outubro 08, 2005

Emoção número três...

...a ideia era selecionar uma "emoção" significativa, da semana. Acontece porém que esta que se segue é já a número três...permitam-me esta pouco emotiva formalidade "numerativa"...

O autor da reportagem seguinte, é alguém que eu considero construidor de "Excelência"...é a minha opinião mesmo que o visado não esteja de acordo...

Viagens
REGRESSO A GRANADA
Uma coincidência espantosa

Os miúdos de Donna Tabor angariaram mil dólares para ajudar as vítimas do tsunami
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Donna Tabor, o professor-músico Raul Planas e Uli com miúdos da Los Chavalos

A música foi o meu primeiro amor. Eu tinha 11 anos. Comecei a aprender viola na mesma altura em que comecei a ouvir os Beatles. Uma paixão ateava a outra, uma simbiose febril. A minha queda para a música, ou melhor, para dentro da música, foi total.

Muitos anos e muitos amores depois, o amor pela música mantém-se. Com outras exigências, outras inquietudes, mas basicamente com o mesmo prazer intenso que me deu a primeira sequência de acordes completa tocada pelas minhas mãozinhas pré-adolescentes.

Não sou um virtuoso, apenas um músico sensato e competente - mas, dentro das disciplinas do meu curriculum existencial, a música é o saber que se encontra melhor sistematizado. Ao contrário da escrita, da fotografia, do surf e da fluência em alguns idiomas, aptidões que desenvolvi de uma forma quase autodidacta e intuitiva, a música entrou na minha vida seguindo uma estrutura teórica. Com método, com solfejo, com técnica.

Pensava em tudo isto enquanto assistia a uma aula de piano do Raul Planas na escola Los Chavalos. Se eu quisesse passar uns meses a trabalhar como voluntário aqui na escola, seria provavelmente a ensinar música. Tal como o Raul. A diferença é que ele deu esse passo, eu continuo a adiá-lo.

O Raul era professor no conservatório de Barcelona. Em 2003 pediu uma licença sem vencimento para viajar pela América Central. Em Outubro desse ano chegou a Granada, uma linda cidade colonial no Sul da Nicarágua. Entrou em contacto com o projecto da escola Los Chavalos, e decidiu ficar como voluntário durante seis meses. Passados dois anos, ainda não se foi embora.

Por detrás do projecto encontra-se a Donna Tabor, uma simpática americana que eu conheci acidentalmente durante a minha volta ao Mundo. Expliquei então, aqui na «Única», que a Donna, «com a ajuda de um grupo de amigos, criou uma fundação que financia uma escola ‘aberta’, isto é, a porta está sempre aberta para quem quiser entrar». Dizia-me a Donna na altura: «Estes miúdos vêm de situações de miséria extrema. Muitos dormem aqui, porque não têm outra casa (…). Alguns não aguentam isto e voltam para a rua. Pela liberdade, pela inércia, quase sempre pela dependência às drogas, à cola e ao crack».

Alguns não aguentam. Outros resistem - recordo bem um dos que resistem, um miúdo cheio de sardas, que está na aula do Raul. Não me lembro do nome dele, mas sei que era um caso «difícil». Quase não falava, e recusava qualquer forma de aproximação. A Donna explica-me que continua assim, excepto com o Raul. Alguma misteriosa empatia se estabeleceu entre eles. Compreendo qual, quando o miúdo se senta no piano. Sabe que eu sou jornalista, que está a ser observado, que vai aparecer num jornal. Respira fundo, olha uma última vez para o Raul e mergulha na execução. Emerge uma versão comovente de «Para Elisa». É essa a empatia entre o Raul e o miúdo, entre o professor e o aluno: estão ambos a viver o primeiro amor, aquele que se mantém, depois, para sempre: o amor pela música.

A Donna está impaciente por me mostrar outro dos microprojectos em que está envolvida. «Esta escola, como te disse, acolhe miúdos que não têm qualquer apoio, não têm família. Miúdos de rua. Agora, levo-te ao centro da cidade, para ficares a conhecer a Escuelita Yo Puedo». Acompanha-nos a Uli Pollitz, uma educadora infantil alemã que se encontra em Granada a desenvolver o programa pedagógico da Escolinha Eu Posso. Também ela como voluntária. «O nosso objectivo é ensinar a ler e a escrever todos estes miúdos que trabalham aqui no centro da cidade, geralmente a engraxar sapatos, a vender rebuçados, a ajudar as mães no comércio de rua», explica-me a Uli. «Ao contrário dos alunos da Los Chavalos, aqui estes miúdos têm uma família e uma casa. O nosso problema não é tirá-los da rua, mas convencer os pais deles a deixá-los ir à escola».

Estamos agora na praça central de Granada. Um vespeiro de catraios rodeia a Uli, que continua a explicar-me como funciona a «escuelita»: «Temos o seguinte acordo com os pais - eles deixam os miúdos vir duas horas por dia às aulas, e nós em troca damos-lhes o almoço». E conclui, com um sorriso malandro: «Nestas condições, nenhum pai se importa de ter um filho letrado em casa».

Belén é a professora da Escuelita Yo Puedo. Ao contrário da Uli e do Raul, a Belén recebe um ordenado. «O ideal seria poder prescindir de todos os voluntários e assegurar um posto de trabalho aos nicaraguenses», diz-me a Donna, «mas não temos dinheiro para tanto». Para lá da Belén na Escolinha Eu Posso, a fundação emprega nos Chavalos um professor a tempo inteiro, o Mario, e um professor de informática em «part-time», o Ramon, que estuda ainda na universidade. Lembro-me bem de ambos, já trabalhavam aqui há dois anos e meio.

Lembro-me também de vários miúdos, sobretudo dos três mais velhos: o Juan Carlos, o Óscar e o Orlando. Encontro-os a administrar o terceiro microprojecto da Donna, o pequeno restaurante Los Chavalos. Estes rapazes aprenderam a cozinhar com um conceituado «chef» mexicano, o Sérgio que, na altura em que eu passei por Granada, estava envolvido com a fundação.

«Faz todo o sentido», comenta a Donna, «termos este restaurante. Não apenas pelos lucros que já vai dando, mas sobretudo porque Granada é cada vez mais uma cidade turística. Estão sempre a surgir novos restaurantes e hotéis de charme. Estes miúdos saem daqui com mais uma ferramenta, a de saber trabalhar na restauração».

Almoçamos no restaurante. Passaram dois anos e meio, mas não passou o tempo. Continuo a sentir uma grande amizade e uma admiração ainda maior pela minha «Americana em Granada», como então a designei nas páginas da «Única». Fomo-nos mantendo em contacto e seguimos os percursos um do outro: o meu, em sentido literal, deu muitas voltas, se calhar algumas sem sentido. O percurso da Donna foi mais simples e exemplar: um maior envolvimento pessoal na comunidade, passo a passo, sabendo que é melhor fazer pouco de cada vez, mas fazer bem feito.

Falamos de próximos projectos. Digo-lhe da minha viagem eminente à Indonésia, e do meu desejo de reencontrar, nas ilhas Mentawai, os pescadores da cabana flutuante, que me hospedaram durante a volta ao Mundo. Não sei, confesso, se estarão bem, depois do tsunami. A Donna olha-me de uma maneira estranha, balbucia qualquer coisa sobre uma prova da existência de Deus, e depois conta-me tudo o que se lhe está a passar na cabeça.

«Escuta, não vais acreditar, que coincidência espantosa», diz-me, e chama o Óscar, o Juan Carlos, o Orlando. Continua, referindo-se a todos: «Nos dias a seguir ao tsunami, nós organizámos várias actividades sociais, fizemos dois jantares de beneficência, alguns espectáculos de música, enfim, lembras-te, Gonçalo, foi durante as férias do Natal, Granada estava cheia de turistas, bom, reunimos algum dinheiro para ajudar as vítimas do tsunami». Donna pára de falar um segundo e olha para todos os miúdos. Continua: «Tentei várias vezes entregar esse dinheiro, mas nunca encontrei uma organização humanitária que me parecesse indicada. Ou eram demasiado grandes e já sei que o dinheiro se perdia em burocracias; ou eram demasiado obscuras e pouco fiáveis - e eu sei do que estou a falar; ou então nem sequer respondiam aos meus ‘e-mails’».

E sem muitas mais palavras, a Donna entrega-me, em nome de todos eles, um cheque no valor de mil dólares. «Se os teus amigos pescadores precisarem, ajuda-os. Se não precisarem, alguém por lá há-de precisar». E conclui: «Realmente, uma coincidência espantosa!» Rimos todos.

Rir serve para muitas coisas. Para desdramatizar situações tensas ou patéticas; para exprimir a alegria de dar andamento à esperança; para demonstrar a felicidade de um reencontro de amigos. Rir serve também, quando estamos emocionados, para não chorar. Que foi o que me apeteceu fazer, quando alguns dos miúdos mais pobres da Nicarágua me deram o dinheiro que não têm, para ajudar amigos que não conhecem do outro lado do Mundo. Por isso me soube tão bem rir junto com a Donna, o Óscar, o Orlando e o Juan Carlos.


Mais notícias da fundação

Texto e fotografias de Gonçalo Cadilhe( In Expresso de 8/10/05)

Publicado por morfeu às 12:19 PM | Comentários (2)

maio 07, 2005

A morte da Água

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

Ruy Belo (1933-1978)
Todos os poemas – In poemário, 2005, Assírio e Alvim

Nota: no texto que utilizei, os termos “Esposende”, e, “Cávado”, aparecem em letra minúscula.

Publicado por morfeu às 10:04 AM | Comentários (2)

abril 03, 2005

Alma libertada

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Segundo a doutrina jainista, a alma adopta a aparência exterior do corpo em que reside.Como a última existência antes de se atingir a libertação espiritual tem de ser humana, o «siddha» - ou alma libertada - que reside no telhado do universo é considerado como tendo forma humana, apesar de estar livre de um corpo e de não ter forma material. A representação metálica do «siddha» desencarnado pode servir como foco de meditação sobre a finalidade da religião jaina: para se preocupar menos com a existência terrena e libertar a alma dos bens materiais.

(In:Religiões do Mundo, John Bowker,Civilização Editora)

Publicado por morfeu às 01:35 PM | Comentários (4)

fevereiro 12, 2005

O Amor é...

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contexto de origem

(...)

O Amor é fodido. Os outros, frequentemente deixam de existir. São muitos. Não percebem nada. Querem ajudar sem se darem ao trabalho, que levaria anos, de tentar perceber. Tu dizias «os nossos amigos são como as estações, onde esperamos que venha o amor que nos vai levar». Eras fresca, tu. Fazias-me sentir uma carruagem de segunda classe de um comboio que não sabia conduzir, que me levava para lugar incerto, sendo só certo que eu apenas fazia da composição, por um lado - e, pelo outro, que não queria ir.
(...)

Miguel Esteves Cardoso
O Amor é fodido (in,"Imaginarium" Assírio/Alvim, 2005)

Publicado por morfeu às 11:19 AM | Comentários (3)

janeiro 08, 2005

"A fraternidade tem subtilezas"

Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e disse: «Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras.»
Ao toque do clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita…
A fraternidade tem subtilezas.
Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.

Bernardo Soares (Pessoa 1888-1935)
Livro do desassossego(edição de Richard Zenith, in Imaginário, A/Alvim, 2005)

Publicado por morfeu às 05:28 PM

janeiro 07, 2005

Manadeira e prado e enxido e arraianos; Toirões e Côa, com contrabandistas e carabineiros...algumas lágrimas no fim

...O meu irmão Zé, que há algum tempo atrás que viva S.Pedro me ofertou um conto bem popular, lá se resolveu e enviou-me mais um original:tendo em conta o comprimento que eu dei ao título é capaz de valer bem a leitura...

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M A N A D E I R A

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Verdadeiramente não sei o que significa manadeira. Para ser franco, nunca sequer me preocupei em conhecer o significado desse termo, embora haja sempre uma razão para todas as coisas.
Por curiosidade, fui agora ao dicionário e encontrei manadeiro, como sinónimo de manancial. Daí que depreenda que se trata de um local onde brota qualquer coisa, neste caso um regato de água, mais ou menos volumoso, consoante a época e o nível de pluviosidade.
Para mim, manadeira sempre foi um local bucólico, um prado, um pouco em declive, cuja parte baixa era humedecida pelo tal regatozinho e, a parte mais alta, estava sulcada por uns belos penedos, naquela zona sempre conhecidos por barrocos.

De qualquer forma, trata-se de uma bela palavra, soa a música, ao soletrar-se abrem-se-me múltiplas recordações, vejo o regato, a ervinha tenra onde pastavam as cabrinhas, os tais barrocos e, sobretudo, o meu avô, guardião de tudo isso, enquanto eu lhe fazia companhia, por vezes também com um irmão mais novo, o Manel.
Os tais barrocos tinham longas frestas, traçadas na vertical, de modo a que do cimo deles pudéssemos observar grandes e belos lagartos que por baixo se acoitavam e dali saíam nos dias mais soalheiros.
Então o Manel era perito em espreitá-los, munido de um pau afiado, na tentativa de os espetar, proeza que por vezes conseguia, exibindo-os depois como autênticos troféus de caça. Este gajo era um miúdo danado, um ágil trepador de árvores e do campanário da Igreja, em visita ao ninho das cegonhas! E sempre com um sorriso muito charmoso, o sacaninha, que o Povo adorava!

Por ali andei, até aos 10 anos, nos intervalos da escola, a vida conduziu-me para outras paragens, mas nunca mais esqueci a manadeira.

Certo é, porém, que fiz muitas promessas de regresso, envolvendo também o prado da meia légua, o prado da cruz, a tapada do carril, o enxido da minha terra, enfim um série de locais arraianos, próximos da ribeira de Toirões e também do Côa, dormindo por vezes na choça do pastor, meu padrinho, locais propícios sobretudo ao cultivo do pão, como se chamava ao centeio e de batatas.

Nessa altura, referindo-se ao pão de centeio, os vizinhos espanhóis diziam, desdenhosamente, que comíamos pão de perro, comparativamente com o pão de trigo, muito branquinho, que eles bastamente possuíam e que, por isso, era um dos géneros mais apetecíveis, nas trocas do contrabando de subsistência que então se fazia.

Recordo-me que um dia, por alturas do Verão, andava eu numa veiga, junto à ribeira, com o meu pai a regar batatas, quando apareceu a minha mãe e com ela me levou pelos caminhos de salto da fronteira, numa dessas jornadas de contrabando.

Perto da convencionada linha fronteiriça, disfarçada por um campo de centeio, por ali nos introduzimos, vislumbrando ao longe o casario da povoação vizinha de Castela.

Mas, às tantas, fomos interceptados por dois carabineiros, o Andaluz e o Garrido, cuja tenebrosa fama fazia tremer os contrabandistas, só de ouvir os seus nomes.

Logo ali apreenderam os ovos que a minha mãe levava e os espalharam no chão enquanto um deles, pegando numa pedra, me ordenou: “niño pártelos”!

Eu teria na altura não mais do que 6 anos, já um pequeno andarilho, como sempre fui, habituado a ouvir e a começar a viver as histórias do contrabando, mas não deixava de ser simplesmente uma criança, cuja mãe ia ser barbaramente espoliada, de umas dúzias de ovos que iriam transformar-se no pão branco da nossa parca mesa de subsistência diária.

De modo que, pondo as mãos atrás das costas, recusando a cumplicidade daquele acto bárbaro, chorava copiosamente quando apareceu um guarda fiscal, Afonso de seu nome, que logo ali travou acesa discussão com os carabineiros, argumentando aquele que ali era Portugal e estes “pero no es España”!

Na dúvida, a sentença foi benévola: - recuem e vão para casa!

Assim foi, só que a minha mãe era teimosa e queria o pão branco à mesa de todos nós, pelo que, depois de recuar e aguardar um bom bocado, decidiu meter-se de novo entre a seara em direcção a Espanha.

Desta vez quem nos interceptou foram dois cães dos carabineiros e a eles nos conduziram, ao local onde estavam emboscados, enquanto eu tremia de medo.

Desta vez não houve discussão de fronteiras e lá ficámos sem os ovos!

A manadeira faz-me recordar tudo isto! Prometi a mim mesmo revisitá-la e cumpri essa promessa, há dias, quase 50 anos depois!

Estávamos no final de uma manhã fria, mas soberbamente luminosa, inundada de um Sol reconfortante.

O ar era fino, sentia-me pujante de vida, rejuvenescido, admirando aquele prado, agora sem rebanho e sem avô, mas com os mesmos barrocos altaneiros.

Em fugazes momentos revivi tanta coisa da minha vida, voltei à minha infância e escondi-me um pouco, para a Madalena, a minha mulher, não ver as lágrimas que teimosamente escorriam pelas minhas faces.

Ouvi o avô entoar a sua voz de comando para as cabrinhas, num cantar suave mas audível em todo o prado: “vê-de lá o que andais a fazer....”

Esse cantar espalhava-se pelo prado, batia nos barrocos e repetia-se em eco e as cabrinhas reagiam levantando as cabeças e baliam, denunciando a sua presença, como dizendo: olá, estamos aqui!

Vi outra vez o Manel, em cima dos barrocos, fisgando os lagartos ....

Vi outra vez o padrinho, as tias que confortaram a minha infância e que agora repousam alí bem perto no cemitério, ao pé de um prado, cheio de freixos e gorjeios da passarada.

E vi uma vida inteira, feita dos triviais momentos de alegrias e tristezas que a todos nos confortam ou consomem

Voltei à manadeira, fui outra vez menino, aos 63 anos, num dia de ar fino e de Sol brilhante, acompanhado pela Madalena, a minha mulher, que não me viu chorar.

Publicado por morfeu às 07:32 PM

dezembro 10, 2004

Este homem dá-me cabo do coração com as suas crónicas...sugiro

...Esta crónica de A.L.Antunes deve ser lida integralmente na ultima visão...fiz uma adaptação subjectiva de algumas passagens...mas para se captar bem o sentido sugiro que se leia a totalidade na revista escrita...

(…) O bairro é feio e modesto, uns metros quadrados de província no meio da cidade…No restaurantezinho todos nós torcemos a cabeça à uma, a remoer, para as imagens do tecto. Uma viúva com uma orquídea de pano no casaco vai pingando a sopa da colher, pasmada. Usa unhas cor de laranja fosforescentes. E eu vou pingando a sopa da colher, pasmado com as unhas: meu Deus, como as pessoas não cessam de espantar-me. Os dedos da viúva, gordos, tocam a orquídea num cuidado de antenas…mora ali perto, num rés-do-chão, de vez em quando benze-se. (…) A viúva sai devagar do restaurante e o perfume acompanha-a não na sua roupa, atrás de si, fiel como um cão invisível. A porção de perfume que não a acompanhou demora-se a flutuar entre nós, açucarada e densa. Com a partida da viúva o restaurante tornou-se vulgar, anónimo. Sinto a falta da orquídea.

Sinto a falta de imensas orquídeas ao longo da minha vida, de imensos perfumes. As amigas das minhas avós, por exemplo, rodeadas de nuvens cheirosas, pegando na xícara de chá numa pompa eucarística. As marcas encarnadas das bocas delas nos guardanapos, no filtro dos cigarros, nos lencinhos. Sinto a falta dos lencinhos com monograma, embora uma rapariga mulata, a tomar café ao balcão, me desarrume o passado: a harmonia secreta entre os gestos e as suas ancas enxota as amigas das minhas avós para a cave das recordações sem interesse, onde o professor de Desenho Geométrico insiste, numa fúria de que não entendo o motivo
- Vou reprovar-te, bandido
enquanto eu mastigo pastilhas elásticas desafiadoras. O professor dança nas perninhas curtíssimas
- Cospe isso, malandro
E continuo a mastigar, de olho nele, pronto a apunhala-lo com o tira linhas. (…)
A rapariga mulata acabou o café, foi-se embora. Quer dizer: continuou dentro de mim depois de se ir embora, abanando o pescoço a sacudir o cabelo. Um anel de fantasia, com uma pedra imensa, tornava-lhe os ademanes episcopais. Porque raio a Igreja católica não ordena as mulheres? Abençoai-me, senhora, visto que pequei. Mal ela sonha que daqui a uns anos se tornará igualzinha à viúva da orquídea, no seu passo difícil…
(…) A viúva da orquídea alcançou finalmente a porta e olhou para trás, com toda a tristeza do mundo na cara envelhecida: palavra de honra que deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.

António Lobo Antunes, crónica in Visão de 9/12/04

Publicado por morfeu às 07:16 PM

novembro 14, 2004

Ossos e cabeleira

garcia-marques.jpg

(…) No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, (…) A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.

(…) O histórico convento das clarissas, transformado em hospital há já um século, ia ser vendido para construírem em seu lugar um hotel de cinco estrelas. A capela estava quase exposta às intempéries devido à progressiva queda do telhado, mas nas suas criptas continuavam enterradas três gerações de bispos, abadessas e outras pessoas importantes. A primeira coisa a fazer era desocupá-las, entregar os restos a quem os reclamasse e atirar o restante para a vala comum.
Surpreendeu-me o primitivismo do método. Os operários destapavam as sepulturas com alvião e enxada, tiravam os caixões apodrecidos, que se desfaziam mal se lhes tocava, e separavam os ossos da argamassa de pó com farrapos de pano e cabelos baços. Quanto mais ilustre era o morto mais difícil se tornava o trabalho, porque era preciso esgravatar nos restos dos corpos e peneirar finamente os resíduos para recuperar as pedras preciosas e as peças de ourivesaria.
O mestre-de-obras copiava os dados da lápide num caderno escolar, arrumava os ossos em montes separados e colocava a folha com o nome em cima de cada um para não se confundirem. A minha primeira visão ao entrar no templo foi uma longa fila de montículos de ossos, aquecidos pelo violento sol de Outubro que entrava a jorros pelos buracos do tecto e sem outra identificação para além do nome escrito a lápis num pedaço de papel. Quase meio século depois ainda sinto a perturbação que me causou aquele terrível testemunho da passagem arrasadora dos anos.
(…) No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, (…) A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se para fora da cripta. O mestre-de-obras quis retirá-la completa com o auxílio dos seus operários, mas quanto mais puxavam, mais comprida e abundante ia surgindo, até saírem as últimas madeixas ainda presas a um crânio de criança. No nicho não ficaram senão uns ossitos pequenos e dispersos e na lápide de cantaria carcomida pelo salitre apenas era legível um sem apelidos: Sierva Maria de Todos los Angeles. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.
O mestre-de-obras explicou-me sem espanto que o cabelo humano crescia um centímetro por mês mesmo depois da morte e vinte e dois metros pareciam-lhe uma medida correcta para duzentos anos. A mim, pelo contrário, não me pareceu assim tão trivial porque a minha avó, quando eu era criança, contava-me a lenda de uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe…

Gabriel Garcia Marquez
(in int, a “Do Amor e outros Demónios”, ed.D.Quixote)

Publicado por morfeu às 10:17 PM | Comentários (2)

novembro 08, 2004

A morte nem sequer é maçadora...

Low_fog.jpg

Canto décimo primeiro

Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
pareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permanecem banhadas.

Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror da morte.

Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora.
Apenas vem uma vez!

Tonino Guerra (1920)
O mel
(trd. de Mário Rui de Oliveira)

Publicado por morfeu às 09:40 AM | Comentários (1)

novembro 05, 2004

Aforismos de Teixeira de Pascoaes

D’entre os homens o Poeta é o que vive mais próximo dos animais e dos deuses.

O Poeta e o Herói são dois milagres; contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.

Teixeira de Pascoaes, "Aforismos",
(selecção e organização de Mário Cesariny - Assírio e Alvim Editora)

Representamos o objectivo e o subjectivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; - três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come, em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz…

( Teixeira de Pascoaes )

Publicado por morfeu às 07:24 AM

novembro 02, 2004

Prazer e sofrimento...lido em...

(...)Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.
Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud'

...lido em..
Citador

Publicado por morfeu às 10:22 AM | Comentários (1)

julho 13, 2004

Confidência...

Publicado por morfeu às 12:39 AM | Comentários (7)

junho 26, 2004

Recordações da casa dos mortos...

Não me lembro como arranjámos o Branquinho.era um animal estranho. Uma carroça passara-lhe por cima e deformara-lhe de tal modo a espinha que, de longe, vendo-o correr, dir-se-ia dois animais, presos um ao outro. Além disso tinha sarna, olhos remelosos e rabo pelado constantemente pendente. Maltratado pelo destino, resignara-se ao silêncio. Nunca rosnava nem ladrava a ninguém, como se tivesse medo de ser ouvido.

Vivia sobretudo de pão, atrás das casernas, e mal via algum dos nossos, ao longe, apressava-se a demonstrar-lhe sua amizade e deitava-se de costas, como se dissesse: «Faz de mim o que quiseres! Vês? Não me defenderei!» E todos os forçados diante dos quais ele procedia assim se julgavam na obrigação de lhe aplicar um pontapé! «Oh, bicho imundo!» Mas o Branquinho não cometia a tolice de se queixar. Limitava-se a soltar um gemido lamentoso, logo abafado, se a dor era muito forte. O Branquinho dava as suas cambalhotas diante do Gorducho ou de qualquer outro canídeo que tentava a sorte atrás da fortaleza. Agachava-se humildemente, até mesmo quando algum grande mastim se atirava, rosnando, a ele. É de crer que os cães gostam da humildade e do respeito, entre os seus semelhantes, pois o mastim agressivo apaziguava-se logo, desconfiado, e parava diante do humilde animal estendido a seus pés, de patas para o ar. Depois, lentamente, curiosamente, começava a farejá-lo, por todos os lados. «Este matulão irá morder-me?», talvez pensasse, todo trémulo, o Branquinho. Mas, depois de o farejar com cuidado, o mastim abandonava-o, como se não tivesse encontrado nele nada que fosse digno da sua curiosidade. O Branquinho levantava-se logo e, manquejando como podia, lá ia com os outros cães atrás de uma cadela qualquer. Antecipadamente convencido de que jamais travaria conhecimento íntimo com ela, isso não o impedia de a seguir de longe, como se tal procedimento lhe servisse de consolação. Quanto à sua noção de honestidade, era muito vaga. Tendo renunciado a toda a esperança de futuro, contentava-se com encher a barriga e mais nada. Uma vez, tentei acariciá-lo. Foi para ele uma experiência tão nova, tão inesperada, que se estendeu no chão, com as quatro patas abertas ao mesmo tempo, e, todo trémulo, soltou um ladrido de satisfação. Compadeci-me e passei a fazer-lhe festa mais amiúde. Por isso, mal me via de muito longe, começava a soltar queixumes chorosos.

Fedor Dostoievski. .Recordações da casa dos mortos.. Edit. Europa-América

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maio 17, 2004

O Tempo de Maio...

Maio é o tempo da perfeita harmonia.
Trajado de negro, mal rompe a luz
O melro canta uma canção de clara alegria.
Nos campos se abraçam as flores e as cores.

O cuco saúda o verão majestoso com galhardia.
Passou o tempo dos dias ruins, a brisa é doçura.
No bosque as árvores de folhas se vestem
E se foram nuas agora são sebe de verde espessura.

O verão vem chegando e corre sem pressa a água no rio.
Manadas ligeiras nas águas mansas a sede saciam.
Na encosta dos montes se espalha o azul do cabelo da urze.
E frágil e branca se abre a flor do linho silvestre.

A pequena abelha, de fraco poder, carrega em seus pés
Rica colheita oculta em flores. O gado pasta na erva tenra
Dos verdes prados. Na sua tarefa não há fadiga
A formiga vai e depois vem para logo ir e nunca parar.

Nos bosques a harpa tange melodias, música de paz
Que acalma a tormenta que o lago agitara.
E o barco balouça de velas dormidas
Envolto na bruma da cor das flores do tempo de Maio.

.cultura celta (Irlanda)
Anónimo (Séc. IX . X)
In Rosa do Mundo . 2001 Poemas para o Futuro
(Trad. José Domingos Morais)

Publicado por morfeu às 10:29 PM | Comentários (1)

maio 12, 2004

Um terror delicioso...


O «medo», afirmava Edgar A. Poe, «é um sentimento que os homens gostam de provar quando estão certos de estar em segurança». A instauração da banalidade no Ocidente ter-nos-á gratificado com duas categorias literárias inéditas, o policial e o fantástico. Brotam quando termina a era dos milagres próprios da Idade Média, como força de ruptura num universo abandonado pela magia e pelos deuses e já submetido à disciplina do trabalho, à ciência e à técnica. É assim que livros e filmes de horror funcionam infectando o espaço: este era mágico nos contos de fadas, no futuro passa a estar envenenado. O banal torna-se horrendo, completamente animado por poderes ocultos, por ameaças reais.

Seria preciso ainda distinguir a narrativa policial clássica que relata a erupção da desordem numa sociedade policiada e o seu apagamento perante o romance negro que se une ao curso de um mundo integralmente caótico onde justiça e claridade deixaram de existir. A este respeito a cultura americana inventou dois géneros inéditos: o western que está para além da lei, o filme pessoal que se encontra fora da lei ou a sue lado. Por um lado, selvajaria de uma humanidade nas fronteiras da civilização; barbárie da selva urbana e dos meandros sociais, por outro.
Tanto no fantástico como no policial vibramos sem consequências nocivas, sem riscos. Bem sentados numa cadeira, sem preocupações, deleitamo-nos com as abominações que nos garantem: prazer do reconhecimento e de estar em terrenos familiar. Este culto do atroz é no entanto um culto de pantufeiros. Nós só aceitamos tremer porque sabemos estar a salvo, sucumbimos ao conforto do terror e esse terror controlado canaliza aqueles outros que habitualmente nos assaltam. Ter medo para aprisionar o medo, tal é a volúpia do romance negro, do filme de terror.
Estas ficções mórbidas têm pelo menos o seu quê de positivo ao contrário das nossas mitologias actuais, não dissimulam nem o mal nem a morte, pelo que com razão lhes podemos assinalar uma conotação religiosa. Temo necessidade, durante os períodos de calma, de olhar o horror de frente, de saber o que se trama por detrás do cenário demasiado ponderado das nossas vidas. (.)
Mas regressado à vida civil, o espectador, o leitor permanece assediado por todos estes medos que brotaram do ecrã ou de entre as páginas e que tinham sido provisoriamente exorcizados. Acompanham-no, puxam-lhe pela manga, sugerem-lhe que o poderiam talvez atirar na verdade para o mundo real. Pois a domesticação do horrível pela vida artística é frágil: é à plena luz do dia que germinam as maldições, que formigam os monstros e os assassinos. É preciso então retomar o caminho das salas obscuras, mergulhar numa outra intriga diabólica, injectar-se com outra dose de terror a horas certas, a fim de esconjurar todos os poderes maléficos que pululam nos interstícios do conforto e da passividade.

Lido em: .Euforia Perpétua., Pascal Brukner, ed.Público, colecção Xis

Publicado por morfeu às 11:28 PM

abril 07, 2004

Velho Barco...

Foto de Pedro Piedade

Velho barco,
Despojo salgado, de dias impantes,
Conheces um repouso, quiçá forçado,
Por humana incúria ou fortuna.

Ainda que exangue,
Em cancro possessivo,
Foi,
Necessário,
Ligar a tua esquelética veleidade,
O teu orgulho de ondas adornado,
Com,
Cabo improvisado, para,
Inconscientemente permitir,
Que em breve retomes,
A tua roubada,
Liberdade.

Tu, velho barco, não receberás,
Pacificamente,
O habitual .descansa em paz..

Publicado por morfeu às 11:17 PM | Comentários (5)

dezembro 29, 2003

QUEM ME OFERECE UMA CEREJEIRA...POR FAVOR

A CEREJEIRA EM FLOR

O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando o seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.
Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.
Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.

TONINO GUERRA (1920)
Histórias para uma noite de calmaria
( in Poemário, Assírio e Alvim- Tr. De Mário R.de Oliveira)

Publicado por morfeu às 12:44 AM