "infiéis", os heréticos, os ímpios, os que não são da sua religião. Servem-se do nome de Deus para cobrir a sua ignorância e a insegurança das suas crenças. Os actuais militantes do ateísmo têm medo que Deus exista e, por isso, não compreendem que haja crentes que não abandonam o exercício crítico da razão nem a fé. Estes ateus comeram a razão toda. Esquecem que a razão humana tem a particularidade de ser assaltada por questões que ela não pode evitar - são-lhe impostas pela sua própria natureza -, mas às quais não pode responder porque ultrapassam totalmente o seu poder, como insinuava Kant, no prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura.
Na Eucaristia de hoje, Paulo quer cristãos de olhos abertos. S. Mateus quer que eles sejam vigilantes, para se não perderem do discreto advento de Deus.
"A fé de que eu gosto, diz Deus, é a esperança" (C. Péguy). Eu também.A chamada Terra Santa transformou-se na terra da violência e do sofrimento sem fim

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dezembro 01, 2007

O "Disangelho". A crónica imperdível de A. Borges


Mas já Nietzsche se queixava: "Cristãos? Só houve um, e morreu na cruz." Depois, veio a Igreja e "o Disangelho".

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novembro 29, 2007

Afinal quantas virgens para os mártires da Eternidade?

...mais um esforço, e dirija-se para: entrada estendida...

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novembro 24, 2007

Religião e ciência, pela reflexão de A.Borges...sugiro.


Aqui

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novembro 11, 2007

"Ateu protestante ou católico?" ... sugiro

A religião mata
11.11.2007(in Público)

Deus não é Grande do jornalista Christopher Hitchens, um livro que está nas listas de best-sellers norte-americanas e britânicas, vai para as livrarias portuguesas amanhã. É uma edição das Publicações Dom Quixote.

A religião mata

11.11.2007


Deus não é Grande do jornalista Christopher Hitchens, um livro que está nas listas de best-sellers norte-americanas e britânicas, vai para as livrarias portuguesas amanhã. É uma edição das Publicações Dom Quixote


(...)
Imaginem que conseguem realizar um feito que eu sou incapaz de alcançar. Por outras palavras, imaginem que conseguem imaginar um criador infinitamente benigno e todo poderoso que vos concebeu, depois vos fez e moldou, vos trouxe para o mundo que fez para vós, e agora supervisiona e cuida de vós mesmo durante o sono. Imaginem também que se obedecerem às regras e mandamentos que ele prescreveu amoravelmente se qualificarão para uma eternidade de bem-aventurança e serenidade. Não digo que invejo esta crença (porque me parece o mesmo que desejar uma horrível forma de ditadura benevolente e inalterável), mas tenho uma pergunta sincera. Porque é que essa crença não torna os seus adeptos felizes? Deve parecer-lhes que possuem um segredo maravilhoso, um segredo a que poderão agarrar-se em momentos até da mais extrema adversidade.
Superficialmente, por vezes, parece ser este o caso. Já estive em cerimónias evangélicas, em comunidades negras e brancas, onde todo o acontecimento foi uma longa algazarra de exaltação por serem salvos, amados e muitas outras coisas. Muitos serviços religiosos, de todos os credos e quase todos pagãos, são precisamente concebidos para evocar a celebração e a festa comunitária, e é exactamente por isso que desconfio deles. Também há momentos mais contidos, sóbrios e elegantes. Quando eu era membro da Igreja Ortodoxa grega, ainda que não conseguisse acreditar, sentia as palavras jubilosas que eram trocadas entre os crentes na manhã de Páscoa: "Christos anesti!" (Deus ressuscitou!) "Alethos anesti!" (Ele ressuscitou!) Devo acrescentar que fui membro da Igreja Ortodoxa grega por um motivo que explica porque é que tantas pessoas professam uma fidelidade extrínseca. Aderi para agradar aos meus sogros gregos. O arcebispo que me recebeu na sua congregação no mesmo dia que celebrou o meu casamento, embolsando, assim, dois honorários ao invés do habitual, tornou-se mais tarde um chefe de claque e angariador de fundos entusiasta para os seus amigos Radovan Karadzic e Ratko Mladic, assassinos em massa sérvios ortodoxos, que encheram inúmeras valas comuns por toda a Bósnia. Quando me casei novamente, a cerimónia foi conduzida por um rabino judeu reformista com uma inclinação para Einstein e Shakespeare e com quem eu tinha um pouco mais em comum. Mas até ele tinha consciência de que a sua homossexualidade de uma vida inteira era, em princípio, condenada como um pecado mortal e punida pelos fundadores da sua religião com a pena de apedrejamento. Relativamente à Igreja Anglicana em que fui baptizado, poderá hoje em dia parecer uma ovelha a balir pateticamente, mas, na qualidade de descendente de uma igreja que beneficiou sempre de um subsídio estatal e de um relacionamento íntimo com a monarquia hereditária, tem uma responsabilidade histórica pelas Cruzadas, pela perseguição aos Católicos, Judeus e Dissidentes, e pelo combate contra a ciência e a razão.
O nível de intensidade flutua de acordo com o tempo e o lugar, mas pode afirmar-se como uma verdade que a religião não se contenta, e a longo prazo não pode contentar-se, com as suas reivindicações maravilhosas e certezas sublimes. Tem de procurar interferir nas vidas de não crentes, ou hereges, ou adeptos de outras crenças. Pode falar sobre a bem-aventurança do outro mundo, mas quer ter poder neste. Nem se esperaria outra coisa. Afinal de contas, é totalmente fabricada pelo homem. E não tem confiança nas suas várias pregações sequer para permitir a coexistência entre diferentes crenças.
Tomemos como único exemplo uma das figuras mais reverenciadas que a religião moderna produziu. Em 1996, a República da Irlanda efectuou um referendo com uma pergunta: se a sua constituição estatal deveria continuar a proibir o divórcio. A maioria dos partidos políticos, num país cada vez mais laico, incitaram os eleitores a aprovar uma mudança na lei. Fizeram-no por duas razões excelentes. Já não se considerava certo que a Igreja Católica Romana legislasse moralmente todos os cidadãos e era obviamente impossível esperar uma eventual reunificação da Irlanda se a vasta minoria protestante do Norte fosse continuamente repelida pela possibilidade de governação clerical. Madre Teresa veio desde Calcutá para ajudar na campanha, juntamente com a igreja e os seus partidários de uma linha dura, e pedir que votassem "não". Por outras palavras, uma mulher irlandesa casada com um bêbado violento e incestuoso nunca deveria esperar algo melhor e poderia colocar a sua alma em perigo se implorasse um recomeço, enquanto os Protestantes podiam escolher as bênçãos de Roma ou manterem-se completamente afastados. Nem sequer foi sugerido que os Católicos poderiam seguir os mandamentos da sua igreja sem os imporem a todos os outros cidadãos. E isto aconteceu nas Ilhas Britânicas, na última década do século XX. O referendo acabou por emendar a Constituição, ainda que pela mais curta das maiorias. (Nesse mesmo ano, Madre Teresa deu uma entrevista dizendo que esperava que a sua amiga, a princesa Diana, fosse mais feliz depois de escapar ao que era, obviamente, um casamento infeliz, mas não constitui uma surpresa ver a igreja impor leis mais rígidas aos pobres ou oferecer indulgências aos ricos.)
Uma semana antes dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, estive num debate com Dennis Prager, que é uma das mais conhecidas personalidades religiosas da televisão na América. Ele desafiou-me publicamente a responder ao que chamou uma "pergunta de sim ou não" e eu concordei de boa vontade. Muito bem, declarou ele. Eu devia imaginar-me ao anoitecer numa cidade desconhecida. Devia imaginar que via um grande grupo de homens a aproximar-se de mim. Agora - sentir-me-ia mais seguro, ou menos seguro, se soubesse que estavam apenas a voltar de um encontro de oração? Como o leitor perceberá, esta pergunta não pode ser respondida com um sim ou um não. Mas eu respondi como se não fosse hipotética. "Para me manter apenas na letra "B", já tive essa experiência em Belfast, Beirute, Bombaim, Belgrado, Belém e Bagdade. Em todos os casos posso dizer com certeza, e apresentar razões para a minha resposta, porque é que me sentiria imediatamente ameaçado se pensasse que o grupo de homens que se aproximava de mim ao anoitecer vinha de uma cerimónia religiosa."
Apresento em seguida um resumo muito breve da crueldade inspirada pela religião que testemunhei nestes seis lugares. Em Belfast, vi ruas inteiras queimadas por guerras sectárias entre diferentes seitas de cristãos e entrevistei pessoas cujos familiares e amigos tinham sido raptados e mortos ou torturados por esquadrões da morte religiosos rivais, muitas vezes por um motivo tão mesquinho como a filiação noutra confissão. Existe uma velha piada em Belfast sobre o homem que foi parado numa barricada e interrogado sobre a sua religião. Quando responde que é ateu, perguntam-lhe, "ateu protestante ou católico?" Penso que isto mostra como a obsessão apodreceu até o lendário sentido de humor local. Em todo o caso, isto aconteceu verdadeiramente a um amigo meu e a experiência não foi nada agradável. O pretexto aparente para este caos são os nacionalismos rivais, mas a linguagem de rua usada pelas tribos rivais que se opõem consiste em termos insultuosos para a outra confissão ("Prods" e "Teagues"). Durante muitos anos, o poder protestante instalado quis que os católicos fossem segregados e subjugados. Na verdade, quando o Estado do Ulster foi fundado, o seu lema era: "Um Parlamento Protestante para um Povo Protestante." O sectarismo é convenientemente autogerado e podemos esperar sempre que suscite um sectarismo recíproco. No ponto fulcral, a liderança católica estava de acordo.
Desejava escolas dominadas pelo clero e bairros segregados para melhor poder exercer o seu controlo. Assim, em nome de deus, os velhos ódios foram martelados às novas gerações de crianças em idade escolar, e continuam a ser martelados. (A própria palavra "martelar" deixa-me maldisposto: uma ferramenta poderosa desse estilo era frequentemente utilizada para destruir as rótulas daqueles que se desentendiam com os bandos religiosos.)
(...) Neste aspecto, a religião não é diferente do racismo. Uma versão dela inspira e provoca o outro. Uma vez, fizeram-me uma pergunta traiçoeira, um pouco mais complicada que a de Dennis Prager, que se destinava a desvendar o meu nível de preconceito latente.
Uma pessoa está numa estação de metropolitano deserta em Nova Iorque, a meio da noite. De repente, aparece um grupo de uma dúzia de homens negros. A pessoa fica onde está ou dirige-se para a saída? Uma vez mais, pude responder que tinha tido uma experiência precisamente igual. Estava à espera de um comboio, muito depois da meia-noite, quando uma equipa de operários saiu do túnel com as ferramentas e luvas de trabalho. Eram todos negros.Senti-me instantaneamente mais seguro e dirigi-me para eles.
Não faço ideia de qual seria a sua afiliação religiosa. Mas em todos os outros casos que citei a religião foi um enorme multiplicador de desconfiança e ódio tribal, com membros de cada grupo a falarem sobre o outro com o maior fanatismo e intolerância. Os cristãos e judeus comem carne de porco conspurcada e bebem álcool venenoso. Os budistas e muçulmanos do Sri Lanka culparam as celebrações do Natal de 2004, onde houve abundância de vinho, pelo tsunami que se seguiu. Os católicos são sujos e têm demasiados filhos. Os muçulmanos procriam como coelhos e limpam o rabo com a mão errada. Os judeus têm piolhos nas barbas e procuram o sangue de crianças cristãs para temperar os seus matzos pascais.
E a lista continua.

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novembro 10, 2007

A beleza religiosa no "cais das lágrimas dos portugueses"...

"A religião sem a beleza é inverdadeira. Sem o gratuito - a graça -, é uma desgraça. "

Interessa-me a espiritualidade. Faço muito minha, a sinuosa busca do Infinito. Pela poesia, pela leitura, pela a abertura ao Outro, à sua palavra. Como habitualmente, bebo em dia de sábado, a palavra de A.Borges, na sua magnífica crónica no DN de hoje. Caso queira partilhar...

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novembro 04, 2007

Religioso: "deserto" e " superabundância"...sugiro

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"Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões".

O futuro do cristianismo
Frei Bento Domingues O.P. - 20071104
Se uns insistem no deserto religioso, outros mostram a superabundância de religiões1.Não faltam ensaios acerca do futuro da religião (1). Por natureza, do futuro não se pode saber muito. É sensato continuar com o debate aberto em todos os campos. A retórica da decadência regala-se a dizer que, depois do ateísmo dogmático, que deu cobertura ideológica a sistemas intolerantes, emerge, agora, o ateísmo da indiferença. O nome da nossa cultura fragmentária seria o niilismo, a luz de nada. Viveríamos no eclipse de Deus, na sua ausência e sem notícias Dele. Como se Ele não existisse. A experiência predominante passaria a ser, precisamente, a de já não se fazer nenhuma experiência religiosa, isto é, de não se ser afectado nem, muito menos, transformado por algo que possa evocar Deus. Mas que dizemos, quando dizemos Deus?
Porque não evocar também o fenómeno contrário, o erradamente chamado "regresso do religioso" de mil manifestações? Não é bom confundir o mundo com a sociologia dos nossos contactos e das nossas leituras.
A. Rañada, um físico espanhol, dizia acerca das relações entre ciência e religião: os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm alguma coisa em comum. Crêem que toda a geografia do mundo cabe num só mapa: o da interpretação intransigente de um livro sagrado ou o dos dados de uma ciência excludente e totalizadora. No entanto, quando olhamos à nossa volta, assalta-nos, de imediato, a complexidade das coisas sempre enredadas num intrincadíssimo emaranhado de conexões causais. E como reduzir a esquemas simples os nossos desejos, temores, esperanças ou recordações? Como poderiam caber num único mapa?

2.A situação é paradoxal. Se uns insistem no deserto religioso do nosso tempo, outros mostram a superabundância de religiões, de espiritualidades, de antigas e novas correntes e movimentos, num mundo cada vez mais global. Quem pensa que as religiões estão a acabar percorra, devagar, o magnífico L"Atlas des Religions (1) e verá que o mais urgente é o diálogo inter-religioso e também entre crentes e não-crentes. Não perdeu actualidade a repetida exigência de Hans Küng: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial." Isso está à vista e só os cegos por interesses imediatos não querem ver.
Por outro lado, o diálogo não existe nem para abolir identidades nem para a sua pura afirmação. Num diálogo verdadeiro, todos mudam sem se anularem. É, por isso, necessário que cada um se tome responsável pela sua religião, pelas imagens que faz de Deus e do ser humano.

3.Há dois anos, publiquei aqui um texto intitulado "Deus em Valadares". Era sobre um ambicioso congresso internacional, que tinha superado todas as expectativas, com o tema Deus no século XXI e o futuro do cristianismo, coordenado por Anselmo Borges. Está, agora, à disposição de todos numa bela edição (Campo das Letras). A capa é de José Rodrigues.
Às vezes, o que os títulos anunciam não corresponde ao conteúdo. Os textos desta obra correspondem, exactamente, ao que anunciam. Vêm de Espanha, da Holanda, da Alemanha, do México, do Japão e de Portugal. Nos tempos modernos, a língua portuguesa não está muito habituada a falar de teologia, que, apesar de tudo, por se ter tornado crítica, conseguiu altas cotas de dignidade e de rigor conceptual. Soube dialogar com os sistemas filosóficos, abertamente ateus, que surgiram na história ocidental (Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud...) e, agora, não recusa o encontro com o mundo das diversas ciências.
Os textos do congresso, recolhidos neste livro, não pairam num clima de teologia incontaminada. Também não são um intercâmbio metódico entre ciências e teologias. As diversas expressões da teologia e das ciências respiraram, num espaço cultural multifacetado, a busca do sentido da existência humana, no qual se desenha também o futuro do cristianismo. Este não pode ser procurado num regime de clausura entre experiências humanas, sabedorias, filosofias, éticas e ciências. O cristianismo é incarnação sem confusão. A graça não suprime a natureza. É esse o valor da definição do Concílio de Calcedónia: "Jesus Cristo é um só, mas em duas naturezas." É evidente que esta fórmula é tributária de uma cultura que já não é a do nosso tempo, mas serve para dizer que Cristo está em tudo, mas não é tudo. Deixará, por isso, sempre a liberdade a todas as investigações e a todas as experiências responsáveis.
Anselmo Borges teve ainda a feliz ideia de incorporar, neste livro, o itinerário-testamento do teólogo dominicano E. Schillebeeckx, professor da Universidade de Nimega. Tem sido uma das vozes da Igreja, mais livre, corajosa e responsável, alimentada por um pensamento sempre em mudança, testemunhado, de forma exemplar, neste texto admirável.

(1) Alberto G. Martínez, El futuro de la religión, "Studium", 2005, Fasc 3, 345-385. / (2) "Pays par pays. Les clés de la géopolitique", La Vie, Le Monde, Hors-série, 2007

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novembro 01, 2007

Todos os Santos, propostas...

">Proposta 1

Proposta 2

Proposta 3

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outubro 27, 2007

Para que quero eu olhos ...

Não é dos olhos que se trata. O mistério é o olhar. Um dia terão perguntado a Hegel o que se manifesta e vê num olhar. E ele: "O abismo do mundo."

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outubro 26, 2007

Religião para quê e porquê?...sugiro

…digam da vossa justiça.Até que ponto é a Fé argumentável? Como se sente a Fé? Porque uns conseguem ser crentes e outros não? Ou opostamente…

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outubro 23, 2007

Não me calo nem aceito...


Impressionou-me, escandalizou-me, ou-me tanto que nem sei o que diga. Tanto quanto se fora uma tipa com a zona púbica em exposição intencional, "negligée, como agora se vê, desde a jovem estudante em sala de aula até à esposa-família dedicada...assim, não aceito e verbero todo o fundamentalismo e o falso pudor cultural que empana seres humanos num negritude definitiva...quem está por debaixo desse negro cobrimento, onde a expressão, o olhar a cor o tudo de um ser humano? Que os homens que vos obrigam sejam eternamente condenados a tal empanamento. Não acredito que alguém assim vestido, refiro-me à mulher de negro, não sofra e de acordo com a causa em questão, será sofrimento sobre sofrimento. Maldigo-vos carrascos culturais e fundamentalistas que não permitem a liberdade de um movimento que seja, o de uma pálpebra que se flicta...quero ser politicamente incorrecto!

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23.10.2007


Falar sobre o cancro da mama, a doença que mais mulheres mata nos Estados Unidos e no Médio Oriente, é o objectivo da viagem que a primeira-dama Laura Bush está a fazer, misturando diplomacia e saúde. Hoje estará na Arábia Saudita, ontem esteve nos Emirados Árabes Unidos e, até sexta-feira, ainda há-de ir ao Kuwait e à Jordânia. "Acho muito importante que os habitantes do Médio Oriente saibam que nos EUA nos preocupamos com a saúde das mulheres, porque ainda há muito medo e vergonha aqui, como nós tínhamos há 25 anos", disse Laura Bush. Na Arábia Saudita, 20 por cento dos casos de cancro são da mama. E 70 por cento das doentes são diagnosticadas quando a doença já está muito avançada, quando nos países ocidentais isso só acontece em 30 por cento dos casos. Ontem, no Abu Dhabi, Laura Bush falou com mulheres envoltas em véus negros - sobreviventes de cancro da mama, que contaram as suas histórias pessoais ao lado da primeira-dama.
Nos países árabes, o cancro da mama ainda está associado a um grande estigma social. "As mulheres casadas ficam muito preocupadas com o efeito que a doença terá sobre os seus maridos e famílias, por isso muitas optam por nem fazer mamografias", disse Omniyat Hajri, médico dos Emirados Árabes Unidos habituado a tratar doentes de cancro da mama, citado pela televisão ABC. Laura Bush, cuja avó morreu com cancro da mama e cuja mãe sofreu da doença mas sobreviveu, leva a sua história pessoal como bandeira da viagem - mas que está a ser vista como uma forma de diplomacia suave, em nome do seu marido, que ficou na Casa Branca. Vai encontrar-se com os reis jordanos e sauditas, usando a sua própria imagem para b

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outubro 20, 2007

Do ateísmo, pela reflexão de A. Borges

Afinal, nem a existência nem a não existência de Deus podem ser demonstradas. Mesmo o crente mais fervoroso convive com a dúvida e até o ateu mais convicto não deixa de ser assaltado por um "talvez", como dizia Unamuno. Já não pode haver lugar para a fé inquisitorial nem para o ateísmo dogmático.

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outubro 17, 2007

Que fé, que povo...

esse admirável mundo sem tempo, esse, o da Fé

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outubro 14, 2007

A Fé é do Povo ...

"…isto foi construído com o nosso dinheiro"

... ou a saga portuguesa da Igreja da Santissima Trindade ...

Ps.Sugiro em entrada estendida, para os que não tenham pressa na visita - só em Fátima ela se justifica - a leitura da reflexão sempre ponderada de Frei Bento Domingues...

Fátima, cada vez mais?

14.10.2007, Frei Bento Domingues O.P.


Esta igreja marca uma diferença. A Cruz Alta é um grito da beleza do amor

1.Sem falar dos indiferentes, Fátima é amada por uns e detestada por outros. Em nome da sua leitura do Evangelho, o padre Mário de Oliveira anda empenhado na campanha: "Fátima, nunca mais." O reitor do Santuário, padre Luciano Guerra, investiu longamente em "Fátima, cada vez mais". Acreditar ou não acreditar nas "Aparições" não afecta a essência da fé cristã. Viva a santa liberdade dos filhos de Deus e vivam os peregrinos que não se conformam com uma vida oca por dentro ou por fora!
Não muito longe da Cova da Iria, a partir de 1915, crianças rurais puseram a circular rumores de Anjos. A figura que se apresentou como Anjo da Paz e Anjo de Portugal ensinou-lhes várias orações. Antes de lhes dar a comunhão, no Outono de 1916, teria rezado com elas uma oração muito complexa e programática: à Santíssima Trindade, à Eucaristia, aos Corações de Jesus e Maria, pela reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças e pela conversão dos pecadores.
Nossa Senhora só entraria em acção em 1917. Como os Anjos, também ela não gostava do Inverno. Manifestou-se na Primavera, no Verão e no Outono. Não exigiu nenhum monumento para marcar o lugar. Bastava-lhe uma capelinha de feição popular para populares. A 13 de Maio de 1928, porém, foi colocada a primeira pedra de uma igreja, que seria sagrada apenas em 1953 e elevada a "basílica menor" em 1954. Entretanto, o mundo já tinha sofrido muitas tragédias e, em Portugal, iriam começar as agonias de um regime político-religioso.
No passado dia 12 - 90 anos depois - foi celebrada a Dedicação da Igreja da Santíssima Trindade, o maior templo de Portugal para gente sentada. Para gente de pé, continua o recinto da Cova da Iria, a maior basílica do mundo a céu aberto.
Ninguém se deslocaria a Fátima por causa da beleza dos seus monumentos. A Cova da Iria não pertencia ao roteiro de Alcobaça, Batalha ou Tomar. Tirando a capela dos Padres Dominicanos, a das Irmãs de S. José de Cluny e o Museu de Arte Sacra e Etnologia dos Missionários da Consolata, o melhor seria fechar os olhos. A representação da Vida de Cristo, recentemente inaugurada, veio coroar o ridículo em tamanho natural. Fala-se de concursos para novos artistas em Fátima. Só um bulldozer lhes poderia abrir espaço no reino do mau gosto semeado por todas as ruas da Cova da Iria, embora saiba que seria um desastre comercial como o lamentado pelos ourives de Éfeso, diante da pregação de S. Paulo (Act 19, 23ss). Tenho, no entanto, de saudar a "peregrinação estética" de Marco Daniel Duarte que não deixou escapar nenhum sinal de ruptura com a fealdade, embora a sua generosidade inclusivista me pareça excessiva (1).

2.As palavras terminadas em dade evocam abstracções. Talvez por isso, a Santíssima Trindade não seja, no Ocidente, uma das preocupações mais insistentes. A sua figuração provoca equívocos. As explicações teológicas da íntima e misteriosa vida de Deus perdem-se numa matemática pouco convincente: três são um, um são três. É, no entanto, a melhor expressão da fé cristã: este Deus não é solidão, é a alma do mundo uno e plural.
Alegra-me que o grandioso templo, agora inaugurado, exprima a fé na Santíssima Trindade, a fé que une o Conselho Ecuménico das Igrejas. Só peço que Fátima se torne um espaço ecuménico irrestrito, um grande lugar para o encontro inter-religioso: Deus é Pai de toda a gente, seja qual for a sua religião; o seu Filho é irmão de todos os seres humanos; o Espírito Santo sopra onde quer sem pedir licença a nenhuma Igreja, a nenhuma religião, a nenhum movimento. Por esse caminho, não seria tão abusivo falar de "Fátima, Altar do Mundo".

3.Goste-se ou não, esta igreja marca uma diferença. A Cruz Alta do alemão Robert Shad é um grito da beleza do amor. As hierarquias das Igrejas devem fazer sentir aos artistas que, no âmbito da imensa simbólica cristã, humano-divina, estão em sua casa. Repete-se: foi uma obra muito cara, mas paga com os donativos dos peregrinos. Não se esqueça, porém, que a divindade não precisa de templos para habitar entre nós. O coração humano, em espírito e verdade, é a sua morada e o mistério da Santíssima Trindade a nossa ilimitada habitação: nele vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 28).
Na Bênção dos Doentes, antes da Procissão do Adeus, ouvi, anos a fio, o clamor do Evangelho: Senhor, se quiserdes, podeis curar-me! É certo que Fátima nunca foi um santuário de milagres exteriores. Também Jesus, através das curas que realizou, nunca pretendeu substituir os avanços da medicina. Ele apenas atirava uma pedrada ao charco da indiferença. O grande milagre, ainda hoje, é a mudança do coração: saber colocar as descobertas científicas e as novas tecnologias ao serviço de todos, a começar pelos mais pobres. Poderá o Santuário de Fátima profetizar, com gestos concretos, esta conversão?
As ciências, a interrogação religiosa, a estética e a ética nunca podem andar separadas.
(1) Arte Sacra em Fátima. Uma peregrinação estética, Fátima, Fundação Arca da Aliança, 2006.

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outubro 13, 2007

Mas que fé? Mas que povo?

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"Sou doente e parece que já não tenho nada"
Maria da Conceição esperou pacientemente duas horas, sentada num banco de praia, que os 88 anos já não perdoam. Um casal tentou passar-lhe à frente, mas resistiu estoicamente e foi a primeira a entrar pela porta de S. Filipe, na Igreja da Santíssima Trindade, ontem inaugurada em Fátima e que assinalou os 90 anos das aparições. "Senti uma grande alegria. Senti tudo de bom. Sou muito doente e parece que já não tenho nada", diria mais tarde.

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setembro 29, 2007

Na descrença o consolo de quem crê e duvida

"O silêncio e o vazio são tão grandes que olho mas não vejo, escuto mas não oiço, a língua move-se durante a oração mas não fala" ...

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setembro 23, 2007

No abraço de Cristo...

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Frei Bento Domingues com o seu saber e humanidade honra-nos com a sua reflexão dominical./a>

"Dos muçulmanos, a Igreja tem algo a aprender sobre a oração, o jejum e a esmola; dos hindus, a meditação e a contemplação; dos budistas, o desprendimento dos bens materiais e o respeito pela vida; do confucionismo, a piedade filial e o respeito pelos mais velhos; do taoísmo, a simplicidade e a humildade; do animismo, o respeito da natureza e a gratidão pelas colheitas.

A teologia do pluralismo religioso não emergiu de forma automática

1.Está à vista que, sem o acolhimento da pluralidade, o respeito e a valorização das diferenças culturais e religiosas, não é possível viver em paz. Para não ficarmos, apenas, na repetição de cerimoniais e declarações acerca do diálogo intercultural e inter-religioso, é indispensável aprofundar a própria significação do pluralismo. É esse, aliás, um novo paradigma, o paradigma emergente de algumas práticas teológicas.
Na teologia trinitária do pluralismo religioso, "o Espírito Santo é o abraço e o beijo de Deus ao mundo inteiro". Nessa catolicidade, cabe toda a terra e podem ser acolhidas todas as formas de vida espiritual e religiosa, situadas e vividas dentro dos limites de cada cultura. Quando se consente no espírito do Evangelho de Cristo, rompe-se com a lógica fixista e opressora que tenta as religiões: o dentro está fora, o alto está em baixo, a bênção está com os malditos e o julgamento do mundo acontece a partir dos mais abandonados (1). Por causa disso, M. Gandhi chegou ao ponto de dizer: se todos os livros sagrados da humanidade se perdessem, mas fosse salvo o sermão da Montanha, as Bem-Aventuranças, nada estaria perdido.
A teologia do pluralismo religioso não emergiu de forma automática. Foram sobretudo os missionários - os que reflectiram sobre os erros de certas formas de missionação - que ajudaram as Igrejas a descobrir que, antes de falar e intervir, devem escutar e acolher.
No contexto do Sínodo dos Bispos da Ásia, os da Malásia, Singapura e Brunei, ao interrogarem-se sobre o que a Igreja católica poderia aprender no seu diálogo com as outras religiões, concluíram o seguinte: "Dos muçulmanos, a Igreja tem algo a aprender sobre a oração, o jejum e a esmola; dos hindus, a meditação e a contemplação; dos budistas, o desprendimento dos bens materiais e o respeito pela vida; do confucionismo, a piedade filial e o respeito pelos mais velhos; do taoísmo, a simplicidade e a humildade; do animismo, o respeito da natureza e a gratidão pelas colheitas. A Igreja pode aprender muito com o simbolismo e a riqueza dos seus ritos existentes na variedade da sua veneração. Pode aprender, com as religiões asiáticas, a ser mais aberta, mais receptiva, mais sensível, mais tolerante e aprender a perdoar."

2.Esta atitude de tanta generosidade nem sempre é bem recebida. Há quem diga que, se estes bispos olhassem mais para a mensagem cristã, não precisariam de perder tanto tempo com as outras religiões: quem tem o mais tem o menos e ainda sobra. Estes bispos acabam por minar a urgência das missões e nem sabem para que foram ordenados.
Tal crítica esquece que as missões da Igreja têm uma história. João Paulo II teve o mérito de reconhecer, oficialmente, que ela nem sempre foi gloriosa e ele, por fidelidade ao Evangelho, multiplicou os pedidos de perdão e lançou o espírito dialogante de Assis.
"Pelo diálogo", dizia este Papa, "nós deixamos Deus estar presente à nossa volta; porque quando nos abrimos uns aos outros, no diálogo, abrimo-nos a Deus. [...] Por outro lado, enquanto discípulos de diferentes religiões, deveríamos reunir-nos para promover e defender ideais comuns nas esferas da liberdade religiosa, da solidariedade humana, da educação, da cultura, do domínio social e da ordem cívica."

3.Como diz Michael Amaladoss, apesar de Jesus ter nascido, vivido, ensinado e ter sido morto na Ásia, é muitas vezes apresentado como um ocidental. Não falta quem defenda que a difusão da Igreja, através do império romano, influenciada pela cultura grega e pelo sistema romano, político e jurídico, foi um sinal da providência divina. Não vou discutir, agora, esse ponto de vista. Não se pode esquecer, no entanto, que as expressões ocidentais do cristianismo, nomeadamente as suas definições dogmáticas, constituem dificuldades desnecessárias noutras culturas.
Os indianos acreditam que S. Tomé foi à Índia e foi martirizado em Chennai. Os bispos asiáticos, reunidos num sínodo consagrado à Ásia em 1998, propuseram algumas imagens simbólicas de Jesus que lhes pareciam mais significativas para os asiáticos de hoje.
Pode ser que os ocidentais julguem as imagens apresentadas insuficientes e até redutoras para captarem a significação da pessoa, da vida, da morte e da ressurreição de Cristo. Não é essa a posição dos teólogos asiáticos. Por exemplo, Amaladoss, um indiano jesuíta, professor de Teologia Sistemática e director do lnstituto do Diálogo com as Culturas e as Religiões, em Chennai (Índia), no seu Jesus Asiático (2), seleccionou nove figuras, nove imagens - Jesus, o sábio; o caminho; o guru; o satyagrahi; o avatar; o servidor; o compassivo; o dançarino; o peregrino - que abrem perspectivas muito mais amplas e acolhedoras do que as fórmulas dogmáticas. Elas estão mais perto das narrativas evangélicas e da cultura indiana.
O cristianismo não é incompatível com a filosofia grega, mas seria pouco católico, se apenas pudesse ser pensado e vivido segundo essas categorias. Esta observação vale também para novas expressões da fé na cultura contemporânea.

(1) Revista Concilium 319-2007/1
(2) Michael Amaladoss, The Asian Jesus, ISPCK, Delhi, 2005 (trad. fr.: Jésus Asiatique, Paris, Presses de la Renaissance, 2007

Frei Bento Domingues O.P. (Jornal Público de 23 de Setembro de 2007)

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setembro 16, 2007

A paz tem alguma piada? ...

"Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho."
(Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007)

Retomo este meu exercício de partilha na blogosfera. E, porque domingo, sendo o "dia do Senhor", mas, não o querendo eu como dia de Senhor nenhum, aqui deixo a intervenção de Bento Domingues, crónica publicada no Jornal Pública, hoje, dia de Senhor nenhum...

O caminho mais curto para a Paz...

Frei Bento Domingues - 20070916

Gandhi não teve seguidores, mas o Dalai Lama reencarnou o seu caminho

1 Já está traduzido em português um livro notável de Deepak Chopra, inspirado em M. Gandhi: "Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho." (1) Sendo a guerra a praga que os seres humanos carregam consigo, o percurso desta obra termina com sete práticas para saber, em cada dia da semana, como viver em paz e ser pacificador. Pode parecer um programa muito básico, mas responde a uma pergunta fundamental do seu mestre: "Poderemos nós ser a mudança que queremos que haja no mundo?" Os sonhos começam a realidade: "Um dia haverá uma guerra e ninguém aparecerá" (C. Sandburg).
O autor deste livro de espiritualidade activa é médico endocrinologista, natural da Índia, radicado nos EUA. Entre as numerosas distinções, foi-lhe atribuído o Prémio Einstein, pelo Albert Einstein Institute College of Medicine em colaboração com o American Journal of Psychotherapy. Em conjunto com Oscar Arias e Betty Williams, laureados com o Prémio Nobel da Paz, fundou a Aliança para Uma Nova Humanidade, uma organização empenhada na justiça social, na liberdade económica, no equilíbrio ecológico e na resolução dos conflitos.
Esta obra integra-se numa espiritualidade que nos chega do Oriente. Como diz J. Masiá, a mensagem do budismo pode ser resumida em duas palavras: pacificar-se e pacificar. Inspira-se numa dupla tradição de vida contemplativa/interiorização e de vida em harmonia com a natureza e com as pessoas. Outra palavra-chave é "sair" de si mesmo por duas vias - pela contemplação e pela práxis solidária. Sair para fora da espiral do engano e da violência; sair da roda do eu superficial atado às desfigurações da realidade; sair para onde aponta a metáfora oriental - "vazio" e "nada" (não confundir com o niilismo) - donde se vêem as pessoas e as coisas, para lá das aparências.
Buda, Jesus, Confúcio e Sócrates são as quatro grandes figuras de pacíficos e pacificadores. Os quatro convidam a sair de si para dentro e para fora. Para dentro, para a meditação; para fora, para a compaixão e a solidariedade. Os quatro convidam a parar e a escutar a voz que, no interior do coração, nos diz a verdade sobre nós próprios e sobre a vida. Os quatro convidam à prática. Antes de perguntar quem disparou a flecha ou quem é o ferido, apressa-te a curá-lo, antes que seja tarde, dizia Buda (2).

2-No momento em que escrevo, ainda não sei como será acolhida a visita, a Portugal, do Prémio Nobel da Paz, XIV Dalai Lama, o símbolo actual da sabedoria no empenhamento pacífico e pacificador do reconhecimento, no interior da China, da autonomia cultural, religiosa e administrativa do Tibete.
Segundo o programa, a segunda visita a Portugal será essencialmente dedicada à apresentação de alguns livros fundamentais do budismo, aconselhados e explicados por Dalai Lama, sobretudo na Faculdade de Medicina Dentária. Para além de outros contactos, é aguardada com expectativa a conferência pública, no Pavilhão Atlântico, na tarde deste domingo, subordinada ao tema O poder do bom coração.
Esta visita foi preparada com a publicação de várias obras de referência do budismo tibetano. Dado que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Tibete, a Revista Lusófona de Ciência das Religiões, dirigida por Paulo Mendes Pinto e Alfredo Teixeira, teve a feliz ideia de confiar a Paulo Borges (presidente da União Budista Portuguesa) a organização de um dossier dedicado ao estudo da presença do Buda e do budismo na cultura portuguesa. O resultado é notável.
O que me importa sublinhar é a sabedoria exemplar de Dalai Lama na luta pacífica pelo reconhecimento da autonomia do Tibete, embora ele esteja muito longe de conseguir a unanimidade dos tibetanos em torno das suas opções e do seu método. Até se pode dizer, não sem alguma razão, que a sua resistência não violenta acabou por servir os propósitos invasores e dominadores da China: os chineses já não precisam de se mostrar muito agressivos na ocupação do Tibete. O império chinês não tem falta de gente para substituir os tibetanos em todos os domínios.
Os séculos XX e XXI tiveram muitos revolucionários e libertadores. Alguns com aura de heróis, mas a invocação da violência dos oprimidos contra a violência dos opressores - uma fórmula que parece mais que legítima, em determinadas circunstâncias - não consegue saltar para fora do mundo da violência e do comércio das armas que corrompe e desgraça a humanidade dos oprimidos e dos opressores. Não gera uma nova humanidade. Não é uma alternativa.
M. Gandhi não teve muitos seguidores, mas Dalai Lama reencarnou, de forma notável, o seu caminho. Dir-se-á que a via da resistência activa na procura contínua do diálogo é demasiado lenta. E os recursos à violência têm sido rápidos na resolução de conflitos, na obtenção da paz?
O XIV Dalai Lama (Oceano de Sabedoria), que tem assumido a figura de dirigente político, de monge e de místico, só lhe interessa ser um monge e um místico budista ao serviço da compaixão universal (3).
(1) Deepak Chopra, A Paz É o Caminho, Lisboa, Sinais de Fogo, 2007.
(2) Juan Masiá, SJ, El otro Oriente. Más allá del diálogo, Sal Terrae, Santander, 2006.
(3) Mayank Chhaya, A Vida do Dalai Lama. O Homem. O Monge. O Místico. Biografia autorizada, Lisboa, Presença, 2007.

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agosto 08, 2007

Da religião, sg/ A. Borges

Como disse Ciorán, "tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião"

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julho 28, 2007

Oriente/Ocidente; O eixo do tempo... reflexão de A.Borges


O conforto semanal da reflexão de Anselmo Borges ...valerá a pena sair do facilitismo imediato da "notícia" que infelizmente fascina e se impõe no circo... sugiro que se vá mais em profundidade e se aproveite a "sageza" deste filósofo e teólogo. Santos da casa também podem fazer milagres... bom dia!

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julho 24, 2007

Nazanin Afshin-Jam ... sugiro.

nazanin-afshin-jam.jpg
Nazanin Afshin-Jam, a mulher que salvou Nazanin
No Canadá é uma estrela. Uma pop-star, mais precisamente. Antes de mais, Nazanin Afshin-Jam é famosa por ser famosa e é famosa por ser bonita. Só que os seus talentos não ficam por aqui...

Os seus retratos profissionais apresentam-na como cantora, compositora (das suas canções), modelo e actriz. Se ignorarmos uns contratos como modelo quando era estudante, a sua primeira actividade profissional foi como Miss: Miss Vancouver, Miss Swimsuit, Miss World Canada, Miss Desporto, Queen of the Americas e um segundo lugar no concurso de Miss Mundo em 2003. De caminho, foi participando em meia dúzia de episódios de séries de televisão. Aos títulos de beleza seguiram-se os habituais contratos para fotografias, aparições públicas, participações em programas de TV e de rádio, entrevistas várias e uma chuva de capas de revistas. Como cantora a sua carreira é curta: o primeiro álbum (Someday) foi publicado no mês passado e está a fazer uma carreira aparentemente bem sucedida.
Mas Nazanin (é este o seu nome artístico) é também outra coisa: uma militante pelos direitos humanos que conquistou a notoriedade no seu país e para além dele com uma campanha para salvar uma jovem condenada à morte.
Seria aliás mais correcto dizer "nos seus países" porque Nazanin tem dois: o Irão e o Canadá. Nasceu no Irão (Teerão) em 1979, durante a Revolução Iraniana que levaria Khomeini ao poder. A sua família fugiu para a Europa e posteriormente para o Canadá em 1981, depois de o pai ter sido preso pela Guarda Revolucionária de Khomeini, torturado e condenado à morte.
Na Universidade de British Columbia, Nazanin estudou Ciências Políticas e Relações Internacionais, estudos que complementou com pós-graduações em França e Inglaterra. Enquanto estudava teve tempo para aprender a pilotar aviões (fez o curso dos Royal Canadian Air Cadets), além de se dedicar à prática de vela, caiaque, karting e dança e de trabalhar como voluntária da Cruz Vermelha em campanhas contra as minas terrestres e em defesa das crianças que vivem em zonas de guerra. Depois disso, a actividade de Nazanin foi muito além da das jovens que se limitam a declarar no palco que se pudessem concretizar um desejo pediriam "a paz no mundo".
A história da sua família, o seu trabalho como voluntária da Cruz Vermelha e o facto de ter sido uma jovem iraniana que participou em concursos de beleza, passeando-se em fato de banho à frente dos olhos de milhões de homens (só para o desfile de Miss Mundo houve 2200 telespectadores), permitiu-lhe uma experiência directa do que são os atentados às liberdades no mundo de hoje. Porquê os desfiles? Porque a visibilidade da sua participação teve como preço as críticas dos sectores conservadores da comunidade iraniana no Canadá, as ameaças de fundamentalistas islâmicos e mensagens de apoio de jovens iranianos que lhe permitiram ter uma noção da limitação das liberdades e da repressão das mulheres no seu país de origem.
A campanha que deu notoriedade a Nazanin foi porém a campanha para libertar Nazanin. Outra Nazanin, Nazanin Mahabad Fatehi, uma jovem iraniana de 17 anos condenada à morte por enforcamento a 3 de Janeiro de 2006 por ter apunhalado um dos três homens que a tentaram violar a ela e a uma sobrinha de 15 anos, num parque de Karaj, um subúrbio de Teerão.
Nazanin Afshin-Jam iniciou uma campanha pela sua libertação que incluiu o lançamento de uma petição que recolheu mais de 350.000 assinaturas, a produção de um documentário (The Tale of Two Nazanins), contínuas acções públicas e intervenções nos media e uma actividade de lobbying junto das autoridades iranianas e das Nações Unidas. A campanha pela libertação de Nazanin conseguiu mobilizar a Amnesty International, o Parlamento canadiano, a União Europeia e levou as autoridades judiciais iranianas a rever o caso, suspender a condenação e realizar um novo julgamento que se saldou por uma absolvição, em Janeiro passado.
Mas Nazanin Afshin-Jam
não parou aqui. Lançou a campanha Stop Child Executions Campaign (www.stopchildexecutions.com) que tenta anular
as condenações à morte de mais de 20 menores que esperam a execução nas cadeias de Teerão
e mudar as leis iranianas, de forma a pôr fim à execução de menores. A lista dos crimes dos que foram executados nos últimos anos inclui actos como "atentados contra a castidade" ou dar aulas de religião Baha"i.
A acção de Nazanin Afshin-Jam no caso de Nazanin Fatehi foi distinguida com o Prémio Herói dos Direitos Humanos, atribuído pela organização Artists for Human Rights, dirigida pela actriz Anne Archer.
Nazanin Afshin-Jam também provoca críticas. Há quem diga que as suas simpatias políticas estão do lado de Reza Pahlavi, o filho do último xá do Irão, e que os seus verdadeiros motivos seriam a reinstauração da monarquia no país ou que a sua actividade humanitária é apenas uma forma de promoção pessoal. Mesmo que seja assim, se essa promoção continuar a defender os direitos humanos e a salvar vidas, parece um tipo de promoção totalmente louvável.
n

José Vítor Malheiros (Público de 22/07/07)

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julho 22, 2007

Super Star Jesus and women ...

Frei Bento Domingues que me permita esta associação entre a famosa canção nesta versão bem antiga e o seu texto. A "modernidade" feminina de Cristo ainda continua por realizar e, a Instituição Católica bem precisa de "sentir" este magnífico desabafo musical...I love him so...

(...) Jesus fez delas discípulas do Evangelho. Acabaram por demonstrar mais ousadia e responsabilidade do que os homens. Maria representa a mulher discípula, aquela que escuta a palavra e a segue. Marta ainda é o tipo de mulher reduzida à "cozinha". Esta revolução não durou muito, salvo em casos extraordinários. No geral, voltou-se ao tempo anterior a Jesus.

Mulheres fora da cozinha (http://jornal.publico.clix.pt/)

22.07.2007, Frei Bento Domingues O.P.


É a mudança de estatuto que a mulher consegue na comunidade de Jesus


1 As feministas cristãs queixam-se de que as cristologias, e até as obras mais rigorosas sobre o Jesus histórico, continuam a ser elaboradas como se as mulheres não existissem. Ora, se há um ponto no qual as narrativas evangélicas são inovadoras é, precisamente, pelo lugar que nelas é dado, por Jesus, à defesa das mulheres e pelo protagonismo que assumem nos momentos mais decisivos do seu itinerário.
Também a celebração da liturgia deste domingo é comandada por um texto sobre dois tipos de mulher. Não é a primeira vez que elas surgem no Evangelho de Lucas. Uma prostituta entra em cena loucamente apaixonada por Jesus e ficará, para sempre, como símbolo das pessoas que o amor puro transformou até à raiz (Lc 7, 36-50).
Logo a seguir, outras são apresentadas como mulheres libertas - curadas de espíritos malignos e doenças - que acompanhavam o Mestre com os doze apóstolos, por cidades e aldeias: Maria chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Estas discípulas aparecem como financiadoras do projecto de Jesus (Lc 8, 2-3). De, facto, seguem-no até ao túmulo e foram elas as surpreendidas pela ressurreição de Cristo. Serão também elas a evangelizar os apóstolos que, entretanto, tinham desertado (Lc 23, 24).
Regressemos, porém, ao Evangelho deste domingo: "Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sue palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: "Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me." O Senhor respondeu-lhe: "Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada."" (Lc 10, 38-42).

2
Nunca somos neutros na leitura de um texto. Há, certamente, limites para a sua interpretação, mas esta parte sempre de alguns pressupostos conscientes ou inconscientes. As narrativas evangélicas não escapam a essa condição. Além disso, carregam dois mil anos de leituras. Esta passagem já teve vários usos nas Igrejas cristãs. Serviu, de modo especial, no âmbito dos carismas da vida religiosa, pare exaltar o primado da "vida contemplativa", de mulheres e homens, sobre a "vida activa".
A investigação da verdade e a contemplação da beleza eram sempre mais valorizadas do que as actividades exteriores, consideradas menos nobres, entregues ao que é passageiro em contraposição ao que é eterno.
Se este esquema respondia bem ao primado absoluto de Deus, tornava-se incapaz de interpretar a própria vida de Cristo. Tomás de Aquino, na sua cristologia, pergunta se não seria mais conveniente que Jesus se tivesse dedicado à vida solitária, à vida monacal, do que à intervenção na sociedade. A sua resposta não é simplista. Começa por reconhecer que a vida contemplativa em si mesma, não tendo em conta qualquer outra consideração, é melhor do que a vida activa que se ocupa de actividades corporais. No entanto, a vida activa, segundo a qual alguém, pregando e ensinando, dá aos outros a realidade contemplada, é mais perfeita do que a vida que só contempla, dado que tal género de vida só pode brotar de abundante contemplação. E foi essa que Cristo escolheu para si. É melhor iluminar do que ser apenas um iluminado (ST III q. 40, a.1, ad 2).

3A distinção entre vida activa e contemplativa não deve, no entanto, ser desvalorizada, embora a vida activa possa ser fonte de contemplação. Bem-aventurados os que atingem um estado contemplativo no meio da agitação! A necessidade de cortar com o quotidiano, não só para o ócio e para o desporto, mas também para meditar e saber hierarquizar o que é importante e o que é secundário, é cada vez mais sentida. Quem não compreende isto arranja programas de fim-de-semana e de férias para aumentar o barulho.
Há, no entanto, uma outra leitura para o estranho diálogo de Jesus com Marta a propósito da insensibilidade de Maria para o serviço da casa. Marta tem de fazer tudo e Maria está sentada na conversa e, ainda por cima, é elogiada.
Em geral, não se repara no seguinte: o que está em causa é uma revolução. É a mudança de estatuto que a mulher consegue na comunidade de Jesus. Ele cresceu numa sociedade na qual as mulheres só contavam para dar filhos e trabalhar. Eram uma propriedade do marido, que as podiam repudiar por qualquer motivo e elas não podia pedir o divórcio. Não havia rabinas nem escribas ou doutoras da Lei. No Templo e na sinagoga, estavam à parte.
Jesus fez delas discípulas do Evangelho. Acabaram por demonstrar mais ousadia e responsabilidade do que os homens. Maria representa a mulher discípula, aquela que escuta a palavra e a segue. Marta ainda é o tipo de mulher reduzida à "cozinha". Esta revolução não durou muito, salvo em casos extraordinários. No geral, voltou-se ao tempo anterior a Jesus.

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julho 21, 2007

Ser é Ser em relação ...sugiro.

…A arte de viver bem e ser feliz deriva de e implica relações vivas e sãs com a realidade toda, a começar pelos mais próximos - dados recentes mostram que é essencial para a felicidade a vinculação à família e aos amigos.

Porque hoje é sábado e digo-o como dia aberto à relação, meditando nas reflexões enriquecedoras de A.Borges

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julho 14, 2007

Nesta acalmia da tarde, conjugo o verbo transcender... com...

...a devida vénia à sempre estimulante crónica de Anselmo Borges no Diário de Notícias.
Pensar é ultrapassar, transcender.

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julho 02, 2007

A Esfinge esse ser obsessivo...

… Em reflexão, uma vez mais, com as sábias palavras de A.Borges..."

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junho 23, 2007

O Homem, esse desconhecido... sugiro.

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Então, o enigma é este: provimos da natureza, mas contrapomo-nos a ela, somos simultaneamente da natureza, na natureza e fora dela."

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junho 21, 2007

Nazima Ghulam Nabi... a lágrima.

Nazima.jpg
A lágrima
Nazima, filha de Ghulam Nabi, um cidadão da Caxemira indiana morto no rebentamento de uma granada, chora deitada numa cama do hospital de Srinagar. Foto: Danish Ismail/Reuters

Cama hospital granada pai cidadão Caxemira
Filha dolente em lágrima deitada chora chora
Porquê num hospital deitada
Um rebentamento mata Ghulam Nabi cidadão
Caxemira
Deixando uma filha deitada em cama com lágrima
Vista do lado esquerdo
A cara branca de Nazima filha de Nabi
Uma cama hospital deitada em lágrima
Em almofada verde branco com sinal de azul do lenço
A face explode o sofrimento de
Nazima
Filha de Ghullam Nabi
Nazima tem um brinco na orelha
Como prolongamento da lágrima
Olha o vago o céu o som da granada
Que matou pai Nabi
Quem pode agora dar amor
De pai rebentado por granada em Caxemira
Nazima filha pai lágrima brinco face branca
O cabelo afeiçoa-lhe a dor em negro
Nazima Ghulam Nabi com lágrima

(foto recolhida in jornal "O Público", de 21 de Junho de 2007)

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junho 11, 2007

Oração, esse silencioso segredo...

Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia

Não há palavras, diante de pais em choro pela perda de um filho: "Tanto pedimos a Deus que nos salvasse o nosso filho, e ele não nos ouviu!..."

Uma vez, uma senhora ainda jovem, muito doce, a quem a mãe morrera seca com o sofrimento, atirou-me: "Sabe? Às vezes penso que Deus não pode ajudar a todos. São tantos a pedir... Coitadinho!..."

É verdade: Deus não pode ouvir as orações todas nem satisfazer todos os pedidos.

O teólogo Andrés Torres Queiruga disse-o de modo chocante, quase brutal, mas, para o crente reflexivo, verdadeiro. Tomemos como exemplo esta oração: "Para que as crianças de África não morram de fome, oremos ao Senhor." "Objectivamente, uma petição deste tipo implica o seguinte: 1. que nós somos bons e tentamos convencer Deus a sê-lo também; 2. que Deus está passivo enquanto o não convencermos, se formos capazes; 3. que, se, no domingo seguinte, as crianças africanas continuarem a morrer de fome, a consequência lógica é que Deus não nos ouviu nem teve piedade; 4. que Deus, se quisesse, podia solucionar o problema da fome, mas, por um motivo qualquer, não quer fazê-lo." Conclui: "Sem pretendê-lo conscientemente, mas presente na objectividade do que dizemos, estamos a projectar uma imagem monstruosa de Deus: não só ferimos a ternura infinita do seu amor sempre disposto a salvar como, além disso, acabamos por dizer implicitamente algo que não nos atreveríamos a dizer do mais canalha dos humanos."

Quando se reflecte, percebe-se claramente que a chamada oração de petição exige ser repensada. Deus, porque é Força criadora infinita, não intervém de fora, e quem acredita que Deus é Amor não pode estar a implorar-lhe que tenha piedade. Fazê-lo é contradizer-se.

Compreende-se - isso sim - que o crente, na sua dor e frente ao horror do mundo, ore, fazendo perguntas e gritando com Deus. Job, sentindo-se inocente, queria levar Deus a um tribunal que julgasse com independência. Está na Bíblia! Jesus rezou na cruz: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?" E, como sabia o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer, executado pelo nazismo, o crente terá cada vez mais de aprender a "viver diante de Deus e com Deus sem Deus".

Não há Homem religioso que não reze. Mas, como diz o Evangelho, é preciso pedir o que a maior parte das vezes se não quer pedir: o Espírito Santo e a conversão. Na verdade, não se trata de converter Deus à vontade humana e aos seus caprichos, ao seu orgulho e vaidade, à sua avareza e ganância, mas de o Homem se converter ao que Deus quer: simplicidade, capacidade de partilha, humildade, paciência e todas aquelas virtudes que já não estão muito em uso, mas tornam o Homem humano e trazem paz.

Quem não deseja ardentemente estar com o Amor? Rezar é marcar encontro com Deus, Anti-mal e Fundamento de todo o ser - Deus é Presença intimíssima e infinitamente activa em todo o real. Nesse encontro, o Homem faz então a experiência da religação à Fonte criadora e dinamizadora de tudo, reconcilia-se com a finitude e, depois de ter descido ao mais profundo, volta ao quotidiano da vida com esperança e serenidade, aquela serenidade de que fala Santa Teresa de Ávila: "Nada te perturbe. Nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem Deus nada lhe falta. Só Deus basta."

No entanto, a serenidade não significa passividade nem resignação. Pelo contrário, quem foi ao encontro do Deus que, como diz o Evangelho, mora no oculto, "identifica-se" com ele e com o seu amor e entrega-se ao cuidado da sua obra, a começar por quem mais precisa: o pobre, o escarnecido, o humilhado, o doente, o chicoteado, o velho, o deficiente, qualquer um que sofre. Afinal, é mesmo possível, por exemplo, nós acabarmos com a fome em África!

O Evangelho diz que Deus sabe do que os seres humanos precisam, antes de lho pedirem. Por isso, previne contra o longo palavreado vão de quem reza. Manda é o silêncio e a paz interior, para que ele possa entrar: "Tu, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai."




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junho 02, 2007

Gregoriano "Losing my Religion"

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"O olho com que Deus me vê é o olho com que eu o vejo...

o meu olho e o seu são uma coisa só. Se Deus não existisse, eu não existiria; se eu não existisse, ele não existiria."

(Em tempos agitados de revolta e de injustiça, agradeço a reflexão de Anselmo Borges)

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maio 27, 2007

E domingo, e a Procissão sg/ João Villaret.

Sendo domingo ... nada melhor para a salvação da alma do que João Villaret "dizendo" a Procissão...

(Clique na imagem para ouvir...)

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maio 19, 2007

Diálogo inter - religioso ... A. Borges, sugiro

No passado dia 5, o Grande Oriente Lusitano realizou o Encontro Internacional de Lisboa - Religiões, Violência e Razão...

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Diálogo inter - religioso ... A. Borges, sugiro

No passado dia 5, o Grande Oriente Lusitano realizou o Encontro Internacional de Lisboa - Religiões, Violência e Razão...

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maio 01, 2007

Ossadas em 1º de Maio ...

A "Terra Santa" da Igreja devem ser os bairros mais abandonados das grandes cidades e, sobretudo, o vasto mundo dos pobres, dos quase mil milhões que vegetam com menos de 73 cêntimos por dia. A Igreja só testemunha a ressurreição quando participa na insurreição contra tudo aquilo que estraga a vida das pessoas. É essa vontade que a leva a acreditar que aquilo que já ninguém pode fazer, Deus o faz na insurreição contra a morte.(...)"

(Com a respectiva vénia ao artigo de Bento Domingues e ao jornal Público de domingo passado...)

As ossadas de Cristo

29.04.2007, Frei Bento Domingues


A catequese sobre a morte e a ressurreição precisa de uma grande volta


1.A exibição do documentário de James Cameron, Código de Cristo - o Túmulo Perdido, depois de correr o mundo, foi também um grande acontecimento da SIC.
Várias pessoas vieram ter comigo perturbadas. Diziam-me: passamos a Páscoa a repetir que, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé e, agora, encontraram, não um túmulo vazio, mas as ossadas de Jesus, dos seus pais, José e Maria, da sua esposa, Maria Madalena, e de Judas filho do casal. Estamos, assim, não só numa situação de enganados pela Igreja, mas de uma Igreja enganada, há dois mil anos. Não só não ressuscitou, como até casou com uma mulher que não podia ter mais demónios. Se tudo isso for verdade, o cristianismo revela-se uma grande mentira.
Irrita-me, embora não me espante, que pessoas, modeladas pelas televisões e pela miserável catequese que receberam, sejam tão precipitadas. Por outro lado, a ciência goza de tal prestígio que basta dizer que isto ou aquilo é científico para suscitar a adesão, sem qualquer sentido crítico. Muda-se de crença, mas com o rótulo de ciência.

2.Reconheço que o documentário tem evidente qualidade narrativa e será, sem dúvida, um êxito comercial. Eu, simples espectador, devo confessar que o exibicionismo científico do documentário, em vez de me impressionar, deu-me, várias vezes, vontade de rir. Eram muitos os buracos por onde passavam, com estilo, suspeitas transformadas em tese que parecia anterior a uma investigação séria. Não tenho, porém, de me pronunciar sobre este aspecto. Li depoimentos de grandes especialistas da matéria que dizem: nem sob o ponto de vista da linguística, nem da história, nem da arqueologia - sem falar da farsa dos testes ADN - aquilo merece o mínimo crédito. Jean-Sylvain Caillou, arqueólogo e autor de uma tese sobre os túmulos da Palestina, chega mesmo a dizer que o problema maior da pseudodescoberta situa-se na ausência de ética científica (1).
Dir-se-á que a minha atitude também é suspeita. Seria uma forma inconsciente de reagir perante as ameaças à doutrina da Igreja e, sobretudo, de perder, para sempre, Jesus Cristo e a sua causa, a quem dei a vida.
É possível, mas não sou capaz dessa auto-análise, nem quero ser juiz em causa própria. Confesso que a minha convicção de fé na Ressurreição de Cristo não depende do túmulo cheio ou vazio. As razões de fundo já figuram no meu texto do Domingo de Páscoa: "Ressurreição/Insurreição". Anselmo Borges, no mesmo dia, publicou, no DN, "Onde e quando é a vida eterna?", de que gostei muito. Ele é, aliás, em Portugal, a pessoa que mais tem aprofundado, em textos fundamentais e em diversas circunstâncias, as interrogações acerca da morte.

3.É verdade que até me consolava a ideia do "túmulo vazio", mas não por causa da ressurreição de Cristo. Pensava comigo: do que nos livramos! Com os ossos de Jesus e Maria, em Jerusalém, o odioso comércio de relíquias não teria limites! A vontade que muitos cristãos manifestam de ir, uma vez na vida, a Jerusalém, como os muçulmanos vão a Meca e os judeus ao Muro das Lamentações, não tem nada de cristã.
Se Cristo está em Deus, está com todos aqueles com quem Deus está, seja onde for. Cristo é nosso contemporâneo. Sempre me aborreceu a ideia de ir a Jerusalém por causa dos lugares santos. Onde houver gente necessitada, gente que precise de presença, de cuidados, há um lugar maldito que é preciso santificar. No simbólico tribunal da História (Mt 25), ninguém é julgado por não ter visitado a chamada Terra Santa. Mas encontra-se ou desencontra-se com os lugares santos se socorre ou não os doentes, os presos, os nus, os famintos, os abandonados. A "Terra Santa" da Igreja devem ser os bairros mais abandonados das grandes cidades e, sobretudo, o vasto mundo dos pobres, dos quase mil milhões que vegetam com menos de 73 cêntimos por dia. A Igreja só testemunha a ressurreição quando participa na insurreição contra tudo aquilo que estraga a vida das pessoas. É essa vontade que a leva a acreditar que aquilo que já ninguém pode fazer, Deus o faz na insurreição contra a morte.
A ressurreição não tem nada a ver com a reanimação de um cadáver, com o regresso à vida anterior, mas com a passagem a uma qualidade, essencialmente diferente, de vida. A linguagem está sempre, aliás, a atraiçoar-nos. Dizemos barbaridades como esta: fomos enterrar ou cremar os pais, os filhos, os esposos, etc. Se isso fosse verdade, seria um crime. Enterrados ou cremados são os chamados "restos mortais", não as pessoas nem os seus corpos. O corpo é uma presença viva ao mundo, a expressão de relações humanas. E, como já disse no texto da Páscoa, não vale a pena perguntar como será a ressurreição. A fé consiste, apenas, em dizer que Deus, para ser fiel a si mesmo e ao nosso infinito desejo de viver, saberá encontrar o caminho para levar à plenitude a personalidade de cada ser humano. Não vivemos para sermos entregues ao nada.
A catequese sobre a morte e a ressurreição precisa de uma grande volta.
(1) Le Monde de la Bible, n.° 177, p. 55


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março 18, 2007

... "po(i)", com o sentido de proteger, defender ...

(...) O pai humano é criador - com-criador, juntamente com a mãe (o óvulo feminino só foi descoberto em 1827) - de um ser livre. E isto é misterioso. (...)

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março 04, 2007

Religião, mercado, sg. A. Borges.

(…)“É uma religião que quer passar despercebida, como se o não fosse. Eis algumas das suas características: o seu dogma fundamental são o poder e a força expansiva do Dinheiro, que se torna o comando do destino dos seres humanos e o controlador das suas consciências; anuncia o evangelho da felicidade aos pobres; os seus sacramentos são os produtos comerciais, envolvidos numa bela e atraente simbólica venal e que excita o desejo; como já Walter Benjamin tinha visto, os seus templos são os bancos; os seus sacerdotes são os banqueiros e grupos financeiros; a sua ética, isto é, contra- ética, é a da competitividade e lucro sem limites; o seu deus é o mercado, um deus com atributos de toda a divindade: omnipotência, omnisciência e omnipresença - e é um deus único, que não admite rival, de tal modo que R. Garaudy tinha razão ao falar do monoteísmo do mercado; os deuses da teologia do mercado, que são criações históricas, personificando leis da economia de mercado, apresentam-se como naturais, e a sua lógica é a violência sacrificial estrutural, em cujo altar se imolam vidas humanas.

Publicado por morfeu às 09:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 12, 2007

Fundamentalismos... sugiro.

...reflexão dominical de A. Borges.

(…)“Ou a Humanidade como um todo se torna sujeito do seu futuro e da responsabilidade pela vida em geral ou não haverá futuro para ninguém.

Em termos simples e cínicos: se não quisermos ser solidários com os países pobres por razões de ética e humanidade, sejamo-lo ao menos por razões de egoísmo esclarecido.”

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fevereiro 10, 2007

É preciso descaramento ... world press photo 2006.

... por respeito de direitos de autor, e por circunspecção pessoal, fica em entrada estendida ... á preciso desplante...

(recolhida em Público de 10/02/07)

Beirute.jpg

09-02-2007 - 13:17
World Press Photo 2006
Spencer Platt, fotógrafo americano da agência Getty Images, venceu o World Press Photo 2006. A imagem escolhida mostra, em primeiro plano, um grupo de libaneses a passear-se em Beirute num descapotável vermelho no meia da devastação, depois dos bombardeamentos da aviação israelita. Foto: Spencer Platt/Getty Images

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fevereiro 07, 2007

O.p versus S.I ...

... perdoem-me a brincadeira do título - Ordem dos pregadores, Dominicanos, versus, Sociedade de Jesus, Jesuítas - mas acho oportuno, em nome da pluralidade e do contraditório, colocar em entrada estendida, a intervenção do Padre Vaz Pinto, no público de hoje, referindo-se à crónica de Bento Domingues,O.p, que coloquei em post de domingo passado... interessante...

Publicado por morfeu às 08:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 04, 2007

"Viver é aprender a amar",

Tinha como lema: "Viver é aprender a amar", punha a compaixão "no cume das virtudes" e definia a morte como "o encontro com o Absoluto, o Eterno". Para ele, foi em 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos.

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A sacristia como Igreja; Aborto e Teologia...

... na palavra e reflexão de Frei Bento Domingues, no Público de hoje...

«Os problemas de consciência nem sempre foram resolvidos desta maneira. Nem é preciso recuar até S. Tomás de Aquino. Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, quando era professor de Tubinga, escreveu um texto, pouco antes da Humanae Vitae (1968), que Hans Küng, seu colega e amigo, transcreve, agora, nas suas Memórias. Só posso deixar, aqui, um fragmento: "Acima do papa, como expressão da autoridade eclesial, existe ainda a consciência de cada um, à qual é preciso obedecer antes de tudo e, no limite, mesmo contra as pretensões das autoridades da Igreja." »

Por opção da mulher
Frei Bento Domingues, O.P.


O "sim" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, da cultura do aborto

1.Estava já nas últimas páginas da tese e doutoramento de Vítor Coutinho, defendida na Universidade de Münster (Alemanha) - que investiga o paradigma da fecunda interacção entre Bioética e Teologia, terminando com o elogio da interrogação (1) -, quando fui surpreendido com as respostas ao inquérito do DN (30/01/2007): "Concorda ou não que, na defesa dos seus princípios, a Igreja Católica se envolva directamente na campanha do referendo?" Cinquenta e oito por cento rejeita o envolvimento da Igreja e trinta e quatro por cento apoia a sua intervenção.
Donde virá tanta alergia à intervenção da Igreja Católica, identificada abusivamente com a hierarquia?
Circula, há muito, a opinião de que a Igreja tem uma resposta dogmática, irreformável, para todos os problemas sem se preocupar com as perguntas e com os dramas das pessoas, sobretudo no campo da ética sexual. Ainda agora, na carta aos párocos e paroquianos da diocese de Lisboa sobre o referendo, o cardeal-patriarca expressa, logo no primeiro ponto, uma norma que, segundo alguns, não deixa espaço para o esclarecimento e para a liberdade de consciência: "A doutrina da Igreja sobre a vida, inviolável desde o seu primeiro momento, obriga em consciência todos os católicos. Estes, para serem fiéis a Igreja, não devem tomar posições públicas contrárias ao seu Magistério. O esclarecimento que os católicos são chamados a fazer sobre esta questão tem de ter em conta também os critérios de fidelidade à Igreja."
Os problemas de consciência nem sempre foram resolvidos desta maneira. Nem é preciso recuar até S. Tomás de Aquino. Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, quando era professor de Tubinga, escreveu um texto, pouco antes da Humanae Vitae (1968), que Hans Küng, seu colega e amigo, transcreve, agora, nas suas Memórias. Só posso deixar, aqui, um fragmento: "Acima do papa, como expressão da autoridade eclesial, existe ainda a consciência de cada um, à qual é preciso obedecer antes de tudo e, no limite, mesmo contra as pretensões das autoridades da Igreja."
Dir-se-á que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e actual Papa já teve práticas pouco conformes a esta sua luminosa afirmação. Mas não podemos ignorar que, de modos diferentes, toda a Igreja é docente e discente. Esta interacção é, muitas vezes, esquecida para se pensar, apenas, na palavra da hierarquia e na dos leigos que a reproduzem.

2.A corrente laicista, que deseja a Igreja fechada na sacristia, não creio que seja maioritária na sociedade portuguesa, apesar do nosso passado anticlerical. Mas a grande alergia à presença activa da Igreja talvez resulte da ideia de que ela quer fazer da sociedade e do espaço público uma sacristia. As declarações e posições pouco católicas de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais - isto é, parece que não confiam na consciência das mulheres, na sua capacidade de discernimento, para percorrerem todos os caminhos necessários até chegarem a uma decisão bem informada, responsável, prudencial, no sentido que a virtude da prudência, virtude da decisão bem informada, tem em Aristóteles e Tomás de Aquino.
Ora, como escreveu o prof. Vital Moreira, "quando se fala em "despenalização" de certa conduta, tanto no discurso leigo como na linguagem jurídico-penal, o que se pretende é retirá-la do âmbito do direito penal e do Código Penal, ou seja, da esfera dos crimes e das respectivas penas. (...) Só a legalização proporcionará condições para fazer acompanhar a decisão de abortar de um mecanismo obrigatório de reflexão da mulher que o pretenda fazer" (2). E nunca se deve confundir o que é legal com o que é moral.
Como dizia Tomás de Aquino, só somos verdadeiramente livres quando evitamos o mal, porque é mal, e fazemos o bem, porque é bem, não porque está proibido ou mandado. Todo o trabalho que a Igreja tem a fazer é, precisamente, o de ajudar as pessoas a caminharem para esse ponto de lucidez. Esclarecer as consciências não é formatá-las, não é impor-lhes uma outra consciência, não é aliená-las. Quando, nas condições e no prazo referidos, se chama "assassinas" às mulheres que recorrem ao aborto - que a Igreja e qualquer pessoa de bom senso desejam que nunca venha a acontecer -, pode estar-se a insultar, exactamente, as que sofrem os dramas que acompanham essas decisões dolorosas. A resposta ao referendo não deve extravasar o âmbito da pergunta aprovada.
3. Em última análise, a grande suspeita em relação à pergunta do referendo está neste fragmento da frase: "por opção da mulher." E porquê? Porque se julga que as mulheres não são de confiança. No entanto, foi a elas que a natureza confiou a concepção e o desenvolvimento da vida humana, durante nove meses.
Para os cristãos, esta desconfiança em relação às mulheres deveria ser insuportável. Não se lê, no Novo Testamento, que a Incarnação redentora ficou para sempre dependente da decisão de uma mulher, Maria de Nazaré (Lc l, 26-38)? Não foram as mulheres - e, segundo a cultura do tempo, não podiam testemunhar em tribunal - que são apresentadas, nos seus textos fundadores, como as grandes testemunhas do processo de Jesus? Não foram elas que testemunharam que Ele estava vivo, quando os Apóstolos já tinham concluído que estava tudo acabado? Não foi Maria Madalena a escolhida, por Jesus ressuscitado, para evangelizar os Apóstolos, para os convocar para a missão (3)?
E certo que os homens, logo que puderam, as subalternizaram. E, até hoje, por serem mulheres, estão, à partida, excluídas de serem chamadas para os ministérios na Igreja.
No debate sobre o referendo, receio que a Igreja - ao não dar sinais claros de respeito pelo pluralismo no seu interior - perca, uma vez mais, a ocasião de se manifestar verdadeiramente católica.

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janeiro 28, 2007

Porque raio eu existo? ... IVG em reflexão sg/A. Borges.

Uma vez, uma aluna levantou, num "trabalho", esta pergunta: "Onde estão todos aqueles que poderiam ter sido e não são?" Talvez uma daquelas perguntas inúteis, aparentemente preguiçosas, mas que não deixam de obrigar a pensar.

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janeiro 27, 2007

... "turista nos templos de Deus" ... sugiro.

|Li a sua autobiografia. Vi que tem uma religião. É crente. Posso perguntar-lhe se não acha que, como cientista, está a mexer em domínios de Deus?

|Não, creio que não. Penso que Deus (seja Deus o que for!) foi mais inteligente do que nós. Costumam perguntar-me o que é um cientista. Eu diria que o cientista é um turista nos templos de Deus. O mecanismo que descobrimos não é nosso. Existe há milhões de anos. Nós nada inventámos (é esta a grande diferença). O mecanismo foi criado por Deus, pela evolução, pelo que quer que fosse... Já existia. Nós limitámo-nos a torná-lo conhecido e disponível para ser estudado e manipulado em benefício da humanidade.

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janeiro 23, 2007

Abbé Pierre II

Aqui deixo mais algumas referências acerca desta figura incomparável. Li alguns dos seus livros. Morto que está fisicamente, ficar-nos-há pelos menos a presença da sua escrita. Que descanse em paz!
(em entrada estendida, para quem não tenha subscrição, fica o artigo de A.Marujo, in Público de 23/01/07)

Abbé Pierre Morreu o "gigante da misericórdia"
António Marujo


Vida do fundador
dos Companheiros de Emaús ficou marcada pelo "combate pela justiça e pela fraternidade"

Figura emblemática do combate à exclusão e iniciador dos Companheiros de Emaús, o Abbé Pierre morreu ontem aos 94 anos, num hospital de Paris onde tinha sido internado no dia 18 na sequência de uma bronquite.
A França está de luto, "perturbada" e "tocada no coração", como afirmou o Presidente, Jacques Chirac, numa declaração logo após a morte daquele que era a personalidade mais querida dos franceses há longos anos. Morreu um "gigante da misericórdia", disse o arcebispo de Bruxelas, cardeal Godfried Danneels.
"A sua morte fez-me pior que o frio desta manhã", queixava-se ontem Gilles Vasseur, um sem-abrigo a viver numa tenda num bairro dos arredores de Paris, à reportagem da AFP. "Nós, os sem-abrigo, os sem nada estamos hoje todos órfãos."
À direita como à esquerda política, mas também entre responsáveis de associações de apoio social ou instituições religiosas, o lamento pela morte do Abbé (padre) Pierre foi unânime.
O cardeal francês Roger Etchegaray, ex-presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, afirmou que o fundador de Emaús "nunca se enganou no combate, declarando guerra à miséria e desejando que os primeiros a servir fossem os mais sofredores".
Também os bispos franceses lhe prestaram homenagem. Em nome do episcopado belga, o arcebispo de Bruxelas saudou a memória do Abbé Pierre referindo-se a ele como "gigante da misericórdia". "Para lá das particularidades religiosas ou filosóficas, ele lembrava a cada um o seu dever de humanidade. Possa ele repousar em paz e suscitar em muitas pessoas o desejo de prosseguir o seu combate pela justiça e pela fraternidade."
As homenagens da Igreja surgem apesar das polémicas que afirmações e posições, pouco seguidoras da ortodoxia católica, suscitaram. Mesmo em casos recentes, como quando o Abbé Pierre confessou, há pouco mais de um ano, ter mantido relações sexuais com mulheres (ver caixa), a surpresa passava rapidamente.
Conta o Abbé Pierre em Testamento (ed. Notícias) que o bispo Jacques Gaillot, ele próprio marginalizado pelo Vaticano na sequência de posições polémicas, lhe perguntou um dia: "Explique-me um mistério: eu, assim que abro a boca, levo uma tareia. Você, em contrapartida, diz dez vezes mais e a mensagem passa sem problemas."
O padre respondeu que não era bispo e que "o Bom Deus" lhe dera um "instinto de insolência comedida", que lhe permitia ver até que ponto poderia "clamar".

"Antes de te matares..."
Certo é que clamou e fez muito. Resistente à ocupação da França pelos nazis, antigo deputado, Henri Grouès de seu nome de baptismo nasceu em 5 de Agosto de 1912 em Lyon, numa família numerosa - há mais de uma década já tinha 123 sobrinhos. Estudou com os jesuítas mas entrou aos 19 anos nos Franciscanos Capuchinhos. Já no tempo da ocupação nazi, recorda a AFP, entrou na clandestinidade em 1942, ajudando judeus e resistentes. Esteve preso em 1944 às ordens dos alemães, mas conseguiu escapar. Foi depois deputado entre 1945 e 1951.
É precisamente nesse período que, já dedicado a apoiar mães e crianças em dificuldade, um acaso o leva a criar os Companheiros de Emaús. Em Julho de 1995, em entrevista ao PÚBLICO numa das suas vindas a Portugal, o próprio contava que, perante um homem desesperado que queria suicidar-se, lhe disse: "Antes de te matares, não queres ajudar-me a acabar algumas destas casas para essas mães que choram?"
Em 1954, durante um Inverno especialmente rigoroso, lançou o apelo à "insurreição da bondade", como lhe chamou. O apelo foi renovado 40 anos mais tarde, em 1994 (e de novo há um ano, em plena Assembleia Nacional), para denunciar o "cancro da pobreza", pedir apoio para os mais de 400 mil sem-abrigo franceses e defender o direito ao alojamento digno para todos. A sua popularidade levou-o a ser convidado há poucos anos para integrar uma candidatura ao Parlamento Europeu.
No livro Testamento, escreve no final: "Se posso transmitir uma certeza aos que vão conduzir a luta para instilar mais humanidade em tudo, será (decididamente, não posso escrever outra coisa): "Viver é aprender a amar."" Foi esse o seu lema.
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Relações sexuais com mulheres, a última confissão
Personalidade controversa, o Abbé Pierre guardou quase para o fim da vida algumas revelações surpreendentes e a defesa de ideias pouco queridas pela hierarquia católica: No livro Porquê, Meu Deus? (que será publicado em Portugal, em Março, pela Dom Quixote), editado em França em Outubro de 2005, o fundador dos Companheiros de Emaús confessa ter tido relações sexuais com mulheres, de "forma passageira". O padre, que era a personalidade mais popular entre os franceses, acrescentava ter conhecido "a experiência do desejo sexual e da sua muito rara satisfação, mas essa satisfação foi uma verdadeira fonte de insatisfação, porque sentia que não estava na verdade". Essa confissão, no entanto, é uma curta passagem do livro, dominado por temas polémicos no interior da Igreja: celibato dos padres, defesa da possibilidade de adopção pelos homossexuais ou a hipótese de ordenação de mulheres. Em Portugal, além deste novo livro, a Editorial Notícias publicou, do Abbé Pierre, os títulos Testamento, Fraternidade, As Quatro Verdades e O Absoluto. A.M.

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Três grupos para apoiar pessoas marginalizadas em Portugal

O movimento Emaús, de luta contra a pobreza, cujo fundador morreu ontem em França, está representado em Portugal por uma comunidade em Caneças, Loures, e dois grupos no Porto, com 50 pessoas no total.
O fundador da primeira comunidade Emaús, que surgiu em 1949 em França, esteve pela última vez em Portugal no ano passado, para participar na assembleia do movimento, tendo-se deslocado a Fátima, onde rezou uma missa.
Emaús é o nome de uma localidade na Palestina onde, segundo a Bíblia, Jesus apareceu a dois dos seus discípulos após a ressurreição. Baseados na ideia de revender objectos recuperados, os Companheiros de Emaús são um grupo de entreajuda de pessoas marginalizadas (sem-abrigo, ex-reclusos, toxicodependentes).
Abbé Pierre "era uma pessoa fora do comum, completamente dada aos outros", disse à agência Lusa Humberto Pereira, um dos responsáveis da comunidade Emaús de Caneças, que lhe serviu de motorista em Portugal.
O movimento instalou-se em Portugal em meados da década de 1980 e actualmente conta entre 20 a 30 membros na comunidade de Caneças e dois grupos de 10 companheiros (designação dada aos membros) cada no Porto.
Tendo como regra não receber dinheiro da Segurança Social ou quaisquer subsídios oficiais, os companheiros recolhem móveis, electrodomésticos, roupas e outros objectos em segunda mão, que depois recuperam e vendem em lojas ou em feiras.
Uma parte do dinheiro obtido destina-se a apoiar projectos dos grupos locais, outra é enviada para a Emaús internacional, para financiar projectos em países em vias de desenvolvimento. Actualmente, a comunidade de Caneças está a apoiar projectos das Irmãs Concepcionistas em Moçambique e Timor.
Numa sociedade que, segundo Humberto Pereira, "não se preocupa em estragar" e tem "um grande preconceito em relação a coisas usadas", é mais fácil recolher objectos do que vendê-los. Portugal é um dos 40 países que acolhem os mais de 400 grupos de Emaús existentes no mundo. Lusa


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janeiro 22, 2007

Pierre, homem, abade, vida extraordinária ...

Um Ser extraordinário

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janeiro 07, 2007

A experiência da experiência ... sugiro.

O enorme enriquecimento que resulta da leitura dos poucos que poderão ser verdadeiramente "Sábios" embora recusem tal epíteto... aprendamos com A.Borges, teólogo, filósofo e ....ser humano

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janeiro 01, 2007

Do Tempo...

vouet.jpg

No Museu do Prado, em Madrid, há um pequeno quadro da autoria de Simon Vouet, representando O Tempo vencido pela Esperança e pela Beleza, aonde volto sempre. A Beleza agarra o Tempo pelos cabelos. A Esperança ameaça-o e detém-no com uma âncora.

(A. Borges:In Dn de 31 de Dezembro de 2006)

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dezembro 17, 2006

A persistência da ingenuidade...

(...) Frei Bento Domingues, o.p. in público de 17 de Dezembro

Nós, que não somos nem João Baptista nem ocupamos o cargo de secretário- geral da ONU, que podemos fazer pelo advento da alegria?
Conhecemos a regra de ouro das principais tradições éticas, venham elas da antiguidade chinesa, indiana ou israelita: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti." Jesus foi mais longe: "Ama o teu próximo como a ti mesmo." Na parábola do Bom Samaritano, ficamos a saber que o nosso próximo é aquele que precisa de nós, seja qual for a sua etnia ou a sua religião, nosso amigo ou inimigo. Este universalismo concreto foi bem expresso por S. Paulo: "Não há judeu nem grego, não há escravo ou livre, não há homem nem mulher."
Os enunciados, por mais belos que sejam, não fazem o que dizem só por serem antigos e repetidos. Também se repete que o Natal é a festa da família. De que família? Será ela o espaço onde se aprende que o mundo todo é nossa família?

(...)

O ADVENTO DA ALEGRIA
Frei Bento Domingues, O.P.

1.O Advento, vivido com verdade, é antidepressivo. Sufocados por notícias de desgraça, apresentadas como fatalidades, deixam-nos com a impressão de que não há nada a fazer. Os grandes meios de comunicação obrigam-nos a viver entre a resignação e um mundo de quimeras, sem caminhos para a alegria. O presente é, no entanto, o nosso campo de vigilância e de acção, é o espaço para a lucidez do possível. Confronta-nos com a pergunta essencial e urgente: que estamos a fazer da nossa vida? Se nos decidirmos a dispor de algum tempo para o silêncio, não nos perderemos na sociedade do consumo que nos consome. O Advento não é para gastar o tempo a embrulhar presentes, mas para descobrir formas antigas e novas de acolher a discreta presença de Deus no quotidiano, nos apelos dos outros, sem nos impormos a ninguém.
A figura de João Baptista aparece, hoje, no Evangelho de S. Lucas, como um homem que, embora pressinta que está a ser ultrapassado, não insiste em perpetuar o seu tempo, como se, depois dele, o mundo não tivesse remédio, mas também não se demite das urgências do presente. Vivia num tempo de rebelião contra o Império Romano, mas não seguiu a política da terra queimada. Optou por uma ética do possível, que alguns julgarão pouco heróica.
Às multidões que o seguem propõe coisas muito práticas: quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma e quem tiver mantimentos faça o mesmo; os cobradores de impostos não devem exigir nada além do que está prescrito; os soldados não pratiquem violência sobre ninguém, nem denunciem injustamente e contentem-se com o seu salário.
S. Lucas mostra que, apesar de toda a sua rudeza, tributário de um Deus da ira, João Baptista anunciava a todos uma esperança, um tempo outro: a era da alegria.
2. Na missa, a leitura do Evangelho começa com uma expressão, que de tão repetida, transporta-nos para o passado: "Naquele tempo..." E, muitas vezes, as homilias andam a resolver problemas de há dois mil anos com apêndices moralistas, pretensamente actuais, para destinatários que não estão na assembleia. A mensagem de Cristo parece ficar arrumada num museu de antiguidades. Esquecemos as figuras do nosso tempo que a incarnam na luta pelo advento de um mundo em que dê gosto viver.
Sabemos o perigo das canonizações antecipadas. Mas isto não nos deve impedir de destacar aqueles que são testemunha, grandes ou modestas, do mundo de paz que desejamos. Kofi Annan, secretário-geral da ONU, abandona o cargo, no próximo dia 31 de Dezembro. Não quis despedir-se sem transmitir as cinco lições que aprendeu, durante os últimos dez anos, lições que, na sua opinião, "a comunidade das nações também precisa de aprender, no momento em que tem de enfrentar os desafios do século XXI". A primeira lição é que, "no mundo de hoje, todos somos responsáveis pela nossa segurança recíproca. Perante ameaças como a proliferação nuclear, as alterações climáticas, as pandemias mundiais ou os grupos terroristas que operam a partir de refúgios seguros em Estados falhados, nenhuma nação pode garantir a sua própria segurança, afirmando a sua supremacia sobre todas as outras. Só trabalhando em prol da segurança de todos podemos esperar garantir uma segurança douradora para nós próprios.
"Essa responsabilidade inclui a responsabilidade partilhada de proteger as pessoas do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade. Uma responsabilidade que foi aceite por todas as nações, na cimeira da ONU, do ano passado. Mas, quando vemos os assassínios, as violações e a fome que são infligidos ao povo do Darfur, compreendemos que essas doutrinas não passam de mera retórica, enquanto aqueles que têm poder para intervir eficazmente - exercendo pressão política, económica ou, em último recurso, militar - não estiverem dispostos a dar o exemplo. Também têm uma responsabilidade para com as gerações futuras - a de conservar recursos que lhes pertencem tanto como a nós. Cada dia, em que nada fazemos ou não fazemos o suficiente para prevenir as alterações climáticas, tem custos elevados para os nossos filhos."
Citei, por inteiro, a primeira lição. As quatro restantes são o desdobramento pormenorizado desta (PÚBLICO, 12/12/2006). Não se ficou, no entanto, por aqui. No seu último discurso, foi implacável com a política da Administração norte-americana que resolveu invadir o Iraque à revelia do Conselho de Segurança da ONU, com as consequências trágicas, para as quais não há fim à vista. "Quando o poder, e especialmente a força militar, são usados, o mundo só o pode legitimar, se estiver convencido que tal está acontecer pelas razões certas: por objectivos comuns e de acordo com normas aceites por todos."
Nunca, nestes 61 anos, um dirigente terminou o seu mandato com críticas tão ferozes às políticas dos EUA. Longe de manifestar uma posição antiamericana, essas críticas constituem a defesa da sua melhor tradição. Kofi Annan, repetindo Harry Truman, lembrou que "a responsabilidade dos grandes Estados é servir e não dominar os restantes povos do mundo".
3. Nós, que não somos nem João Baptista nem ocupamos o cargo de secretário- geral da ONU, que podemos fazer pelo advento da alegria?
Conhecemos a regra de ouro das principais tradições éticas, venham elas da antiguidade chinesa, indiana ou israelita: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti." Jesus foi mais longe: "Ama o teu próximo como a ti mesmo." Na parábola do Bom Samaritano, ficamos a saber que o nosso próximo é aquele que precisa de nós, seja qual for a sua etnia ou a sua religião, nosso amigo ou inimigo. Este universalismo concreto foi bem expresso por S. Paulo: "Não há judeu nem grego, não há escravo ou livre, não há homem nem mulher."
Os enunciados, por mais belos que sejam, não fazem o que dizem só por serem antigos e repetidos. Também se repete que o Natal é a festa da família. De que família? Será ela o espaço onde se aprende que o mundo todo é nossa família?
A liturgia deste domingo é um hino ao advento da alegria. Que fazer para que seja mais do que mera retórica?

Publicado por morfeu às 09:27 AM | Comentários (1)

dezembro 11, 2006

Da Compaixão... sugiro

O sacrifício e a misericórdia
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Compaixão

Publicado por morfeu às 08:41 AM | Comentários (1)

dezembro 03, 2006

Advento ... sugiro.

Lx1006 060.jpg
Partilhemos a reflexão de Frei Bento Domingues, O.p.

Que Advento para este Advento?
Frei Bento Domingues, O.P. (In Público de 3 de Dezembro 2006)


Será pedir demasiado ao nosso tempo a globalização do desenvolvimento científico e tecnológico ao serviço de uma terra limpa, sem armas, sem dominadores e sem dominados?

1.Nos textos do Antigo e Novo Testamento, que encerram e abrem o percurso do ano litúrgico, abundam as evocações de catástrofe e de sinais de esperança. Hoje, as promessas exaltantes vêm dos avanços das ciências e das técnicas. Dentro das promessas crescem também as ameaças.
Jürgen Moltmann, célebre teólogo da Alemanha protestante, autor de uma famosa Teologia da Esperança (1964), adoptou, no ano 2000, as categorias de progresso e de abismo para interpretar a história cultural da modernidade. Ficou às portas do século XXI. Sigamos o seu esquema. O mundo moderno tem duas significativas origens que precedem a idade das Luzes: a primeira é a descoberta e conquista da América, em 1492; a segunda é a dominação (e a devastação!) da natureza pelo homem mediante a ciência e a técnica.
Em 1492, foi lançada a primeira pedra da "nova ordem mundial". Com a conquista da América, a Europa passou da periferia política mundial para o centro do mundo. Foi nessa data que os europeus iniciaram a dominação dos outros continentes e dos seus habitantes. Para Hegel, este foi o acto do nascimento do mundo moderno. Antes disso, as potências europeias não eram relevantes. A América é uma invenção do pensamento europeu. A vida e a cultura dos astecas, dos maias e dos incas deixaram de contar. Ilhas, montes e rios têm nomes espanhóis e portugueses. Com a conquista da América, o cristianismo, de religião europeia, tornou-se potência mundial.
A segunda pedra da "nova ordem mundial" estabeleceu-se com o domínio da natureza através da ciência e da técnica. No século que vai de Copérnico a Newton, as novas ciências empíricas tiraram à natureza o seu "encanto" (M. Weber), o seu mistério divino. Caíram os tabus ligados à Mãe Terra. Com as ciências naturais e a técnica, a Europa adquiriu o saber instrumental que lhe permitiu desfrutar e explorar os recursos dos mundos colonizados e impor uma civilização à escala mundial. Com a globalização crescente, o mundo cristão tornou-se mundo ocidental e o mundo ocidental tornou-se mundo moderno, esquecido das suas próprias origens históricas. Agora parece tudo igual: em Tóquio, em Singapura, em Chicago ou em Berlim.
2. Quais as esperanças que acompanhavam a descoberta do mundo por parte da Europa? A prospectiva de um "mundo novo". Sabe-se que Colombo procurava quer o paraíso terrestre, quer o mítico Eldorado. Deus e o ouro foram também forças motrizes da "conquista". O ouro não devia servir só para enriquecimento pessoal, mas, como se pode ler no seu Diário, para a reconquista de Jerusalém. Segundo as previsões do célebre abade calabrês Joaquim de Flora, "virá da Espanha aquele que deve trazer a arca de Sião". E porquê Jerusalém? Porque a cidade santa deveria ser a capital do reino milenário de Cristo, aquele que conduzirá à plenitude a história universal. E porquê os espanhóis? Segundo a teologia política do Estado espanhol, a monarquia universal cristã realizará o "quinto império" que, na linguagem messiânica e apocalíptica do livro de Daniel, sucede às quatro bestas que dominaram o mundo. Todos os outros reinos serão destruídos até que a humanidade se tenha tornado um único rebanho sob um único pastor. Na visão messiânica das culturas ibéricas, esta monarquia cristã durará até ao fim da história. É esta "nova ordem mundial" que os espanhóis sonharam muito antes dos EUA.
Este passado era o prólogo do futuro. A partir do século XVII, a Europa é percorrida por ondas sucessivas de esperanças messiânicas e apocalípticas.
Segundo algumas interpretações, o século XIX começou, na Europa, em 1789 e terminou em 1914. Deu origem a vários países europeus, a utopias e revoluções. Da Revolução Francesa, nasceu a visão democrática de uma soberania popular, fundada sobre os direitos dos homens e dos cidadãos, com a conhecida promessa: liberdade, igualdade e fraternidade. Da Inglaterra, veio a revolução industrial, irmã da revolução democrática, unida à promessa do bem-estar para todos e da máxima felicidade para um maior número de indivíduos. Superado o reino da necessidade, fundado sob relações de tipo industrial, a revolução socialista deveria levar à plena realização - no reino da liberdade e através da sociedade sem classes -, a revolução democrática.
A consciência do progresso - alimentada por contínuas descobertas científicas e invenções técnicas, era um começo sem fim. As grandes teorias da história, elaboradas por Comte, Hegel e Marx, robusteciam esta visão radiosa. Entretanto, as grandes potências europeias, através dos seus impérios coloniais, repartiam entre si o resto da humanidade. A par da intenção de dominar o mundo, pretendiam educar e desenvolver as populações, tidas por mais atrasadas. Neste optimismo, sobrevivia ainda uma velha premissa do Apocalipse (20, 2-44). Em 1900, parecia mesmo que o sonho europeu atingia o último país ainda independente: a China.
3. No século XX, o desenvolvimento das ciências e das técnicas foi ainda mais espectacular. Mas foi também um século de violência, com a bomba atómica e duas guerras mundiais, que os EUA ganharam. Depois da queda do império soviético, eles tornaram-se a única superpotência. Como será o século XXI? Será o século das nações verdadeiramente unidas? Os debates actuais estão virados para o choque das civilizações, para o terrorismo de invocação pseudo-religiosa, para a proliferação da bomba atómica, para o império futuro da índia e da China e para a catástrofe ambiental.
O Advento é destinado a dar asas e pés aos sonhos de paz. É o tempo para preparar a encarnação do que parece impossível. Será pedir demasiado ao nosso tempo a globalização do desenvolvimento científico e tecnológico ao serviço de uma terra limpa, sem armas, sem dominadores e sem dominados? Seria o Advento para este Advento.


Publicado por morfeu às 08:18 AM | Comentários (2)

novembro 26, 2006

O melhor ou o pior dos mundos? ... sugiro.

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H. Bosch
Devemos ser optimistas ou pessimistas? O mundo tal como se nos apresenta exige o optimismo ou a única atitude razoável é o pessimismo? O optimismo celebra o óptimo, que é o superlativo absoluto simples de bom. O pessimismo deixa-se derrotar pelo péssimo, que é o superlativo absoluto simples de mau.

Publicado por morfeu às 11:18 PM | Comentários (2)

novembro 19, 2006

No cemitério nem vivalma ... nada.

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Mas então o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Há a memória. Mas o que sobretudo há é o que nos faz homens: um in-finito ponto de interrogação, que vem ao nosso encontro como pergunta in-finita: o que é ser Homem?; porque é que há algo e não nada? A morte coloca-nos perante o abismo do nada. E o que é que se diz sobre o nada?

Publicado por morfeu às 10:06 AM | Comentários (3)

novembro 12, 2006

Latim, liturgia, beleza ... sugiro.

Frei Bento Domingues, o.p. (in Público de 12 de Novembro de 2006)
(...)
A sensibilidade estética de uma comunidade não é um pressuposto imóvel, forma-se. Exige imenso trabalho e a colaboração de toda a comunidade em serviços diferenciados. Como dizia alguém, o laço entre a liturgia e a vida da comunidade faz com que não se possam transpor celebrações de um lado para outro. Seria uma liturgia asséptica, sem cor nem odor.
Depois de tantos anos de Concílio, tornar o latim obrigatório e celebrar de costas para o povo seria desejar ver o povo de costas para a Igreja.

Publicado por morfeu às 09:17 AM | Comentários (5)

novembro 01, 2006

Dies Irae.

Dies irae, dies illa
Dia de ira, aquele dia
solvet saeclum in favilla
no qual os séculos se desfarão em cinzas

teste David cum Sibylla.
assim testificam Davi e Sibila.

Quantus tremor est futurus,
Quanto temor haverá então,

Quando judex est venturus,
Quando o Juiz vier,

Cuncta stricte discussurus.
Para julgar com rigor todas as coisas.

Publicado por morfeu às 01:06 PM | Comentários (2)

Os mortos visitam-nos ...

1 de Novembro

Publicado por morfeu às 09:21 AM | Comentários (0)

outubro 22, 2006

Rir-se-ão os ricos e poderosos da necessidade de entrarem pelo fundo de uma agulha?

Para os que tempo e paciência disponham, aqui deixo, em extensão da entrada anterior, as palavras de bento domingues.

(...) Ao contrário de João Baptista, Jesus não era um austero. Gostava da vida e das coisas boas da vida. Não se gloriava disso, porque a questão não estava aí: "Veio João Baptista que não come pão e não bebe vinho e dizeis: "Tem demónio!" Veio o Filho do Homem, que come e bebe e dizeis: "Eis aí um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores." Mas a Sabedoria é justificada por todos os seus filhos." (Lc 7, 33-35.) Que sabedoria era essa?(...)

(In jornal Público, espaço público, de 22 do corrente)

VIVER COM SABEDORIA
Frei Bento Domingues, O.P.


Jesus não era um inimigo do desenvolvimento. O seu problema era outro: a quem aproveita o desenvolvimento? Como é possível deixar uns afundados no luxo e outros na miséria? Uns à mesa e outros à porta?

1.Estas crónicas saem ao domingo, mas não estão obrigadas a abordar as temáticas das missas dominicais. Não é pelas razões que já ouvi a um padre numa homilia: "Hoje, o Evangelho não presta!" Tenho muito apreço por este dia. É, em parte, um herdeiro do sábado que representa uma das mais belas aquisições antropológicas do monoteísmo: haja, pelo menos, um dia na semana para a liberdade! O ser humano, reduzido às tarefas da produção e do consumo - até os "tempos livres" estão transformados numa indústria -, perde-se, de si mesmo, torna-se um escravo do que produz e consome, sem tempo e disposição para a conquista da liberdade interior.
Sei que também o "Dia do Senhor" se pode transformar numa escravatura, embora tenha nascido para nos tornar senhores de toda a semana. Segundo as narrativas do Novo Testamento, Jesus tinha um prazer especial em rebentar o colete de obrigações e proibições do sábado, porque, em nome da liberdade, se tinha tornado uma prisão. Já não era o sábado que guardava a alegria do povo, era o povo que tinha de guardar o sábado. O Nazareno cunhou, em cone do humanismo, a expressão máxima da crítica a todas as religiões: "Não é o homem para o sábado, mas o sábado para o homem."
Confesso que, no entanto, me irritam as repetidas denúncias do sábado judeu, lidas nas celebrações cristãs, esquecendo que são espuma de querelas entre várias tendências do mundo judaico. Escolhidas para interpelar as prisões religiosas dos cristãos, acabam na hipocrisia de pretenderem marcar uma superioridade: nós não somos legalistas como os fariseus! E mais: servem de biombo para não olhar de frente a nossa história litúrgica de prescrições e proibições, por vezes não só ridículas, mas perversas: chegou-se ao ponto de fazer da Missa de domingo uma obrigação sob pena de pecado mortal. Trocar de cadeia não é sair em liberdade. Não esqueçamos S. Paulo: "Cristo libertou-vos para a liberdade, não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão" (Gal 5, 1).
Não me pertence falar acerca da actual prática do sábado judaico. Com o fim da civilização paroquial e com a secularização da sociedade, os cristãos que não vão regularmente à Missa - embora aqui esteja a pensar sobretudo nos católicos - são classificados como "não-praticantes". Esta contabilidade sociológica transformou-se numa falsa avaliação teológica. Reduz o cristianismo aos actos do culto, quando este devia ser a alma de toda a semana orientada pelo serviço da justiça e da solidariedade, pela busca da alegria, seja qual for à profissão de cada um. O domingo existe para se respirar o ar de Deus na beleza do mundo e no encontro dos irmãos. Não é só o comodismo nem a falta de espírito cristão que leva a abandonar a chamada "prática dominical". Alguns trocam-na por exercícios bem mais custosos. Além de outras razões, talvez seja a perda de sentido lúdico e espiritual da festa de Deus na festa de libertação do que há de mais profundo em cada pessoa, que esvazia o domingo.
2. Os textos do domingo passado e deste vão directos à essência das coisas. Estão centrados na descoberta dos caminhos da sabedoria de viver, mais importante que toda a riqueza do mundo (Sab 7, 7-11).
O primeiro passo consiste em descobrir as coisas e os desejos que mandam em nós e impedem a realização dos nossos sonhos mais profundos.
A este respeito, o Evangelho de S. Marcos conta uma história exemplar (10, 17-30). Um homem corre para Jesus com o intuito de ficar a saber como é que se ganha, não só a vida que a riqueza consegue neste mundo, mas a vida eterna. Era de certeza um homem de negócios bem sucedido e cumpridor da ética dos Mandamentos. Jesus sentiu simpatia por aquele esforçado negociante da vida e propôs-lhe um salto inesperado: ""Vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me." Ele, porém, saiu triste com esta proposta, pois era muito rico [e não tinha alma para uma fundação]!"
Os próprios discípulos ficaram escandalizados com o desplante de Jesus. A ideologia dominante era a teologia do sucesso: a riqueza é não só um desejo de todos, mas uma bênção divina e a pobreza uma maldição. Outra, porém, era a ideia do novo Rabi: "Como será difícil para os que têm riqueza entrar no Reino de Deus!"
Os discípulos ficaram espantados e Jesus, em vez de atenuar esta observação, insistiu: "Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo - corda grossa para segurar os barcos - entrar pelo fundo de uma agulha do que um rico salvar-se."
O Evangelho de S. Lucas recolheu muitas outras declarações de Jesus que mostram a oposição entre a obsessão pela riqueza e a busca do Reino de Deus: não se pode servir a Deus e ao dinheiro. E sublinha que essas declarações eram tão estranhas que faziam rir os fariseus, amigos do dinheiro (Lc 16, 13-15). Não tiremos daí conclusões precipitadas. As narrativas do Novo Testamento são tecidos de muitas cores e feitios.
Ao contrário de João Baptista, Jesus não era um austero. Gostava da vida e das coisas boas da vida. Não se gloriava disso, porque a questão não estava aí: "Veio João Baptista que não come pão e não bebe vinho e dizeis: "Tem demónio!" Veio o Filho do Homem, que come e bebe e dizeis: "Eis aí um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores." Mas a Sabedoria é justificada por todos os seus filhos." (Lc 7, 33-35.) Que sabedoria era essa?
O capítulo 25 do Evangelho de S. Mateus, com as parábolas acerca das jovens loucas e das prudentes, dos talentos e do julgamento da história humana, mostra bem as exigências rigorosas da economia e a sua finalidade. Ele não era um inimigo do desenvolvimento. O seu problema era outro: a quem aproveita o desenvolvimento? Como ficam os que não têm unhas nem viola? Como é possível deixar uns afundados no luxo e outros na miséria? Uns à mesa e outros à porta? (Lc 16, 19-31). O que Ele denunciava era o abismo entre esses mundos. Ainda hoje, a queixa é a mesma. Até em Portugal.
Mas este abismo não nasce do desejo de ser, mas do desejo de ter: "Onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração." A questão não está na riqueza, mas em deixar-se possuir pela lógica da riqueza: quanto mais tem, mais quer. A sabedoria que Jesus propõe não é a abolição, mas a conversão do desejo, a nossa libertação até à raiz.


Publicado por morfeu às 10:00 AM | Comentários (1)

setembro 27, 2006

E isto não ofende o Islão?

É malhar em ferro frio... os atentados que vitimam não apenas os ocidentais invasores, mas essencialmente habitantes quer do Iraque quer no caso em referência, Afeganistão. Não ouço ninguém, comungando dos ideais Islâmicos mexer os lábios para pôr em causa os fundamentalistas que matam despudoradamente os seus... o que vier à rede, crianças, militares, mulheres ... curioso no artigo que deixo do Público, o ressurgir dos Talibã - esse asco de desumanidade - que pretendem impedir o acesso das mulheres à escolaridade... onde as vozes, onde a exigência de um mínimo de desculpas, onde as vozes moderadas, onde, afinal, a compaixão pelos seus, que não já pelos "infieis"... o sangue jorra do interior do próprio Islão, e, não me venham dizer que isso é estritamente culpa do Ocidente ...

Atentados dos taliban põem a NATO em xeque
Jorge Almeida Fernandes


No Afeganistão, os islamistas aumentam os ataques e procuram reforçar o seu controlo sobre a população

Dois ataques reivindicados pelos taliban mataram ontem 20 pessoas no Afeganistão, onde a segurança se continua a degradar. Os EUA vão enviar um general de quatro estrelas para assumir o comando. O Presidente, George W. Bush, encontra-se hoje em Washington com os presidentes Hamid Karzai, do Afeganistão, e Pervez Musharraf, do Paquistão, que se responsabilizam mutuamente pela ofensiva dos taliban.
O primeiro ataque visou a NATO em Cabul. Uma patrulha foi atingida por uma bomba, morrendo um soldado italiano e uma criança afegã. Pouco depois, um kamikaze fez-se explodir junto da sede do governo da província de Helmand (Sul), na cidade de Laskhar Gah, matando nove militares afegãos e nove civis, na maioria pessoas que aguardavam a concessão de documentos para fazer a peregrinação a Meca.
Um comandante dos taliban reivindicou as duas acções, por telefone, junto da Associated Press, tal como o assassínio a tiro, na segunda-feira, em Kandahar, de Safia Ama Jan, directora provincial do Ministério dos Assuntos da Mulher e conhecida feminista.
A situação agrava-se sobretudo desde Maio. Cinco anos após a sua derrota, os taliban ameaçam a força da NATO no Sul do país, atacam a incipiente administração governamental e tentam reforçar o controlo sobre a população. Para lá dos atentados, visam alvos simbólicos: só este mês incendiaram 146 escolas, pela sua oposição à escolarização das raparigas.
A derrapagem afegã está a alarmar europeus e americanos. A última Newsweek titula em capa: "Perdendo o Afeganistão". O título interior é mais eloquente: "A ascensão do Jihadistão - cinco anos depois da invasão do Afeganistão, os taliban voltam a combater duramente, construindo um santuário em que eles - e os chefes da Al-Qaeda - podem actuar livremente."

Karzai e Musharraf
As tropas da NATO - Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF) - , apoiadas pelo exército afegão, multiplicam as operações militares com escassos resultados. Os seus efectivos, 40 mil homens, metade americanos e os outros essencialmente europeus, são considerados insuficientes. Os seus responsáveis pedem no mínimo mais 2500 homens.
Os americanos gostariam de reduzir o seu contingente, dadas as suas necessidades no Iraque. Os países europeus, envolvidos em várias missões, dizem que não têm reservas. Ontem, a Polónia confirmou o envio de mil soldados, ao mesmo tempo que a Austrália anunciava a retirada das suas forças especiais, que serão substituídas por tropas normais. Os ministros da Defesa da NATO reúnem-se amanhã.
Os EUA anunciaram ontem a nomeação de um general de quatro estrelas, Dan K. McNeil, que assumirá o comando único de todas as forças. Segundo a AP, a decisão visa elevar o "estatuto" da missão militar e enviar um sinal: desfazer a imagem de fraqueza junto dos taliban.
"Eles pensam que é provável que a Administração Bush esteja a preparar o caminho para a retirada", diz à AP Antonio Giustozzi, analista militar em Cabul. "Talvez o envio de um general de quatro estrelas seja o meio de mostrar que o seu compromisso se mantém. E é também mais barato do que enviar mais tropas."
Ontem, Bush recebeu Karzai, a quem manifestou apoio. Hoje tem uma reunião mais difícil, com Karzai e Musharraf. O líder afegão acusa o paquistanês de autorizar os taliban a servirem-se do Paquistão como base. Musharraf acusa Karzai de não conhecer o país. Ambos terão razão, dizem os analistas. Por razões políticas internas, Musharraf celebrou uma aliança eleitoral com os fundamentalistas do Wazaristão e regiões tribais, que protegem os taliban e a própria Al-Qaeda. E Karzai é acusado de apenas governar Cabul, deixando o país aos chefes tribais.
Ainda na Newsweek, o antigo comandante da NATO na Europa general Wesley Clark sublinha que o problema central não é militar, mas político e económico. O Governo afegão não promove a segurança da população, nem o desenvolvimento, as únicas coisas que poderão derrotar os taliban. O que prospera é a cultura do ópio. "Entretanto, é a própria credibilidade da NATO que está em jogo - ainda não mobilizou todos os recursos políticos, económicos e militares para vencer. Os taliban sabem isto."


http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&m=09&d=27&uid={B8277834-9511-4221-8935-985086530362}&id=99620&sid=10990

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E isto não ofende o Islão?

É malhar em ferro frio... os atentados que vitimam não apenas os ocidentais invasores, mas essencialmente habitantes quer do Iraque quer no caso em referência, Afeganistão. Não ouço ninguém, comungando dos ideais Islâmicos mexer os lábios para pôr em causa os fundamentalistas que matam despudoradamente os seus... o que vier à rede, crianças, militares, mulheres ... curioso no artigo que deixo do Público, o ressurgir dos Talibã - esse asco de desumanidade - que pretendem impedir o acesso das mulheres à escolaridade... onde as vozes, onde a exigência de um mínimo de desculpas, onde as vozes moderadas, onde, afinal, a compaixão pelos seus, que não já pelos "infieis"... o sangue jorra do interior do próprio Islão, e, não me venham dizer que isso é estritamente culpa do Ocidente ...

Atentados dos taliban põem a NATO em xeque
Jorge Almeida Fernandes


No Afeganistão, os islamistas aumentam os ataques e procuram reforçar o seu controlo sobre a população

Dois ataques reivindicados pelos taliban mataram ontem 20 pessoas no Afeganistão, onde a segurança se continua a degradar. Os EUA vão enviar um general de quatro estrelas para assumir o comando. O Presidente, George W. Bush, encontra-se hoje em Washington com os presidentes Hamid Karzai, do Afeganistão, e Pervez Musharraf, do Paquistão, que se responsabilizam mutuamente pela ofensiva dos taliban.
O primeiro ataque visou a NATO em Cabul. Uma patrulha foi atingida por uma bomba, morrendo um soldado italiano e uma criança afegã. Pouco depois, um kamikaze fez-se explodir junto da sede do governo da província de Helmand (Sul), na cidade de Laskhar Gah, matando nove militares afegãos e nove civis, na maioria pessoas que aguardavam a concessão de documentos para fazer a peregrinação a Meca.
Um comandante dos taliban reivindicou as duas acções, por telefone, junto da Associated Press, tal como o assassínio a tiro, na segunda-feira, em Kandahar, de Safia Ama Jan, directora provincial do Ministério dos Assuntos da Mulher e conhecida feminista.
A situação agrava-se sobretudo desde Maio. Cinco anos após a sua derrota, os taliban ameaçam a força da NATO no Sul do país, atacam a incipiente administração governamental e tentam reforçar o controlo sobre a população. Para lá dos atentados, visam alvos simbólicos: só este mês incendiaram 146 escolas, pela sua oposição à escolarização das raparigas.
A derrapagem afegã está a alarmar europeus e americanos. A última Newsweek titula em capa: "Perdendo o Afeganistão". O título interior é mais eloquente: "A ascensão do Jihadistão - cinco anos depois da invasão do Afeganistão, os taliban voltam a combater duramente, construindo um santuário em que eles - e os chefes da Al-Qaeda - podem actuar livremente."

Karzai e Musharraf
As tropas da NATO - Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF) - , apoiadas pelo exército afegão, multiplicam as operações militares com escassos resultados. Os seus efectivos, 40 mil homens, metade americanos e os outros essencialmente europeus, são considerados insuficientes. Os seus responsáveis pedem no mínimo mais 2500 homens.
Os americanos gostariam de reduzir o seu contingente, dadas as suas necessidades no Iraque. Os países europeus, envolvidos em várias missões, dizem que não têm reservas. Ontem, a Polónia confirmou o envio de mil soldados, ao mesmo tempo que a Austrália anunciava a retirada das suas forças especiais, que serão substituídas por tropas normais. Os ministros da Defesa da NATO reúnem-se amanhã.
Os EUA anunciaram ontem a nomeação de um general de quatro estrelas, Dan K. McNeil, que assumirá o comando único de todas as forças. Segundo a AP, a decisão visa elevar o "estatuto" da missão militar e enviar um sinal: desfazer a imagem de fraqueza junto dos taliban.
"Eles pensam que é provável que a Administração Bush esteja a preparar o caminho para a retirada", diz à AP Antonio Giustozzi, analista militar em Cabul. "Talvez o envio de um general de quatro estrelas seja o meio de mostrar que o seu compromisso se mantém. E é também mais barato do que enviar mais tropas."
Ontem, Bush recebeu Karzai, a quem manifestou apoio. Hoje tem uma reunião mais difícil, com Karzai e Musharraf. O líder afegão acusa o paquistanês de autorizar os taliban a servirem-se do Paquistão como base. Musharraf acusa Karzai de não conhecer o país. Ambos terão razão, dizem os analistas. Por razões políticas internas, Musharraf celebrou uma aliança eleitoral com os fundamentalistas do Wazaristão e regiões tribais, que protegem os taliban e a própria Al-Qaeda. E Karzai é acusado de apenas governar Cabul, deixando o país aos chefes tribais.
Ainda na Newsweek, o antigo comandante da NATO na Europa general Wesley Clark sublinha que o problema central não é militar, mas político e económico. O Governo afegão não promove a segurança da população, nem o desenvolvimento, as únicas coisas que poderão derrotar os taliban. O que prospera é a cultura do ópio. "Entretanto, é a própria credibilidade da NATO que está em jogo - ainda não mobilizou todos os recursos políticos, económicos e militares para vencer. Os taliban sabem isto."


http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&m=09&d=27&uid={B8277834-9511-4221-8935-985086530362}&id=99620&sid=10990

Publicado por morfeu às 07:25 AM | Comentários (1)

setembro 24, 2006

Universitas scientiarum ...

Aproveitemos com igual profundidade, a intervenção de Frei Bento Domingues acerca da temática do post anterior...

(...) Afinal, que pretendia o prof. Ratzinger com uma transcrição claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e más relações entre fé, razão e violência, não precisava de sair do campo judaico-cristão. A Igreja acolheu a Bíblia hebraica, que lê, medita e proclama na sua liturgia, e na qual não existem só maravilhas. Há páginas abomináveis - que alguns julgam essenciais - de "guerra santa". Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vigília Pascal, em que é celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno é o seu amor!... E porque se permite que, diariamente, se exalte na missa o "Deus dos exércitos"?
(...)

Texto in Público

O PAPA E O PROF. J. RATZINGER
Frei Bento Domingues, O.P.


A aula do professor J. Ratzinger, na Universidade de Ratisbona, não pode nem deve ser confundida com uma homilia, uma carta pastoral, uma encíclica ou um decreto do Papa Bento XVI sobre a posição da Igreja Católica a respeito do islão

1.O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, perante os estragos das insinuações do professor J. Ratzinger, sobre o islão, feitas na Universidade de Ratisbona, vinculou o Papa à declaração do Vaticano II, Nostra Aetate: "A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum" (n.° 3).
É a partir deste pressuposto conciliar que a Igreja Católica alimenta o diálogo com o islão. Diálogo com antecedentes (basta lembrar S. Francisco de Assis, Raimundo Lulo, Nicolau de Cusa...) e com luminosas iniciativas institucionais no século XX. João Paulo II, além dos pedidos de perdão a todos aqueles que, durante dois mil anos de história da Igreja, foram ofendidos pelos seus membros, convocou para a oração pela paz, em Assis, todos os representantes do diversificado mundo religioso. Teve um especial empenhamento no diálogo com os muçulmanos. Irá Bento XVI abandonar este caminho?
Sabemos que a expressão reverenciaL - "como disse o nosso venerando predecessor" - serve muitas vezes para exprimir algumas inflexões de sentido, novas perspectivas, outros percursos. E é bom que assim seja. Quem chega de novo que venha com alguma novidade. A tradição da inovação é a melhor das tradições. Bento XVI não tem de ser um clone de João Paulo II.

2. A aula do professor J. Ratzinger, na Universidade de Ratisbona, não pode nem deve ser confundida com uma homilia, uma carta pastoral, uma encíclica ou um decreto do Papa Bento XVI sobre a posição da Igreja Católica a respeito do islão.
Dir-se-á que o cardeal Ratzinger, na função de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, confundiu, muitas vezes, a teologia católica, na sua grande diversidade de correntes, com a sua teologia pessoal. Nas suas decisões acerca da teologia da libertação, da teologia asiática e de célebres teólogos europeus, há marcas dessa atitude. Quando partiu, não deixou a convicção de que tinha favorecido a liberdade indispensável ao debate teológico no seio da Igreja Católica. Mas concluir daí que o Papa Bento XVI está a confundir o seu magistério eclesial com as suas convicções particulares é ir demasiado depressa. E uma das coisas interessantes da sua viagem à Baviera foi o regresso às recordações de criança, de adolescente, de jovem, de estudante e de professor de Teologia. Não passa pela cabeça a ninguém que estava a propor esse itinerário como um caminho a ser imitado por todas as crianças, adolescentes, jovens, estudantes e professores. Daria sinais de um excessivo narcisismo. Mas é óptimo que fale, como homem e como cristão, a partir da sua experiência. Nem a função papal deve anular a experiência da sua vida, nem o testemunho do seu percurso deve ser a norma do seu papel à frente da Igreja Católica.

3. Na Universidade de Ratisbona, Bento XVI quis regressar ao seu tempo de professor: "É para mim um momento emocionante encontrar-me, mais uma vez, na Universidade e, mais uma vez, poder dar uma aula." Não se dirige ao seu auditório com os termos usados por um Papa: "Meus caros irmãos", mas com saudações académicas e descreve, pormenorizadamente, o que era a vida cultural na Universitas scientiarum, onde figuravam duas faculdades de Teologia (uma católica e outra protestante), mantendo um laço interno com o universo da razão. A conclusão dessa aula consiste, precisamente, em mostrar que a fé autêntica alarga a razão, não a suprime. Completamente de acordo.
Começou, no entanto, com a referência a um diálogo medieval, de cariz apologético, sobre o cristianismo e o islão. Nesse diálogo, um imperador bizantino conclui que Maomé nada trouxe de novo a não ser coisas más e desumanas, como, por exemplo, que "a fé deve ser difundida pela espada". Escusado será dizer que tal referência nem sequer retrata bem a complexa problemática medieval - cristã, judia e muçulmana - sobre o tema escolhido: Fé, Razão e Universidade (1).
Afinal, que pretendia o prof. Ratzinger com uma transcrição claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e más relações entre fé, razão e violência, não precisava de sair do campo judaico-cristão. A Igreja acolheu a Bíblia hebraica, que lê, medita e proclama na sua liturgia, e na qual não existem só maravilhas. Há páginas abomináveis - que alguns julgam essenciais - de "guerra santa". Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vigília Pascal, em que é celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno é o seu amor!... E porque se permite que, diariamente, se exalte na missa o "Deus dos exércitos"?
As Cruzadas, a Inquisição, as guerras de religião não podem ser consideradas um hino às boas relações entre fé cristã e razão.
Terá o prof. Ratzinger esquecido que as insinuações de uma citação ofensiva não iriam ser exploradas como se retratassem a atitude de Bento XVI e a orientação que quer dar ao seu pontificado?
Não creio que o Papa pretenda liquidar o diálogo inter-regional. A sua preocupação de sempre tem sido mostrar a originalidade do cristianismo e, dentro desta, a do catolicismo. Louvado seja! Mas, para isso, não é lícito desfigurar os outros percursos religiosos. Na Universidade de Ratisbona, o prof. Rat